Nossa vingança é o amor
Esse é o título da Antologia poética da uruguaia Cristina Peri Rossi, lançado este ano no Brasil. Perseguida em seu país de origem e na ditadura franquista da Espanha, a amiga de Julio Cortázar – quase 84 anos – ganhou o prestigiado Prêmio Cervantes em 2021. A coletânea bilíngue cobre o período de 1971 a 2024 e revela o poder da poesia na defesa inabalável do território de Eros.
por Déborah de Paula Souza
Parece personagem de cinema: uma jovem mulher, aos 30 anos, perde sua cidadania, deixa tudo para trás e foge num barco com a namorada, carregando sua máquina de escrever. Era a primeira vez que Cristina Peri Rossi saía do seu país, ela não via outra alternativa depois do golpe militar do Uruguai, em 1973. Sobre o exílio, a poeta é sucinta: “O melhor é não nascer/mas em caso de nascer/o melhor é não ser exilado”.
Na vida de Cristina, o exílio pode ser político, social, familiar, amoroso. Nos anos 1960, ela já era professora universitária, militante de esquerda, colaboradora de um jornal comunista, e considerada uma das escritoras mais brilhantes de sua geração quando lançou Evoé, seu primeiro livro de poesias, evocando o êxtase das bacantes gregas. Causou escândalo com seu erotismo lésbico. Um ano depois, toda sua obra foi censurada e os meios de comunicação foram proibidos de citar seu nome. Para a autora, “as mulheres são livros que é preciso escrever”. No que depende dela, o resultado é magnífico: são 40 livros, sendo 18 de poesia.
Um episódio da infância, na biblioteca do tio materno, foi marcante para o exercício da escrita como afirmação de vitalidade. Ali, onde ela passava dias lendo, só havia livros de homens e apenas três escritoras: Safo, Virginia Woolf e Alfonsina Storni. Na visão do tio, as mulheres não escrevem. E se escrevem, se matam. Cristina desmentiu o vaticínio dramático, mas nunca foi imune à ameaça, tanto que citou o episódio no próprio discurso quando recebeu o Prêmio Cervantes de Literatura, em 2021, considerado a maior glória da língua espanhola.
Para Safo, Woolf e outras autoras que pagaram o preço da escrita, ela dedica o poema Genealogia:
“doces antepassadas minhas/ afogadas no mar/ou suicidadas em jardins imaginários/ trancadas em castelos de muros lilás/ e arrogantes/ esplêndidas em seu desafio (…) soberbas em sua solidão/e no pequeno escândalo de suas vidas (…).”
As questões da mulher e do feminino permeiam boa parte de sua poesia. Com humor cáustico, ela desfere golpes contra Flaubert, “um macho francês esnobe” que sonhou Emma Bovary e acabou ressentido porque, ela tem certeza, Bovary nunca sonharia com ele, e ainda por cima ficou mais famosa que seu criador. No poema Teoria literária, detona a fogueira das vaidades e o machismo dos autores, ironicamente chamados de pós-modernos:
“escrevem porque têm o pênis curto/ou o nariz torto/ porque um amigo lhes roubou a amante/e outro ganhava dele no pôquer/ Escrevem porque querem ser chefes da tribo/e ter muitas mulheres (…).
Em outros momentos, a história se passa como um filme terrível, que ela descreve aturdida: “Tenho contemplado com pavor o Grande Espetáculo do Mundo/ Homens guerreando homens estuprando homens esquartejando homens torturando (…) eu os vi na vida real/ Videla/ e na porta da minha casa/ meu pai (…) e no entanto/apesar de tudo (…) lembro de você e a ternura inunda meu coração (…).
Quanto mais leio e releio, mais me atrapalho ao escrever esse artigo, pois o que desejo mesmo colocar aqui são as palavras dela, para que a sua vingança comece a se processar em nós. É assim que ela faz. Como a criança enferma de quem se diz: quase morreu, mas não morreu, vingou. E para tanto sua escrita pode atingir uma febre de 40 graus e produzir em nós tanto a doença quanto sua cura. Penso que não é à toa que seu livro mais recente, publicado em 2024, chama-se Fata Morgana. Manejar as palavras como instrumento transformador, capaz de operar o que a poeta opera nos leitores, é arte de feitiçaria. Foi assim que o livro me fisgou. Desavisada, flanando na livraria, sem saber nada ainda dessa história, fui hipnotizada pelo título: Nossa vingança é o amor. Acontece que tinha fila no caixa e eu fui embora. Só que a frase seguiu ecoando como mantra, não pude esquecê-la e encomendei meu exemplar. E ando com ele (quase 400 páginas…) para lembrar não sei bem o quê que eu não posso esquecer, mas o livro sabe e analisa o possível do poeta: ser íntimo dos nomes e não das coisas.
Assim: (…) cada palavra que usa/reverte/ como as águas de um oceano interminável/a mares anteriores (…)/reconstrói partes de uma cosmogonia antiga/e lança fios de seda rumo a sistema futuros (…). Gracias, Cristina.
Uruguai, Espanha, Brasil: ressonâncias
Vivemos em gratidão e dívida eterna com tradutores dos livros que falam conosco. Sejam os romances, os livros de psicanálise ou de poesia, que considero os mais difíceis de traduzir. Recomendo vivamente a nota dos organizadores e tradutores da coletânea, Ayelén Medail e Cide Piquet, que começa com um poema curto da autora:
“Amar é traduzir – trair/ Nostálgicos para sempre/do paraíso antes de Babel.”
De certo modo, traduzir é revirar a língua materna até que ela seja outra, uma língua aberta ao mundo. Se o nome da poeta foi proibido de ser citado no Uruguai, como seria conhecido/traduzido aqui? Demorou. Conhecemos os europeus e os russos, mas pouco sabemos dos poetas latino-americanos. Os tradutores explicam como realizaram a difícil tarefa de selecionar os 150 poemas da Antologia, atentos à representatividade dos temas caros a Cristina, entre eles o desejo e o homoerotismo, a política, o exílio, o amor, o tempo, a memória, a proximidade da morte. O tradutores buscaram também o que tivesse “ressonância com a atual poesia brasileira”. Estão encapsuladas na palavra ressonância a música e o mistério. Por isso se diz, e concordo, que são os poetas que sabem traduzir poesia e pescar os peixes que às vezes saltam na onda ou numa reportagem, como foi o caso da edição desta coletânea, sonhada a partir de uma reportagem da revista Piauí, em 2022, que conta e contextualiza a história de Cristina, simpatizante do grupo guerrilheiro Tupamaros, no qual um dos líderes foi Pepe Mujica, que só muito depois se tornaria presidente do Uruguai.
Antes de terminar este artigo com uma vingança avassaladora de Cristina Peri Rossi, é importante destacar que ela mesma traduziu para o espanhol Angústia, de Graciliano Ramos, e Laços de família, de Clarice Lispector. Além disso, ela mantém o vigor da sua voz na defesa do feminismo contra o patriarcado, na luta contra as injustiças de gênero e o feminicídio. Sua empatia com o sofrimento das mulheres no mundo desencadeou o caso memorável de Marilyn Buck – uma mulher branca que foi presa por ter ajudado uma prisioneira negra a fugir da prisão. Numa penitenciária do Texas, Marilyn aprendeu espanhol para traduzir o livro Estado de exílio, de Cristina, que definiu tal gesto como um “ato poético”. Penso que a sequência desses atos—ajudar uma prisioneira a escapar e aprender outra língua para traduzir o exílio — se não recupera o paraíso antes de Babel, recupera a possibilidade de confiar na vida e no amor. É desse naipe o jogo que Cristina instalou no tabuleiro do mundo.
A seguir, replico aqui, na íntegra, um dos meus poemas prediletos que, espero, possa ressoar nas leitoras e leitores deste Boletim.
Um amor dos pequenos
Passada a idade dos grandes amores
– cheios de estrogênios e de hormônios
bem como de mal-entendidos e dificuldades –
volte os olhos para os pequenos
os pequenos amores:
o amor do padeiro pelo pão
o amor da viúva por sua horta
o amor da minha amiga Andrea por sua gata Frida
o amor do médico pela criança com leucemia
o amor do livreiro pelo cheiro do papel
o amor do cozinheiro pelas batatas.
Não são dos grandes
não são paixões excludentes
não há delírios orgias nem explosões de ciúmes
não fazem tanto barulho
não terminam com um frasco de comprimidos
ou um silêncio eterno e rancoroso
Peça-me um amor dos pequenos
não dos grandes
e eu te darei um amor dos pequenos
não dos grandes
O tempo a tudo devora
especialmente
as coisas grandes
(Dido, Enéas, Dante, Beatriz,
Tristão, Isolda, Romeu, Julieta)
mas às vezes tem piedade da avó
solitária e de sua gata
e lhes permite chegar à velhice
sem devorá-las antes do tempo.