Mas como eu vou chegar até a galeria?
por Luiza Sigulem[1]

Foto de Soraia Bento
Um, dois, três degraus. Antes mesmo de entrar, a escala já está em jogo, tanto no modo como se planeja chegar até a galeria quanto na altura em que textos e obras são oferecidos ao olhar, em geral com o centro a 1,50 m, como se partissem de um corpo tomado de antemão como medida.
Mas de quem é esse corpo para o qual tudo parece estar preparado? De que olho veio essa perspectiva que depois passa a funcionar como se não tivesse vindo de ninguém?
Durante a produção da série fotográfica Jeito de corpo, a falta de neutralidade na arquitetura começou a ficar evidente. Eu estava cansada de ficar em casa esperando que me contratassem para fazer retratos no estúdio e resolvi sair com o estúdio para a rua. Os retratos foram feitos a partir da altura da minha cadeira de rodas, e para isso montei um fundo de tecido colorido bem mais baixo do que o de um estúdio “normal”. Quem aceitava ser fotografado precisava encontrar, diante da câmera, uma maneira de caber naquela medida, e isso bastava para deslocar a imagem, porque a pose deixava de vir pronta e o enquadramento já não podia ser tomado como uma moldura indiferente. Ficava ali uma imagem ainda sem se estabilizar por completo, o corpo ainda lidando com uma escala que lhe tinha sido imposta.
Quando essas fotografias foram montadas em uma exposição, a mesma questão reapareceu no espaço. Elas foram instaladas abaixo da altura expográfica mais corrente, de modo que quem chegava precisava baixar o olhar para vê-las, e esse gesto simples fazia aparecer uma coisa que em geral passa despercebida. A parede deixava de ser apenas suporte silencioso, e a altura das obras começava a aparecer como uma decisão anterior, já tomada para um certo corpo. O que estava em jogo ali ainda era o retrato, mas já não apenas o retrato como imagem. Aparecia também a posição de quem olha e a maneira como a montagem já tinha sido feita para um certo modo de ver.
Em Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro[2], surgiram novas questões a partir de pequenas intervenções que realizei diretamente no espaço. Isso se tornou bastante visível com o rebaixamento da entrada que passou a medir 1,60m. Para a maioria das pessoas, para adentrar o espaço era preciso curvar o corpo, não de maneira teatral, mas o suficiente para que o gesto de entrar se tornasse visível. Foi uma pequena mudança na escala da porta que teve por consequência reorganizar a espacialidade como um todo, já que a partir daí sua neutralidade se tornava menos óbvia.
Essa relação entre acesso, medida e neutralidade aparecia também nas rampas produzidas no contexto da exposição e doadas a outras galerias da Vila onde ela acontecia. O que me interessou foi principalmente que a rampa permitia a passagem, mas ao mesmo tempo tornava visível que essa passagem não estava dada desde o início. Com a doação das rampas, certo impasse do espaço, que antes podia permanecer naturalizado, ficava exposto. Ao mesmo tempo a escada da galeria foi transformada em biblioteca. Os livros passaram a impedir a passagem ao andar superior, “democratizando” o não acesso ao segundo andar de um imóvel sem elevador.
A teoria crip, formulada por McRuer[3], traz a ideia de que a capacidade não aparece apenas como descrição de um corpo, mas como medida anterior a ele. A expressão “capacidade corporal compulsória” nomeia esse modo de organização em que certo ideal corporal orienta o espaço e a circulação sem precisar se apresentar como ideal. Quando esse corpo coincide com o mundo à sua volta, a norma quase não se deixa ver, mas quando essa coincidência falha, o que parecia simples de repente revela quanto havia de construção naquela suposta evidência.
Na psicanálise, a evidência desse corpo também vacila. Em Lacan, sua unidade não é originária: ela se constitui na identificação com uma imagem que lhe dá forma e ao mesmo tempo o aliena. Se tomado por esse prisma, o corpo que a arquitetura toma como referência já não aparece como dado imediato, mas como efeito dessa montagem.
Há uma ficção de inteireza nessa unidade, e a noção de resto importa aqui porque nomeia justamente aquilo que a forma não consegue totalizar. Se a imagem do corpo produz unidade, ela não apaga por inteiro o que escapa a essa forma. Quando o espaço já foi pensado a partir dessa unidade, ele se confronta menos com um corpo estável do que com uma forma que não coincide inteiramente consigo mesma. A acessibilidade não desfaz esse impasse, mas impede que ele continue apagado. A rampa não resolve por inteiro o problema do espaço mas impede que ele continue passando desapercebido.
Então, acessibilidade deixa de ser apenas uma questão técnica. Se o espaço já está pensado a partir de uma certa suposição de corpo, e essa unidade não pode ser tomada como evidência simples, o problema já não é só o do deslocamento. Ele passa também pelas condições de permanência e pelo modo como alguém consegue acompanhar o que está sendo proposto numa cena muitas vezes organizada a partir de outro corpo pressuposto. A acessibilidade acaba interferindo na forma como um espaço admite ou recusa certas presenças.
Em Jeito de corpo, o problema se revelava quando o enquadramento deixava de ser medida neutra e o esforço do corpo para se acomodar ficava retido na imagem. Em Manual…, essa medida passou a atravessar o espaço como um todo. Para entrar era preciso curvar o corpo, e a permanência também tinha suas condições, como a altura expográfica ou o bloqueio da escada. Quando a pergunta voltava, voltava com ela a tentativa de expor criticamente a medida de corpo em torno da qual o espaço costuma se organizar. ‘Como vou chegar até a galeria?’ já não dizia respeito só ao meu trajeto. É daí que o trabalho segue.
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[1] Artista visual, fotógrafa e psicanalista, integrou o grupo Escutando a cidade no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[2] Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro foi apresentada no Ateliê397, em São Paulo, entre 24 de janeiro e 28 de fevereiro de 2026, com curadoria de Juliana Caffé.
[3] A noção de “capacidade corporal compulsória” é formulada por Robert McRuer em Crip theory: cultural signs of queerness and disability (New York: New York University Press, 2006).