Construindo pontes: Histórias de migração e culturas
por Liliana Emparan[1]
Neste ano de 2025, o Projeto Ponte completou 15 anos de existência oferecendo gratuitamente atendimento psicológico/psicanalítico a migrantes e refugiados de forma online.
Tivemos a oportunidade de organizar um grande evento no Museu da Imigração do Estado de São Paulo no passado 30 de agosto. No dia, nos emocionamos com o Coral de crianças migrantes do Espaço de Bitita, tivemos duas mesas redondas de discussão, vídeo comemorativo, o grupo musical EntreLatinos, a apresentação teatral do Ato 1 da Peça Borandá, bolo comemorativo e agradecimento em várias línguas (creole, espanhol, italiano, wolof, francês, alemão, hindi, mandarim, português). Quisemos contar um pouco da nossa história e compartilhar nossas premissas clínicas: escuta, interculturalidade, diversidade, fala, inconsciente.
Como nasce o Projeto Ponte
A ideia do projeto começa a partir da minha própria experiência como migrante (sou argentina) e a necessidade de poder falar e elaborar as perdas e reconfigurações de vida a partir da migração.
Acreditando, assim, na potência da escuta psicanalítica comecei a pensar na interface Psicanálise Migração e na necessidade de uma escuta específica para a população migrante. Foi-se delineando, então, o desejo de criar um serviço de atendimento psicanalítico a migrantes e refugiados. Deixo registrado aqui meu especial agradecimento a Maria de Fátima Vicente que escutou o meu desejo e o acolheu no formato de um serviço de atendimento dentro da Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae. O meu convite para formar uma equipe de atendimento foi aceito pelas queridas colegas Claudia Sagula, Daniela Galvão e, posteriormente, por Lisette Weissmann. Agradeço as colegas por terem aceito.
O serviço de atendimento na Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae começou em 2010 e continuou por 13 anos, de forma presencial. Na época da pandemia tudo mudou e começamos a atender migrantes que viviam não tão somente em São Paulo, mas deslocados que moravam em outras cidades, outros estados e até outros países. Este desafio nos levou por adotar o atendimento on line. Assim, desde 2023 continuamos existindo de forma independente, um grupo de 10 profissionais entre psicólogas e psicanalistas que formam parte da equipe atual do Projeto Ponte.
Atualmente atendemos no formato online, oferecendo escuta e acompanhamento psicanalítico a migrantes e refugiados adultos, preferentemente no formato grupal, grupos caracterizados como interculturais e interlinguísticos.
Nos últimos anos criamos também o Projeto Ponte Curumim com seu atendimento a adolescentes e rodas de conversa para pais migrantes e famílias interculturais. Além disso, oferecemos escuta a equipes de profissionais que trabalham com migrantes, o chamado “Cuidando de quem cuida”. Participamos em mutirões de assistência aos migrantes, trabalhamos com educadores de escolas que têm alunos migrantes. Realizamos palestras sobre a temática das migrações, participamos em congressos, escrevemos artigos etc.
Nossas bases clínico-políticas
Partir da ideia de que o migrante terá necessariamente que lidar com um processo de luto, elaboração e reorganização entre línguas e culturas nos obriga a pensar na especificidade desta clínica. Como já apontamos em outro trabalho (Percurso, 2019) é urgente a necessidade de estudar a temática das migrações e seu efeitos psíquicos, a importância de criação de diferentes formas de escuta e a construção de teorias que sustentem a clínica com migrantes.
O processo de luto, referido por Freud no texto “Luto e melancolia” (1917 [1915]), inclui a perda de abstrações como a pátria, fazendo uma referência, portanto, aos processos migratórios. O luto migratório tem como conteúdo não somente a perda de vínculos familiares e de amizade, mas também a articulação de aspectos do estranho-familiar (Freud, 1919) em relação às línguas, culturas, códigos sociais, rearranjos profissionais e/ou educacionais, de moradia e documentação, sensação de pertencimento, exercício da cidadania e luta por direitos etc. Enfim, nos deslocamentos, sejam forçados ou voluntários, ocorre uma reviravolta das bases vinculares e organizadoras da vida do sujeito que dizem respeito não somente a questões singulares, mas também plurais, grupais, compartilhadas no laço social que tangenciam processos de reconhecimento e identificações. Sabemos que os migrantes despertam uma série de afetos que vão desde a hospitalidade, o acolhimento, a indiferença, o ódio, o racismo e a xenofobia, a exclusão e até a sua eliminação, o que Jacques Derrida (2003) condensou com o neologismo hostipitalidade.
Tendo em vista as particularidades de se deslocar e morar em outro país é necessário, portanto, considerar a incidência de mudanças substanciais nas interações socioculturais, do estranhamento/familiaridade a partir do qual o sujeito fala e é escutado, da inteligibilidade dos afetos que podem ou não ser manifestados socialmente, das novas concepções de saúde e doença do novo país, das novas formas de lidar com o desamparo constitutivo e a recriação de redes de apoio, aspectos estes que interferem decisivamente na adaptação, integração ou marginalização do migrante.
Como trabalhamos
Atender pessoas de diferentes culturas e línguas em grupos é um desafio, escutar as lembranças e experiências que vão trazendo os migrantes, constatar os estranhamentos que experimentamos todos no contato com o outro tão diferente de nós e, ao mesmo tempo, tão parecido em relação ao desejo de viver uma vida mais digna. Relatos que narram e reeditam histórias de lá e daqui, experiências transmitidas ao grupo no qual o profissional é um testemunho da dor do vivido, do luto ao deixar o país de origem, família, vínculos, língua e cultura de origem, e que tem também a função de auxiliar na reconfiguração dos novos caminhos, na costura das vivências do antes e depois da migração.
Atendemos preferentemente de forma grupal e nos apoiamos nas teorias pós freudianas de psicanálise de grupo, como as de René Kaës que pensam o sujeito do inconsciente no seu aspecto singular-plural, considerando as instâncias intrassubjetivas, intersubjetivas e transsubjetivas. Nos grupos falamos em português, língua comum do país de destino dos migrantes. Os pacientes falam a partir de seu próprio repertório, o que inclui poder utilizar eventualmente palavras em seu idioma originário. Não temos tradutores e o grupo tenta se autorregular nesse sentido.
Esta escolha pelo idioma português é uma aposta clínico-política que tenta colocar em cena as heranças psíquicas da colonização, tema que desenvolvemos em outro trabalho (Percurso, 2018). Muitas vezes, falar sobre assuntos dolorosos e conflitivos pode ser mais fácil em outra língua que não a materna, especialmente tendo em conta a pulsionalidade dos vínculos com a família de origem e o lugar e origem; nesse sentido “se afastar” pode propiciar um deslocamento de posição subjetiva.
As migrações provocam uma reviravolta na vida do sujeito, dos seus familiares e amigos, e até no entorno social. Algumas pessoas se sentem abandonadas, e até traídas por aquele que migrou: um misto de admiração, saudades, preocupação e angústia são sentimentos e situações mais ou menos conscientes. O migrante muitas vezes não estará presente em casamentos, aniversários e velórios. Em alguns casos, como nos casos dos refugiados, poderá nunca mais voltar ao seu país de origem.
Para o migrante não é raro ter que mudar de profissão, lidar com a estranheza do novo país, ter que aprender uma nova língua e novos códigos sociais, cuidar dos filhos sem o apoio da rede familiar, lidar com a documentação e as burocracias, e também perceber um misto de curiosidade, acolhimento e hostilidade dos habitantes locais.
Como participar da vida de um país que não é o nosso e construir um sentimento de pertencimento quando não se é bem-vindo por causa da cor da pele, da língua ou da religião?
Por isso, a importância de ter o direito ao acesso e cuidados em saúde mental. Poder falar e ser escutado naquilo que às vezes não pode ser nomeado, é traumático e precisa ser esquecido porque dói demais.
Ao logo destes 15 anos, atendemos homens e mulheres originários de diferentes países, retornados do Brasil ou brasileiros de alguns estados. Migrantes de Colômbia, Bolívia, Paraguai, Chile, Argentina, Peru, Uruguai, Venezuela, Haiti, República Dominicana, Cuba, Equador, México, República Democrática do Congo, Burundi, Marrocos, Japão, China, Estados Unidos, Irlanda, Portugal, Alemanha etc.
Um pouco de estatísticas
Em 2010 havia aproximadamente 214 milhões de migrantes internacionais no mundo, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado em 2013. Esse número representou um aumento de mais de 60 milhões de migrantes desde 2000, indicando uma tendência de crescimento na migração global. De 2010 a 2015, a população de migrantes vivendo no Brasil cresceu 20%, chegando a 713 mil. Desse contingente, 207 mil vieram de países da América do Sul.
Em 2024, segundo as Nações Unidas, há 281 milhões de migrantes internacionais que significam 3,6% da população mundial. Em 2022, existiam 117 milhões de deslocados no mundo e 71,2 milhões de deslocados internos, os refugiados foram 5,4 milhões em 2022. Em 2024, o Brasil registrou a entrada de 194.331 novos migrantes e recebeu 68.159 pedidos de refúgio.
No final de 2024, o Brasil contava com aproximadamente 2 milhões de estrangeiros residindo legalmente no país. Aproximadamente 4,5 milhões de brasileiros moram no exterior.
E para falar do tipo de migrações na atualidade podemos destacar que o tipo de deslocamentos se incrementou não somente nas migrações sul-sul, deslocamentos entre países do chamado sul global, como também entre países vizinhos, seja por guerras, motivos políticos, econômicos, sexuais, religiosos, xenofobia, racismo, também por desastres climáticos e catástrofes ambientais: as chamadas migrações humanitárias. Atualmente existe um grande número de mulheres que migram sozinhas, também crianças e adolescentes migrando desacompanhados ao fugir de guerras, fome e violência de vários tipos.
Revivemos atualmente um momento político mundial onde são reeditados os medos e ódios perante o diferente, esse estranho estrangeiro que é alvo de desconfiança e insegurança, é visto como alguém perigoso, é acusado de roubar empregos, de tirar vagas em escolas e hospitais, que se veste de forma estranha e come de forma diferente. Os conflitos e guerras envolvem um conjunto de motivos econômicos, políticos, religiosos mas também étnico-raciais como vemos acontecendo entre Rússia e Ucrania, Israel e Palestina, República Democrática do Congo e Ruanda, Síria, Sudão, Paquistão, entre outros.
Esse pavor frente a esse outro desconhecido leva a erguer barreiras, muros e arames farpados, a criminalizar o seu direito de ir e vir, característica humana e de outros animais desde os primórdios da civilização quando o ser humano deixou o continente africano e começou a se deslocar, explorando novos horizontes, terras e climas, novas formas de se alimentar e morar, pessoas de cores, peles, estaturas, culturas e línguas diferentes.
Nós, humanos, somos pessoas que temos o direito inalienável e essencial a qualquer ser humano que é o direito a se deslocar quando a vida é sofrida, as condições não permitem permanecer, a vida é um risco e se precisa ir embora, pegar alguns pertences às pressas ou não, empreender viagens perigosas e arriscadas para tentar recomeçar em outro solo, para trabalhar ou estudar, reerguendo a esperança de uma vida melhor.
O migrante é uma pessoa de coragem
Nós podemos a qualquer momento querer ou precisar migrar por qualquer motivo. Aliás, tem mais brasileiros fora do Brasil do que migrantes em nosso país.
Todos, nossos países e nossas famílias, têm na sua história antepassados migrantes. Que mistura saborosa e colorida constitui a raça humana e a nossa ancestralidade!! Ou, como diz a canção: “meu pai era paulista, meu avô pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano”…
E para complicar ainda mais: Qual a origem ou a nacionalidade de uma família cujo pai é senegalês, a mãe indiana, o filho nasceu na China e, atualmente, moram no Brasil?
Pois é, difícil definir….!
Receber, acolher e escutar os migrantes com respeito e hospitalidade é um ato político, já que o mundo globalizado que habitamos é um mundo irreversivelmente intercultural.
Bibliografia:
Derrida, J. Anne Dufourmantelle convida Jacques Derrida a falar de hospitalidade. São Paulo: Escuta, 2003.
Freud, S. Luto e Melancolia. In: Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Rio de janeiro: Imago, (1917 [1915], 1980. V. XlV
Freud, S. O “Estranho”. In: Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Rio de janeiro: Imago, (1917 [1915], 1980. V. XVl
Yu, C.; Sagula, C.; Silva, H.; Emparan, L.; Weissmann, L.; Castanho, P.; Prata, V. A clínica no Projeto Ponte: a opção pela língua portuguesa e a análise das heranças da colonização. Percurso 60 Revista de Psicanálise: Ano XXX: junho de 2018
Yu, C.; Sagula, C.; Silva, H.; Emparan, L.; Weissmann, L.; Castanho, P.; Prata, V. Desafios e especificidades da clínica com (i)migrantes e refugiados. Somos todos migrantes? Percurso 63. Revista de Psicanálise: Ano XXXll: dezembro de 2019
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, fundadora e coordenadora do Projeto Ponte. Instagram e Facebook: @projetopontepsi. E-mail: projetopontepsi@gmail.com