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Ansiedade relacionada às telas e o papel do adulto na proteção das crianças

por Rivaldo Lima[1]

 

É o ambiente circundante que torna possível o crescimento de cada criança; sem uma
confiabilidade ambiental mínima, o crescimento pessoal da criança não pode se
desenrolar, ou desenrola-se com distorções. (Winnicott, 1960, p. 45)

 

O uso excessivo de telas tem sido um dos grandes problemas da atualidade, afetando todas as faixas etárias, principalmente as mais jovens. Quando pensamos na infância, a atenção se torna ainda maior, pois essa é considerada uma fase peculiar de desenvolvimento e que, por isso, requer um esforço de toda a sociedade para que esse público tenha prioridade absoluta de proteção contra qualquer forma de violência, como preconiza a Constituição Federal (CF) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Esse ponto da CF e do ECA – de que criança e adolescente devem ter prioridade absoluta para tudo o que for necessário ao seu desenvolvimento saudável – é muito certeiro, especialmente porque vai ao encontro de uma das principais teorias psicológicas que existem: a psicanálise winnicottiana.

De acordo com a teoria de D. W. Winnicott (pediatra e psicanalista), cada criança nasce com uma tendência ao amadurecimento emocional mas que, para se tornar real, necessita de um ambiente facilitador. Esse ambiente é composto pelos adultos responsáveis pelos cuidados da criança. Tais cuidados envolvem proteger a criança de vivências que estejam fora do seu ritmo natural de desenvolvimento, ou seja, que estejam em desacordo com sua idade e maturidade. Isso inclui a proteção no âmbito digital. O modo como pais e responsáveis administram o acesso das crianças às telas pode facilitar ou dificultar seu crescimento e sua saúde psíquica.

São dois os principais grandes riscos que o uso indiscriminado das telas oferece: prejuízo no desenvolvimento da criança e violência contra ela. O primeiro pode acontecer mesmo na ausência do segundo e, sempre que houver o segundo, o primeiro geralmente surgirá como consequência. Quanto mais nova a criança, mais intensos podem ser os prejuízos.

O principal risco relacionado ao dano no desenvolvimento se refere à pobreza de relação humana, que, por sua vez, dificulta significativamente o amadurecimento emocional da criança, podendo chegar ao extremo de pôr em xeque o seu senso de existência pessoal.

Vamos explicar melhor. Winnicott tem algumas formulações célebres em que vale nos determos. Uma delas diz: “Quando olho, sou visto. Portanto, existo” (Winnicott, 1967, p. 182). Nesse contexto, ele está se referindo à dinâmica de interação do bebê (ou da criança) com sua mãe (ou com seu cuidador principal). Em linhas gerais, o que o autor quer dizer é que o sentimento de existência da criança – e tudo o que isso desdobra – depende de ela ser enxergada, não apenas no modo simbólico da palavra, mas também literalmente: quando é vista olho no olho. Basta pensarmos no exemplo do bebê encarando a mãe enquanto mama em seu peito e recebe de volta esse olhar e as expressões faciais, com o rosto da mãe funcionando como um espelho. Isso mostra o quanto olhar nos olhos mexe com questões primitivas do nosso ser.

Essa necessidade humana (de ser visto) é profunda e fundamental: ela afeta nossa base, nosso sentimento de existência e de que somos reais, de que temos importância, de que a vida faz sentido. O padrão de como fomos vistos na infância interfere diretamente na estruturação de nossa personalidade e no modo como seguimos a vida.

Com o avanço da tecnologia e da internet, o “olho no olho” tem ficado cada vez mais raro. Tem sido muito comum as pessoas fazerem mais interações remotas, à distância. E, quando se encontram pessoalmente, o olhar é facilmente desviado para o celular e, com isso, a presença por inteira vai ficando cada vez mais escassa. Se para nós, adultos, isso já afeta a saúde mental, imagine para os pequeninos! Aliás, estarmos imersos nessa dinâmica faz com que eles reproduzam essas posturas. Um dos principais fatores que contribuem para o uso excessivo de telas pelas crianças é o exemplo dado pelos adultos.

Fica perceptível que, conforme aumenta a intensidade do uso das telas, diminuem as habilidades sociais para contatos no mundo real.

É muito tentador para os cuidadores de crianças entregarem um celular em suas mãos para que elas se distraiam e lhes deem “sossego”. No entanto, se isso se tornar um padrão, o contato olho no olho vai se perdendo e as telas vão ficando cada vez mais atrativas – tanto para as crianças quanto para os adultos.

E as telas têm um alto poder de provocar mais intensidade de seu uso e se tornar um padrão cada vez mais difícil de administrar. Um de seus efeitos cerebrais está relacionado à dopamina (neurotransmissor da motivação e do prazer). Uma das principais características da maioria dos conteúdos das telas é a novidade constante. Talvez os reels ou vídeos curtos sejam o maior exemplo disso. Uma busca contínua por novidades que deixa o pico de dopamina sempre em alta. Isso vai tornando a criança (e qualquer pessoa) menos tolerante a esperas, mais fácil de se entediar, e mais suscetível a ficar dependente dessa sensação de coisas novas e de prazer ininterrupto. Por sinal, os vícios têm essa mecânica. Além disso, o excesso de informações e estímulos mantém o cérebro em contínuo estado de alerta, o que aumenta os sintomas de ansiedade, insônia e irritabilidade.

Outro risco é a distorção do que é brincar. Muitos pais dizem que os filhos estão “brincando no celular”. No entanto, jogar eletronicamente não é o mesmo que brincar, principalmente se o jogo for solitário. O brincar que proporciona amadurecimento – e que é indispensável – é o brincar livre, que favorece a espontaneidade e a criatividade, que põe em movimento a criança, seja fisicamente ou na imaginação.

Outro risco relacionado ao prejuízo no desenvolvimento, e que é fonte de ansiedades, são as comparações típicas de redes sociais. Apesar de o acesso ser permitido somente da fase da adolescência em diante, muitas crianças e pré-adolescentes também se conectam.

Muitas pessoas pensam que pelo fato de a criança estar quietinha, dentro de casa, ela está protegida. No entanto, essa é uma falsíssima sensação de segurança. Pois além do prejuízo emocional que a hiperconectividade pode causar, o uso da internet por crianças as deixa expostas a uma série de riscos de violência psicológica e sexual. Não supervisionar o modo como a criança tem usado telas é como deixá-la solta, sozinha, no meio de uma cidade cheia de estranhos. Muitos pensam que se o corpo está “protegido”, em “segurança”, a criança estará totalmente fora de risco. Grande engano! Aliás, é bom lembrar que nem toda violência sexual passa pelo toque no corpo da criança. Não é preciso o toque físico para se cometer abusos infantis.

Em relação a esse risco de exposição a coisas para as quais não se está preparado, podemos remeter a outra elaboração notável de Winnicott, a ideia de que o mundo deve ser apresentado à criança em “pequenas doses” (Winnicott, 1949). Nesse sentido, é papel de quem cuida da criança filtrar o que chega até ela. É uma negligência gravíssima se o responsável por uma criança a deixa usar telas sem supervisão e acompanhamento, pois ela fica exposta a um mundo de coisas que podem ser completamente inapropriadas para sua fase de desenvolvimento, prejudicando-a.

Para ir concluindo, algumas das recomendações mais atuais são no sentido de que se evite telas – de qualquer tipo – para crianças menores de dois anos e que o uso para as maiores seja sempre mediado por um adulto e com tempo definido (no máximo uma ou duas horas por dia). Outra orientação importante é que crianças de até doze anos não tenham smartphones próprios e que quanto mais tarde os tiverem, melhor – e sempre com supervisão (Brasil, 2024).

A necessidade humana básica de ser visto, se não for bem atendida, pode levar a variadas formas substitutivas de se buscar esse olhar, algumas maneiras até patológicas, inclusive. Cabe a nós, e à nossa rede de apoio, cuidarmos para suprirmos essa necessidade das crianças ao nosso redor e, assim, contribuir para que o “sou visto, logo existo” não seja substituído por “sou curtido [e suas variações], logo existo”.

 

Referências

Brasil. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Crianças, adolescentes e telas: guia sobre usos de dispositivos digitais. Brasília, DF: SECOM/PR, 2024. eBook. ISBN 978-65-985657-0-1.

Winnicott, D. W. (1949). O mundo em pequenas doses. In D. W. Winnicott, A criança e o seu mundo. Rio de Janeiro: LTC, 2022.

Winnicott, D. W. (1960). Segurança. In D. W. Winnicott, A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 2018.

Winnicott, D. W. (1967). O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil. In D. W. Winnicott, O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu Editora, 2019.

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[1] Psicólogo, psicanalista em formação no 4o ano do Curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise. Coordenador de Atendimento do CNRVV – Centro de Referência às Vítimas de Violência – do Instituto Sedes Sapientiae.

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