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Sair da linha – possibilidades

por Ester Alves[1]

 

Há algumas semanas, milhares de pessoas foram às ruas em diversos estados dos EUA protestar contra as políticas autoritárias de Donald Trump. No kings era a principal bandeira do movimento. Além de ações concretas durante as manifestações, como o posicionamento de atiradores de elite pelas cidades, o presidente dos EUA publicou em rede social um vídeo feito pela IA no qual, pilotando um caça, com uma coroa na cabeça, despejava grande quantidade de fezes sobre os manifestantes[2].

Neste vídeo, é interessante notar como as imagens do luxo e lixo circulam imiscuídas uma com a outra, borrando as fronteiras que julgávamos estabelecidas. Explico: um rei na Modernidade, por exemplo, não quereria estar associado a imagens escatológicas, ainda mais sendo aquele que, justamente, carrega fezes ou defeca publicamente (neste caso, sobre o público). Tal atitude poderia ser risível. Esse novo paradigma surpreenderia até Ludovico Sforza, duque de Milão (de 1494 a 1499) que, durante o Renascimento, pediu ao Leonardo da Vinci que organizasse um manual de etiqueta para seus convidados seguirem nos jantares ducais[3].

Destacando-se a extrema direita na maestria do uso e abuso desse novo paradigma, por meio de ferramentas tecnológicas que potencializam a repercussão em nível global e instantâneo, tal prática transmutou a liberdade de expressão, conquistada a duras penas depois de um período autoritário, em imperativo de gozo.

Sob o disfarce do limite, se realiza o avanço sistemático sobre as fronteiras, que vão ficando cada vez mais e mais borradas. Isso representa fracassos sociais diversos – os quais incluem o desprezo aos acordos geopolíticos fundamentais para a convivência no planeta – e, consequentemente, fazem um rombo na costura simbólica do tecido social, o qual abrange o uso e o significado das palavras e, portanto, atingem os sujeitos e suas formas de laço[4]. Na lógica do vale tudo, tal prática se dá a ver sem a menor vergonha.

A vergonha, segundo Freud, é barreira ao prazer que se estabelece em acordo com o princípio de realidade. Este, por sua vez, inclui o princípio de autoconservação e as imposições da cultura. Com isso, o princípio de realidade alavanca o recalque[5]. Na relação com as fezes, ele incide desde o desfralde: se, para o infans, defecar a qualquer hora e em qualquer lugar, ou, no limite, lambuzar-se com suas excreções, não é causa de vergonha ou asco, a situação da criança em idade de desfralde é bem diferente: ela é demandada a reconfigurar sua relação com esse objeto que, na fala dos pais, passa à coisa suja, ao dejeto que tem que ser descartado. O cocô é sua obra e sua produção tem valor, mas enfatiza-se que é preciso renunciar a esta coisa destacada de seu corpo, despedir-se dela: “Tchau, cocô! “Só os bebês fazem cocô na fralda”, dizemos às crianças, “os mais crescidos, todos eles, dizem tchau ao seu cocô que é posto no lugar certo! – o vaso sanitário, o riozinho, o peniquinho”. Além disso, o ato de defecar vai passando à condição de ato privado. Ironiza-se, até, quando se diz que quem está no vaso, obrando (em sentido popular, o mesmo que defecar), está no trono: só ali ele reina (retém, controla), soberano. Por isso, nos quadros de patologia orgânica, perder o controle dos esfíncteres tem efeito arrasador. Além dos transtornos higiênicos, da perda na socialização e circulação, tem o efeito simbólico, o sentido de o sujeito voltar à condição de infans (aquele que não “fala” e, em sentido figurado, aquele cuja fala não tem tanto valor).

É interessante que tudo isso fique esquecido ou dissociado para aqueles que vão curtir e, principalmente, repercutir a postagem de Trump.

E ficamos com a pergunta: o que é isso? Do que se trata? Da sedução pela coroa, pela identificação ao líder, no combate ao inimigo comum do universo paralelo[6]? É resultado do medo de se sentir de fora (cuja expressão em inglês se popularizou sob a sigla FOMO (fear of missing out), tanto maior quanto mais entrincheirado no imaginário o sujeito estiver? É resultado do empobrecimento material e psíquico de uma população que, frustrada e perdida, vira massa de manobra populista, revelando, na política, nossa condição primordial de objeto? Resulta da transmutação da interdição em imperativo de gozo? Do laço perverso que, de tanto interromper fios de pensamento, por meio do “eu sei, mas mesmo assim”[7], acaba por nos entranhar cada vez mais no Labirinto do Minotauro? Tem a ver com a supressão do tempo? – afinal, como avançar no pensamento se na lógica do Time is money, o tempo para pensar equivale a tempo que vai se perder? – lógica que ignora que, por meio dela, vivemos perdidos no tempo.

Por certo, apesar de essas causas não explicarem tudo, elas lançam alguma luz sobre o fenômeno. Vale dizer, elas não são excludentes entre si, tampouco são exclusivas. Todos temos nossos pontos cegos, e eles podem, inclusive, ser recorrentes, mas temos também resistências diferentes em aceitá-los e encaminhá-los, e isso por si só faz diferença no laço social.

É interessante também que, até mesmo nós que, além de descurtir, discutimos essa bizarrice, possamos, eventualmente, tratá-la como algo banal. Nos confortamos com a ideia de que é impossível recortar e encaminhar suficientemente os assuntos nessa avalanche de acontecimentos e “desacontecimentos” (parafraseando Eliane Brum). No entanto, há que se perguntar sempre sobre a ética do nosso envolvimento, até porque, a cada dia, há uma manchete nova para nos enfeitiçar. Vale dizer, a palavra feitiço, fascínio e fetiche têm o mesmo radical, sendo este último o objeto ao qual se recusa renunciar e, como vimos, os objetos aos quais não se pode renunciar não permitem ao sujeito avançar.

Desta forma, o nosso tempo nos trouxe a peculiaridade de nos colocar on line. Em linha, somos embalados nos extremos da coroa fascinante e do dejeto nauseante, elementos de nossa engrenagem psíquica primordial. O eu, carente de coordenadas simbólicas, em linha, segue em direção ao absoluto narcísico esculpido por imagens de onipotência, ao mesmo tempo que, fascinado, flerta com o real, na medida em que a escatologia se refere ao fim, tanto o dos tempos quanto o dos corpos, aos restos intratáveis, àquilo que a palavra não tem como dizer.

Dito isso, a intenção aqui depositada não é saudosista, tampouco incrementadora da paranoia de um fim. Ao contrário, a ideia é destacar a importância do enigma, das pontas soltas, daquilo que pode nos fazer “sair da linha”, no bom e velho sentido da expressão.

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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante do GT Psicanálise e Contemporaneidade. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP.

[2] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rui-tavares/2025/10/donald-trump-lanca-fezes-sobre-a-democracia.shtml

>[3] https://youtu.be/yb_pzs897R4?si=cSCNgx6-gmZMfrwS

[4] Victor Klemperer, em “LTI: A linguagem do terceiro Reich”, 2009.

[5] Sigmund Freud, em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, 1905.

[6] No Brasil, temos o canal Brasil Paralelo, focado em cultura, história e política, que embora se diga “independente”, é reconhecido e criticado academicamente por sua abordagem ideológica, revisionista e compromisso político explícito com a extrema direita.

[7] Octave Mannoni, “Eu sei, mas mesmo assim”.

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