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Uma língua franca para a psicanálise[1]

por Sérgio Telles[2]

 

Quero agradecer a Fani Hisgail pelo convite para falar aqui hoje no Café Lacaniano. Confesso que quando ela me convidou me vi pensando: o que vou fazer eu, um “não lacaniano”, num espaço “lacaniano”? Logo me dei conta do sintomático de minha posição e aceitei de bom grado o convite.  Por que foi sintomática minha reação imediata? Porque ela ia diretamente contra o que me fez convidar Fani para participar dos Debates Clínicos.

Para que vocês entendam melhor, preciso falar um pouco sobre o que são os Debates Clínicos, uma seção da revista Percurso inspirada em The analist at work, seção que existiu no International Journal of Psychoanalysis. Cada edição do nosso debate funciona assim: a revista convida três analistas, um apresenta o caso e dois outros o comentam. Os participantes só conhecem a identidade dos demais no final do processo. Dessa forma queremos evitar situações transferenciais que interfiram na liberdade de comentar. Quanto ao material clínico, deixamos a escolha a critério do apresentador, pode ser uma sessão, um fragmento do processo analítico, uma entrevista inicial, a história de uma análise, a interrupção abrupta, um impasse contratransferencial etc. A seção Debates Clínicos existe há 13 anos e deles já participaram 70 analistas; cada seis debates publicados na revista dão origem a um livro publicado pela Editora Blucher. Já saíram 3 volumes e o quarto está em andamento.

Há várias questões que poderíamos falar sobre esse projeto, mas o que nos importa agora e que diz respeito ao tema de nossa palestra, é que procuramos, sempre que possível, convidar psicanalistas que pertençam a escolas e instituições diferentes, no intuito não só de romper as fronteiras dos diferentes guetos teóricos, como também estimular a reflexão sobre a necessidade de criar formas de simultaneamente respeitar as diferenças teóricas e buscar as semelhanças e concordâncias decorrentes do interesse comum em torno do inconsciente. Algo feito com grande sucesso nos anos 70-80 em Paris por René Major com seu grupo Confrontation e que também nos inspira.

Por esse motivo, foi sintomática minha reação inicial ao convite de Fani, pois toda a política consciente dos Debates é justamente promover o encontro de diferentes escolas. O fato de Fani, uma “lacaniana”, ter aceitado nosso convite se insere também nesse contexto e é claro que eu, “não lacaniano” deveria, sim, estar num espaço “lacaniano”. Esse pequeno acontecimento me fez pensar e deu o gancho para o tema de nossa conversa hoje.

É justamente no desejo de aproximar as várias escolas através de debates que se impõe, como diz André Green, a necessidade de uma língua franca para a psicanálise. Como se sabe, língua franca é uma antiga expressão latina, corrente desde a Idade Média, para nomear um idioma usado como meio de comunicação por pessoas que falam línguas diferentes. Muitas línguas francas foram usadas no correr da história, sendo o inglês a língua corrente em nosso tempo.

Depois que Freud estabeleceu os modelos de funcionamento do aparelho psíquico, muitos de seus discípulos estabeleceram outras hipóteses com maior ou menor proximidade ao modelo original.

Isso não deve causar espanto. O conhecimento científico não pode ficar engessado em suas formulações iniciais e é importante que elas sejam ampliadas, reformuladas, corrigidas sempre que necessário. Entretanto, esse desenvolvimento se depara com muitos empecilhos.

As novas escolas ou linhas teóricas (kleiniana, lacaniana, bioniana, winnicottiana, psicanálise do ego, psicanálise das relações objetais, ferencziana etc.) além de estabelecerem uma linguagem própria, terminam por se constituir como grupos intolerantes que não raro se assemelham a cultos religiosos em torno de textos sagrados.

A fragmentação da teoria psicanalítica em várias correntes é uma evidência do desenvolvimento de nosso conhecimento, da riqueza dos enfoques possíveis. Mas é também uma mostra das incompletudes do nosso saber, do confrontar-se com o fato de que todo conhecimento é um projeto em construção, o que gera inseguranças, dúvidas, anseios por mestres inquestionáveis. Tais angústias se reforçam com a percepção das dificuldades inerentes a nosso trabalho. Avaliar a eficácia de uma análise é algo praticamente impossível. Não há como medir precisamente o estado de um sujeito antes da análise e aferi-lo depois dela. A extraordinária complexidade do processo em si tampouco facilita sua avaliação. E mesmo que ele tenha transcorrido em condições ideais por parte do analista, ainda assim o processo pode fracassar. Não é raro o analista constatar que seus instrumentos não são suficientemente fortes frente à força das resistências do ego, do superego, do id, da viscosidade da libido, das fixações, das reações terapêuticas negativas, do masoquismo, da compulsão à repetição, da pulsão de morte – responsáveis pela impossibilidade de mudanças por parte do analisando.

Apesar de tudo, não desistimos de nosso trabalho. Talvez nos mova a lembrança de nossa experiência vivida no divã, quando constatamos “na carne” o poder da fala e da escuta analíticas, das interpretações e construções que nos traziam a luminosidade do sentido quando tateávamos às cegas na escuridão de nossos próprios inconscientes. Apesar de todas as dificuldades, acreditamos que podemos proporcionar isso a nossos pacientes.

Dada a amplitude e proliferação da produção teórica, dificilmente um analista hoje estaria inteiramente informado das peculiaridades das diversas teorias. O mais realístico é pensar que cada analista termina por se engajar numa das correntes em andamento às quais tem acesso dentro de sua realidade sociocultural.

Por tudo isso, não é raro hoje o paciente chegar ao analista e o indagar sobre sua filiação teórica, o que me parece uma pergunta legítima e que deve ser respondida e não interpretada. Se me fazem essa pergunta, me declaro um partidário da psicanálise contemporânea, que usufrui da liberdade de usar as contribuições de diferentes autores e escolas, sem se sentir em conflito de lealdade com nenhuma delas. Ainda assim, especifico a imprescindível base freudiana (junto com a visão crítica de Laplanche), com fundamentais aportes de Melanie Klein, ao que se acrescentam muitas pitadas de Lacan, Winnicott, Bion, Ferenczi, Kaës, Berenstein.

Parafraseando o que Bollas diz sobre o “idioma” do paciente, o analista também tem o seu “idioma” pessoal e profissional, aquilo que explicita a singularidade com que apreendeu e assimilou o conhecimento psicanalítico em sua formação e como o utiliza em sua prática clínica.

Mas, do ponto de vista político e institucional, penso que André Green está certo quando diz que o movimento psicanalítico deveria desencorajar os “idiomas” particulares dos diversos grupos e trabalhar pelo estabelecimento de uma terminologia universalmente compartilhada, usando como língua franca o vocabulário freudiano. Tal medida proporcionaria uma compreensão mais clara e limpa das novas contribuições, evitando a “babelização” (de Torre de Babel) do campo analítico, com superposições e confusões desnecessárias.

Cito agora extensamente um trecho de Fernando Urribari em seu posfácio do último livro de André Green, Ilusões e desilusões do trabalho psicanalítico (2010). que sintetiza pontos importantes do que estamos falando aqui.

André Green sugeriu que a crise pós-freudiana da psicanálise é de cunho “melancólico”: em outras palavras, ela é marcada por um luto interminável pela morte de Freud. Sintomaticamente, cada importante autor pós-freudiano tem querido substitui-lo como figura principal; cada movimento militante acreditou estar revivendo a situação original dos pioneiros e a do pai fundador. Psicologia do ego, psicologia do self, kleinismo, lacanismo, todos eles repetiram o mesmo processo, consistindo em defender seu próprio modelo reducionista, convertendo-o em dogma, rigidificando uma técnica particular e idealizando um líder de escola. O projeto contemporâneo que Green propõe deseja ser um antídoto à repetição desse processo, ao invés de um “discurso” ou “sistema” greeniano, ao invés de um novo mantra, o projeto contemporâneo visa construir uma matriz de disciplinas, uma articulação de ideias-chave para um programa de pesquisa dirigido a temas teóricos essenciais de consequências práticas. Dizendo de forma mais simples, podemos afirmar que a matriz disciplinar contemporânea se baseia em quatro eixos. O primeiro é uma leitura de Freud contemporânea crítica, histórica e problematizada (Laplanche, in Bleichmar, 1986), que recoloque a metapsicologia e o método freudianos como as fundações da psicanálise. O segundo envolve uma apropriação das principais contribuições pós-freudianas, ao lado de uma abertura cosmopolita para o diálogo com outros autores. O terceiro corresponde à extensão do campo clínico para o tratamento de casos não neuróticos. O quarto é um modelo clínico “terciário” que integre modelos freudianos e pós-freudianos (centrados na transferência), baseados no conceito do setting analítico. Mais ainda, nesse novo modelo, o vocabulário freudiano fica estabelecido como a língua franca e referência compartilhada por todos.[3]

Terminada a longa citação, retomo a palavra. Mais recentemente percebi que o projeto de uma língua franca para a análise contemporânea de Green não pode ignorar uma nova a “língua” que se impõe e que inexistia antes. Refiro-me à língua da Inteligência Artificial Generativa (IAG), com a qual a psicanálise, a meu ver, vai ter de aprender a “falar” e que pode, ela mesma, a IAG, servir como uma espécie de língua franca.

É sabido que, no mundo inteiro, centenas de milhões de pessoas passaram a usar espontaneamente a IAG como suporte emocional. No Brasil, estudos recentes afirmam que mais de 12 milhões de brasileiros usam a IA com esse objetivo e metade deles (cerca de 6 milhões) recorre ao ChatGPT. A IA é usada sistematicamente como suporte terapêutico por várias instituições psiquiátricas e psicoterápicas nos Estados Unidos. É um fenômeno que, como analistas, não podemos ignorar[4].

A específica ligação da IAG com a psicanálise suscita inúmeros problemas e foi incialmente repudiada pelos analistas de forma taxativa. Mas, à medida em que ficou perfeitamente estabelecida a questão ética de que ela não pode exercer qualquer função terapêutica por lhe faltar a dimensão da transferência-contratransferência própria da condição humana e imprescindível para a prática da psicanálise, me parece que se abre um espaço para a curiosidade e a experimentação. Reconhecer essas limitações éticas e estruturais, além da onisciência e imediaticidade próprias da IAG, que destroem as imposições próprias do setting analítico (as questões de silêncio, alternância de presença e ausência, a temporalidade própria do inconsciente), não anula a realidade de sua surpreendente capacidade interpretativa e habilidade didática única que consegue dispor da teoria psicanalítica de forma acessível e clara.

Penso que a capacidade interpretativa da IAG poderia ser usada pelos analistas como uma espécie de “supervisor heurístico”, que decifra os conteúdos inconscientes como ninguém. O analista poderia usá-la para checar as interpretações dadas a seu paciente, compará-las com as que a IAG oferece em troca e, posteriormente, confrontar esse material com um colega supervisor humano, este sim provido da capacidade de avaliar transferência-contratransferência.

Não quero me deter nesse aspecto da questão e sim no que nos diz respeito agora, a possibilidade de que a IAG possa vir a ser uma outra língua franca, ao lado daquela proposta por Green.

É impressionante a capacidade da IAG de analisar e sintetizar as obras de autores psicanalíticos de diferentes escolas, de apontar suas peculiaridades, de articulá-las e compará-las entre si. É essa capacidade de articulação e comparação que funciona – a meu ver – com uma língua franca, na medida em que aproxima e estabelece um diálogo direto entre elas, desfaz equívocos e mistificações, elimina os hermetismos excessivos que promovem a impostura e a idealização.

Uma outra maneira com a qual a IAG age para romper com as barreiras das escolas psicanalíticas é a absoluta democratização do saber que ela promove. Qualquer um pode acessar o saber teórico psicanalítico a qualquer momento, sem a mediação de poderes institucionais estabelecidos – professores, mestres, doutores.  A IAG provoca uma verdadeira revolução na forma de conceber o ensino, pois o professor deixa de ser aquele que possui o conteúdo, e passa a ter outras funções, como mentor, guia, orientador, curador. Esta transição está em andamento e as dificuldades são grandes, como se tem notícias do que ocorre nos campi norte-americanos.

Talvez o aspecto mais importante dessa revolução pedagógica seja a que se dá no campo da estabelecida equação entre saber e poder. Se o saber se democratiza, como permite o ChatGPT, o poder se esvazia em sua força e tem de repensar suas estratégias.

Há um ano escrevi um artigo publicado agora no último número (74) da Percurso chamado Das toaletes de Tóquio ao ChatGPT, sobre uma pequena experiência que fiz com o ChatGPT, seguindo as simples instruções de Lance Eliot, um cientista e consultor de inteligência artificial (IA), conhecido mundialmente por suas pesquisas e colunas que são seguidas por milhões de leitores. Nessa experiência, pedi ao ChatGPT sua interpretação do filme Dias perfeitos, de Wim Wenders, que coincidiu com a minha própria; depois fiz o mesmo com quatro curtos fragmentos clínicos, surpreendendo-me com a acuidade e precisão de suas interpretações, que mais uma vez coincidiam com as minhas.

Posteriormente, submeti ao ChatGPT vários de meus textos literários, solicitando sua apreciação crítica e mais uma vez rendi-me a seu poder hermenêutico e, no caso, à sua abordagem estética.

Darian Leader, analista lacaniano, em artigo muito recente faz interessantes colocações a respeito da IAG. Mostra como atualmente houve uma inversão – ao invés de querermos que as máquinas se pareçam com os humanos, queremos agora que os humanos se pareçam com a máquina (ChatGPT). Mais ainda, os seres humanos passaram a adotar comportamentos de máquinas, como se precisassem ser como elas. Por exemplo, hoje queremos que se nos deem “feedbacks”, avaliações contínuas visando um “aprimoramento” – ora, esses são procedimentos habituais realizados com protótipos de computadores, não para a avaliação de humanos.  Mas hoje, nas redes sociais, essa é a regra – as pessoas estão constantemente tendo feedback e sendo julgadas e aferidas pelo número de likes recebidos e procuram um irrealístico “aprimoramento”. Em relação à IAG, usada no momento como terapeuta por milhões, cada vez mais se espera que nós, terapeutas, sejamos como ela, que tenhamos um desempenho semelhante, o que é – evidentemente – impossível.

As “antigas” críticas de que o computador “não sente” ou “não tem empatia” pelo interlocutor têm sido descartadas na prática, pois muitas pessoas reclamam da rispidez do contato humano, bem diferente da afabilidade imutável e permanente da IA.

Já é de praxe, diz ele, que pacientes em análise levem para a sessão ou enviem para o analista, por e-mail ou WhatsApp, o que a IAG falou e interpretou, de forma às vezes brilhante. Os relatos podem ser surpreendentes. Por exemplo, um paciente pode contar um sonho hoje e a IA fazer uma ligação com um sonho relatado tempos atrás, construindo ilações e iluminando extraordinariamente o material.

Leader diz que os pacientes estão fazendo uma triangularização típica ao incluir o ChatGPT na relação com o analista, como antes faziam com a introdução de um outro terceiro qualquer. Diz ele: Não devemos ter medo e devemos continuar analisando. É verdade que nosso trunfo são nossas falhas, nossos erros, atos falhos, esquecimentos, evidências de nosso inconsciente e são elas, se instrumentalizadas, que nos ajudam na análise. Mas com isso não devemos nos autorizar a diminuir o que a IAG pode dar e nós não.

Leader conta o caso hipotético de um paciente que diria para a IAG ter perdido o emprego e em seguida lhe perguntaria qual a ponte mais próxima dali. A IAG poderia se solidarizar com a perda do emprego e dar o exato endereço solicitado da ponte, sem notar a insinuação de suicídio. Mas, lembra Leader, isso também poderia ocorrer com analistas humanos, que nem sempre percebem pistas e indicações do mesmo tipo.

Da mesma forma, Leader nos lembra que a afirmação de que empatia da IAG não é “autêntica” nos faz pensar na empatia humana de um terapeuta profissional. Por acaso é ela “autêntica”? Ou é um instrumento de trabalho? Caso ficássemos solidários empaticamente com todos os pacientes resistiríamos psiquicamente?

Leader encerra seu texto dizendo que a IA nos faz pensar não tanto sobre ela, mas sobre a psicanálise.

Ainda no reino da IAG é importante lembrar das “alucinações” que nela ocorrem. Alenka Zupancic propõe importantes questões ao salientar o discurso “sem falha” dos sistemas de linguagem e as “alucinações” da IAG. Propõe que não sejam vistos como “erros” e sim como atos falhos, tal como nos humanos, decorrentes da presença do inconsciente nos sistemas de linguagem do computador.

Enfim, o ponto que ressalto é que a IAG deve ser incluída dentro do projeto contemporâneo de André Green de estabelecer uma língua franca que facilite a comunicação no universo psicanalítico.

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[1] Palestra realizada no Café Lacaniano ocorrido na Livraria da Vila Madalena em 29 de novembro de 2025.

[2] Psicanalista e escritor, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenador do grupo Psicanálise e Cultura, e parte do corpo editorial da revista Percurso. Responsável pela Seção Psicanálise no Mundo. Autor, entre outros livros, de O psicanalista vai ao cinema, volumes 1, 2, 3 e 4.

[3] Urribari, Fernando, in Green, André. Illusions and Disillusions of Psychoanalytic Work (The International Psychoanalytical Association Psychoanalytic Ideas and Applications Series). Karnac Books. Edição do Kindle.

[4] Nota dos editores: Embora ainda não exista uma regulamentação específica para seu uso na saúde mental, não há reconhecimento legal no Brasil de terapia por IA. Ao contrário, há um consenso entre órgãos como o Ministério da Saúde, o CFP e o CRM a respeito do uso da IA como ferramenta de apoio ao tratamento, de triagem inicial, psicoeducação e monitoramento dos sintomas, que não se compara à escuta clínica nem se sobrepõe ao vínculo humano profissional em contexto de atendimento ou de outras formas de acompanhamento clínico.

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