Corpo, ciranda… pensamento[1]
por Rubens M. Volich[2]
Agradeço o convite de Maria Helena Fernandes, a querida Lena, para comentar e celebrar com ela e com tantos amigos e colegas queridos (como podemos aqui constatar) o nascimento de teu novo rebento.
Um convite que me alegra imensamente, pela possibilidade de reiterar, a partir de mais um fruto de sua produção, minha admiração, carinho e gratidão por uma colega e amiga de longa data. Uma parceira de inúmeras realizações profissionais, clínicas, didáticas, de escrita e de transmissão da psicanálise, presença importante em vários momentos que compartilhamos, em meio a alegrias, dúvidas e mesmo dores, de um e de outro, nos quais pude contar com tua escuta sensível e calorosa.
Uma alegria que se estende ainda por estarmos aqui juntos em companhia de Maria Elisa Pessoa Labaki, Marê, nossa companheira em parte de tais realizações, com quem sempre vivi uma sintonia pessoal e de pensamento clínico e teórico que poucas vezes encontrei em meu percurso.
É realmente um enorme prazer participar deste momento, tendo claro que o tempo de que disponho para meus comentários é absolutamente insuficiente para relatar em detalhes a criatividade e a riqueza de pensamento que encontramos nas páginas de Capturas do sofrimento: corpo, alimentação e ideais na clínica psicanalítica.
Minha frustração por essa limitação se apazigua, apenas em parte, por já ter deixado claro, nas imagens e sentimentos que evoquei nessas primeiras palavras, a essência e a inspiração dessa nova obra de Maria Helena Fernandes.
Podemos senti-las ao longo de todas as suas páginas, infiltradas nas entrelinhas, permeando ideias e hipóteses, inspirando construções e transformações nas discussões clínicas. Sempre reverberando em seu estilo e em sua escrita a melodia que nos faz alucinar a voz da autora, com seu (felizmente..) indefectível e melodioso sotaque, que nos embala ao ritmo da ciranda e de lembranças longínquas de Olinda, tão presentes em sua vida.
Com a mesma leveza, ela nos transporta para o outro lado do Atlântico, compartilhando conosco a riqueza e o rigor da psicanálise francesa, que ela soube transformar com a criatividade e a elasticidade necessárias à clínica contemporânea. Criatividade e elasticidade que, sabemos, construímos aqui em muitas de nossas cenas psicanalíticas paulistanas e brasileiras, solos férteis que fizeram germinar o pensamento e a escuta acolhedora e essencial de Lena, bem como seu desejo de transmitir e compartilhar os frutos preciosos dessa elaboração.
Reencontramos em Capturas do sofrimento o fio sensível e consistente que perpassa toda sua obra. Desde suas primeiras experiências clínicas no Hospital Pedro II e no Hospital das Clínicas, no Recife, já se anunciava a inspiração que marcaria seu percurso. Como ela aponta no livro: “Ao corpo doente, a psicanálise deveria poder oferecer, acima de tudo, um espaço de escuta, capaz de acolher com delicadeza as dolorosas surpresas com as quais as doenças nos confrontam”.
Mulher e analista comprometida, Maria Helena cumpre sua palavra ao fazê-lo neste livro.
Recém-chegada a São Paulo, terra onde viria a enraizar-se, Maria Helena passou a desenvolver uma reflexão que não cessou de se desdobrar e adensar ao longo dos anos. Vieram os artigos sobre o acompanhamento terapêutico e o trabalho no hospital geral, sobre o lugar do corpo e a hipocondria, sobre a construção do corpo na anorexia das meninas, sobre o feminino, os ideais, a metapsicologia. Sua tese de doutorado, L’hypocondrie du rêve et le silence des organes: une clinique psychanalytique du somatique (A hipocondria do sonho e o silêncio dos órgãos: o corpo na clínica psicanalítica), orientada por Pierre Fédida e publicada em 1999, tornou-se referência e inspiração para grande parte de sua produção: inúmeros artigos, coletâneas como Limites de Eros, organizado em parceria com Eliane M. Marraccini e Marta R. Cardoso (Blucher, 2022), além de inúmeros trabalhos apresentados em congressos, jornadas e simpósios no Brasil e no exterior, em muitos dos quais tanto eu quanto Marê e vários aqui presentes tivemos o prazer de estar ao seu lado em mesas redondas, discutindo esses e outros temas.
Essas reflexões literalmente ganharam corpo em livros fundamentais, como Corpo (Casa do Psicólogo, 2003) e Transtornos alimentares: anorexia e bulimia (Casa do Psicólogo, 2006), que revelam uma escrita em que clínica, teoria e experiência subjetiva se entrelaçam com rara sensibilidade. Capturas do sofrimento inscreve-se como continuidade desse percurso, mas também abre novas perspectivas: nele reconhecemos a mesma atenção ao corpo e às armadilhas dos ideais, agora ampliada por uma clínica mais madura e por uma escuta que nos mostra a capacidade de Maria Helena de transformar as feridas do sofrimento em criação e pensamento.
Desde cedo encantada pela “feiticeira metapsicológica” (Freud) e instigada pela riqueza desse caminho que Pierre Fédida inoculou em muitos de nós, nessa nova obra ela nos estimula e inspira a acompanhá-la nas tentativas de compreender e lidar com enigmas e desafios do sofrimento humano. Enigmas que ora se manifestam pelo corpo e suas funções, como as alimentares, ora pela mente, ora ainda em experiências ligadas ao feminino, à maternidade e a tantas outras formas de expressão, inclusive socioculturais.
Maria Helena convida-nos à parceria e à cumplicidade na construção de seu pensamento. Com ela, compartilhamos o encanto das descobertas reveladas em seus textos, nos quais se entrelaçam poesia, sutileza teórica e rara atenção ao que muitas vezes passa despercebido em meio à enganosa cacofonia e aos simulacros da clínica… e dos modos de vida contemporâneos.
Por meio deles, descobrimos a importância na clínica de um exercício de equilíbrio, sutil e necessário, entre a desconfiança e a delicadeza. A desconfiança, que pode proteger o analista das armadilhas do suposto saber, tão tentadoras para nosso narcisismo ameaçado, sobretudo no acompanhamento dos casos mais difíceis, um tributo a uma de suas primeiras mentoras nesse campo, Edilnete Siqueira[3]. Quanto à delicadeza, ela é imprescindível ao acolhimento de sujeitos narcisicamente esgarçados e fragmentados, seja por excessos, seja por experiências de privação.
Ao longo do livro, acompanhamos Maria Helena em suas elaborações teóricas, sempre impregnadas pela clínica, e descobrimos com ela a função das dinâmicas hipocondríacas. Sinto-me especialmente próximo à autora quando revela que, longe de se reduzirem a manifestações patológicas, elas apontam para a importância estruturante de uma forma primitiva de investimento no corpo, sem a qual a constituição do psiquismo não se realiza.
Ao mesmo tempo, somos conduzidos pelas diferentes manifestações da pulsionalidade em seu estado mais arcaico: entre o silêncio dos órgãos — silêncio que, como bem aponta Maria Helena, não é paz, mas catástrofe — e o transbordamento dos excessos que não encontram contenção nem organização no campo representativo. Nesse ponto, cruzam-se nossos olhares desconcertados diante dessa clínica, buscando compreender esses fenômenos. Enquanto Lena os vislumbra “para além da representação”, eu costumo reconhecê-los, como sabem, nos “territórios do aquém”: aquém da palavra, aquém do recalcamento, aquém do narcisismo, nas formas mais primitivas de expressão da economia psicossomática.
Não é difícil nos reencontrarmos quando, em seu texto, ela oferece tantos elementos para reconhecer o corpo como palco privilegiado de embates contemporâneos: a imposição dos ideais de beleza e performance, a pressão incessante do “mais alguma coisa” e as consequências deletérias dos excessos e dos transbordamentos pulsionais. Nesse cenário, a autora nos faz apreender a dimensão profunda do sofrimento inscrito nos transtornos alimentares e, em especial, as implicações da tripla recusa observada na anorexia: recusa do tempo, recusa da morte e recusa do outro.
Em seu livro, Maria Helena nos conduz pelos meandros do feminino e da maternidade, revelando as particularidades das vivências corporais que atravessam todas essas questões. Mostra como fantasias inconscientes se entrelaçam às pressões sociais, econômicas e raciais, instaurando um debate ético e político tão necessário quanto urgente.
Cabe ainda lembrar que os oito capítulos da obra são abraçados por uma introdução e por uma seção final de agradecimentos que transbordam gratidão e generosidade. Ali se revela uma verdadeira cartografia dos afetos, transferenciais, relacionais, geográficos e institucionais, que inspirou e sustentou a construção da obra. Descrevendo seu percurso, Maria Helena nomeia, reverencia e agradece a cada interlocutor, analista, mestre, supervisor, colega, amigo e familiar que acompanhou a gestação de sua obra, em realidade escrita ao longo de sua vida.
Relembrando os corredores da Universidade de Paris VII, pelos quais circulamos em épocas diferentes (infelizmente…), Lena evoca a “clareza cristalina” de Jean Laplanche, com quem alguns de nós pudemos tanto aprender, sobretudo, sobre o método e a pesquisa psicanalítica e seu grande desafio: a responsabilidade de cada analista em “fazer trabalhar a psicanálise”, também uma questão que me toca de forma muito especial. O desafio de promover um verdadeiro trabalho de apropriação e de transformação por meio do qual o analista constrói seu percurso, sua escuta, suas interlocuções, sua escrita para desenvolver um estilo que lhe é próprio. Inspirado no convite de Laplanche, já o parafraseei uma vez para descrever o esmero do querido Flávio Ferraz, diretor da coleção que acolhe Capturas do sofrimento, ao “fazer prosear a psicanálise”. Permitindo-me abusar da paráfrase, descobrimos que, com seu livro Lena, dedicou-se a “fazer cirandar a psicanálise”…
Em sua roda de memórias, experiências, estudos, casos clínicos, viagens e instituições, ela convida a participar uma infinidade de autores, colegas e amigos permitindo-nos reencontrar o legado das gerações que nos precederam e aquelas com quem convivemos. Colocando nessa grande ciranda Zeferino Rocha e Foucault, Deleuze e Guattari, Edilnete Siqueira e Freud, David Levisky e Leon Kreisler, Luiz Antônio Nogueira Martins e Pierre Marty, Laplanche, André Green e Joyce McDougall, Joel, Birman e Fédida, Augusto Boal e Renato Mezan, Paul-Laurent Assoun e Mario Fuks entre muitos e muitos outros e outras, ela convoca nossas próprias memórias, e incita-nos a novas descobertas, novos movimentos.
Ao final da leitura, senti-me particularmente feliz ao reencontrar, uma vez mais, Maria Helena compartilhando generosamente conosco sua capacidade de sustentar o rigor metapsicológico sem se afastar da clínica viva; de dialogar com as manifestações do presente sem perder a profundidade da tradição psicanalítica; de nos convidar, enfim, a assumir a coragem de transformá-la, de criar novos conceitos e dispositivos, sempre que nossa clínica nos desafia a assim proceder.
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[1] Comentários sobre Capturas do sofrimento. Corpo, alimentação e ideais na clínica psicanalítica, de Maria Helena Fernandes (SP,: Blucher, 2025), por ocasião do lançamento em 04/10/25, na Livraria da Vila SP. Mantive no texto o tom coloquial do original, buscando refletir o clima caloroso entre o grande público ali presente para receber o livro.
[2] Psicanalista. Doutor pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot. Membro do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do I. Sedes Sapientiae e professor da Especialização. Autor de Psicossomática – De Hipócrates à Psicanálise , de Impasses da alma, desafios do corpo. Figuras da hipocondria e de Tempos de encontro. Escrita, escuta, psicanálise (SP, Blucher, 2022, 2024 e 2021) e co-organizador e autor dos livros da série Psicossoma (SP, Casa do Psicólogo).
[3] “Ao imperativo de tudo compreender e de tudo interpretar, que parecia dominar nossa escuta defendida e assustada, diante da novidade do contato com a clínica, Edilnete opunha uma firme resistência e nos ensinava a desconfiar”.