boletim online

jornal de membros, alunos, ex-alunos e amigos de psicanálise

O compromisso institucional e a ética da psicanálise como ferramenta de resistência

 por Psicanálise na Encruzilhada[1]

 

Boletim 77

 

O Instituto Sedes Sapientiae fundamenta sua atuação em um conjunto de princípios éticos e políticos que demandam um posicionamento claro frente à realidade social. Concebido como um centro multidisciplinar de reflexão e um espaço permanente para o desenvolvimento das ciências e das artes, contrapõe-se à mera repetição de teorias e técnicas e tem, como orientação fundamental, o compromisso de pautar suas atividades tendo o homem como princípio, a realidade social brasileira como campo de trabalho, o exercício da defesa dos direitos humanos como método, e a libertação como fim.

Nesse contexto, o Núcleo de Fomento e Pesquisa Psicanálise na Encruzilhada, do Departamento Formação em Psicanálise, organizou o evento Psicanálise e decolonialidade: reflexões sobre branquitude e identitarismo[2], que aconteceu no último mês e sobre o qual fomos convidados por Adriana Dias, do Departamento de Psicanálise, a publicar neste Boletim.

O encontro marcou um momento significativo da história e do trabalho que vem sendo desenvolvido pelo grupo, evidenciando a importância de iniciativas que convidem a comunidade Sedes ao debate coletivo e à troca de saberes, contemplando a diversidade de seus membros.

Considerando que a psicanálise e sua ética compreendem um enorme potencial de resistência e possibilidade de emancipação para invenção de novos futuros, o Departamento Formação em Psicanálise assume e sustenta o compromisso com a democratização da psicanálise, com o enfrentamento do racismo institucional e estrutural, em direção à inclusão de perspectivas não hegemônicas.

Sabemos que essa trajetória é marcada por momentos críticos de recusa em perceber o racismo perpetuado nos espaços cotidianos, seja pelo pacto da branquitude que opera silenciosamente, seja pela naturalização das desigualdades, o que convoca ao enfrentamento institucional, fundamental para romper mecanismos psíquicos e sociais que operam na manutenção do racismo em suas diversas formas. Reconhecer que, por vezes, terminamos reproduzindo mecanismos que, justamente, desejamos combater e, a partir disso, atentar para que os desencontros possam ser cuidados coletivamente, evidencia um trabalho que acontece em conjunto, quando nos vemos diante de realidades recusadas.

A interlocução preciosa com Maria Lucia da Silva, assim como com Noemi Moritz Kon e Maria Aparecida Miranda, membros do Departamento de Psicanálise, os encontros e desencontros na parceria com o GT A cor do mal-estar, a escuta aberta que revela que “nós, brancos, não vimos e não escutamos o que era tão evidente, tão gritante, tão impossível”[3], nos serviram de impulso para a ação e outras tantas iniciativas. Mas, sobretudo, para nos lembrar que a superação da recusa e da negação do racismo exige o reconhecimento desses mecanismos, como ressalta Deivison Nkozi, referindo-se ao centenário de Franz Fanon: é preciso que estejamos atentos ao narcisismo das grandes indiferenças.

O caminho percorrido pelo Psicanálise na Encruzilhada, grupo que atua de forma horizontal, com mais de 50 membros, realizando encontros quinzenais para discutir ações afirmativas e estudos conjuntos, remonta à organização do coletivo Psicanálise do nosso tempo. Ao assumir a Comissão de Coordenação Geral (CCG) do Departamento Formação em Psicanálise (gestão 2021-2023), o coletivo tinha como objetivo central estruturar um Fórum Permanente de Discussão das Relações Étnico-Raciais, e que com o apoio de Emiliano David, membro honorário do Departamento, passou a ser coordenado em parceria com o GT A cor do mal-estar. A proposta visava garantir a inclusão de diversidade e transformar a cultura institucional, alinhada à Carta de Princípios do Instituto.

Posteriormente, o coletivo passa a ser nomeado Psicanálise na Encruzilhada: o racismo em questão, que dá título ao livro publicado em 2021, Psicanálise na Encruzilhada: Desafios e paradoxos perante o racismo no Brasil, organizado por Emiliano David e Gisele Assuar. Em 2023, se constitui, então, como Núcleo de Fomento e Pesquisa Psicanálise na Encruzilhada.

Recuperar a história e seus impasses evidencia a importância de eventos como esse, que convidam ao encontro, ampliando as possibilidades de reflexão, de estudo e de proposições, em contraponto ao silenciamento.

A abertura, feita por Ana Lúcia Bastos, retomou o surgimento do Psicanálise na Encruzilhada, marcado, especialmente, pela construção coletiva e pela interlocução com os pares-parceiros do Instituto, num trabalho engajado e incansável contra o racismo e as marcas coloniais em nossas formações, escutas e subjetividades, buscando consciente e deliberadamente, o letramento racial e decolonial como um compromisso ético na transmissão da Psicanálise.

Douglas Barros, convidado a falar sobre Identitarismo, com mediação de Patrícia Villas-Bôas, e Priscila Santos de Souza com Clarice Paulon apresentando suas reflexões sobre Branquitude e colonialidade na Psicanálise, mediada por Cristina Rocha Dias, compuseram as duas mesas do evento. Mais do que retornar à temática que compõe o debate sobre as relações raciais, nos debruçamos sobre os efeitos da lógica colonial que atravessa nossos corpos, apaga histórias e memórias, silencia saberes e reproduz violência em episódios de racismo cotidiano.

Fomos também brindados com provocações e invenções propositivas, com o trabalho “na rede”, com o convite a uma leitura clínica das condições materiais da escuta e do território; a ousar sonhar novos modos de escutar o sofrimento e a situar a transferência, advertidos dos pactos narcísicos que comparecem no laço sociopolítico e na clínica. Pois, se as formas identificatórias antecipam o outro racializado, a relação com seu corpo e sua cultura, existem também modos de pertença social que resistem ao jogo de apagamento e superexploração.

O debate comprometido e interessado em cada uma das mesas, em diálogo com as questões instigantes apresentadas pelos participantes, alargou possibilidades, desenhou horizontes, partilhou a escuta, trouxe poesia e reafirmou nosso compromisso com o aquilombamento, fomentado, tanto quanto possível, dentro e fora do espaço institucional, resultado de um caminho que insiste na transformação cultural e no questionamento permanente das estruturas que perpetuam a desigualdade brasileira.

Seguimos juntos.

Psicanálise na Encruzilhada Boletim 77

 

Enredar

Tem gente que enreda a gente.
Tem gente que faz enredo e determina o começo, meio, e o fim do samba.
E saber o samba é uma alegria
Você canta alto, sabe que faz parte, o coração bate no mesmo compasso do outro.
Do outro, do lado, do outro de trás, de frente e de cima e baixo, tá no mesmo compasso.
Mas tem gente que enreda a gente
E estar na rede pode ser uma baita calmaria.
Mas penso que a rede é muito diferente de um samba-enredo, ou de uma cama.
Rede não tem chão, não tem teto, tem amarras, ou enlaces que dão o apoio
Que você tira e põe quando quiser.
Se quiser pode deixar lá, ou quando precisa pode levar pra outro lugar.
Bem simples, leve e fácil, quase nem dá trabalho.
Já uma cama, tem seu peso, tamanho, requer um pouco mais de força para se transportar
O samba-enredo é uma riqueza de construções, pode ser até de uma nota só, mas diferente da cama, o samba é quem te leva, você é levado, quase que conduzido ao ô ô ô ô…
Mas voltando para rede, do enredar, tem dentro e fora, e você escolhe se quer ou não entrar.
Você pode até tentar só dar uma sentadinha, mas quando vê, já foi, deitou-se, os pés estão para cima e um leve balanço se faz, você pode até ter um pouco de medo, mas no fundo sabe que pode confiar.
Tirar os pés do chão e repousá-los na cama é muito gostoso, confortável e revigorante, mas se deitar numa rede é uma experiência que traz contorno para o corpo todo, balança a alma, e alimenta a mente.
Como é bom poder ter rede, ser rede, e se enredar!

Denise Rodrigues Maurício

 

_________

[1] Núcleo de fomento e pesquisa coordenado pelas autoras Ana Lúcia Bastos, Cristina Rocha Dias e Patrícia Villas-Bôas.

[2] Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=WUHAkoWW17c

[3] Kon, N. M. Revista Percurso 74, 2025, p. 97.

uma palavra, um nome, uma frase e pressione ENTER para realizar sua busca.