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O  feminino de sertão

 Soraia Bento[1]

Fiz duas imersões no Cariri, região nordestina do povo indígena Kariri e dos negros escravizados; dos angicos; dos buritis e dos Mestres da mais pura arte popular. Visitei a Chapada do Araripe e o Cariri paraibano com grupos valentes que toparam acompanhar o fôlego de Ronaldo Fraga e seus escudeiros turismólogos Thiago e Pablo Buriti, acompanhados da lente de Rafael Kant. A criatividade dos idealizadores desse projeto inventou uma cartografia que se imprime na alma.

Você vivencia o Araripe, conhece o canto do soldadinho do Araripe, toma um cafezinho enquanto proseia com Alemberg (o menino Kariri) na fundação Casa Grande, visita os museus orgânicos que são as casas dos mestres, dança, come, faz festa com brincantes nos reisados e muito mais.  Alemberg disse que o barulho do vento nos buritis lembra um choro que poderia ser do Cariri com saudade do mar.

No Cariri paraibano somos viajantes incansáveis que, pela longa estrada, descobrem o céu mais azul do mundo, lajedos de um tamanho inesquecível, vento, cantoria da passarada e muitas mulheres fazedoras de mundos: rendeiras que constroem tecido de renda renascença, tecelãs de redes, crocheteiras e muito mais. A força feminina naquele pedaço de Brasil sustenta o território.

Então posso dizer: – Isso é o sertão!; aquele “sertão que é dentro da gente” (G. Rosa) resolveu fazer morada definitiva em mim.  O Cariri é território, é corpo, é fronteira e centro desse Brasil profundo.

Terra indígena, encruzilhada entre  o semiárido e uma exuberante vegetação na chapada, que é considerada um oásis, porque, de lá, jorram fontes aquíferas e tem verde o ano todo. Há forças que se somam na poesia da mulher rendeira de um lado e de outro, na alegria do brincante. Nordeste é puro som e luz.

Ronaldo Fraga é artista visual, estilista, expedicionário, cantor (ele me mata) enfim, homem de mil cabeças e dois mil corações. Estive com eles há dois anos no Araripe e, no Cariri paraibano, há dois meses.

Escolhi recortar dessa imensidão de lembranças a porção feminina representada por Zabé da Lóca, uma entidade que nasceu em 1924 e fez a passagem em 2017, além de Josi, uma fada que acompanhou Zabé até seu último dia.  Cuida do seu legado até hoje e o continua….

Zabé, uma sertaneja de vida dura como é a vida nessas paragens, mas de uma força e inventividade que deixaram grandes marcas na nossa cultura. Zabé de Isabel, Lóca é uma espécie de gruta. Essa mulher, depois de perder sua casa, viveu com os filhos numa gruta fechada por parede de taipa. Com o passar dos tempos, os filhos se foram e ela permaneceu por 25 anos abrigada no casamento entre a pedra e o barro. O buraco tornou-se casa e ao redor, o silêncio, sua inspiração. Tocadora de pífano, aprendido com o irmão, foi capaz de encantar muita gente. Foi descoberta em 1997, gravou 3 discos e foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural do MinC em 2008 pelas mãos de Gilberto Gil. Não é pouca coisa! Nos últimos anos de vida, morou numa casa doada pelo INCRA, como uma honraria pela sua importância. Essa casa abriga atualmente um “museu orgânico” com seus pertences, fotos de grandes momentos, um padre Cícero e a mesma cor azul desde sempre. A casa azul tem uma porta para esse universo cheio de brasilidade, poesia, música e comida boa.

Esse azul talvez tenha conduzido Josi a explorar as possibilidades de um plantio de anileira. Daquelas flores e folhas, ela extrai o índigo ou anil que colore tecidos. Pesquisou sozinha empiricamente todo o processo de plantio, colheita e transformação em tinta. Essa mulher linda com traços negros e indígenas foi casada com um homem que batia nela. A vida era assim, acontecia com todas, nem imaginava poder escapar desse destino trágico… A certa altura, em uma viagem como acompanhante de Zabé, ela ficou paralisada no check in do hotel, olhando para a ficha que pedia seus dados. Não sabia ler, nem escrever. Quase morreu de vergonha.

Mas, quando a vergonha, que deve mudar de lado, foi superada pelo ânimo de bem viver,  aos 26 anos, prometeu a si mesma aprender as letras, separar-se do marido violento e ganhar asas. Foi um encontro profundo entre essas duas mulheres que permitiu expandirem seus mundos, uma de mão dada com a outra.

Josi mora no Assentamento Santa Catarina, situado no município de Monteiro, sertão da Paraíba. O clima semiárido contrasta com tamanha abundância afetiva. No percurso para alcançarmos a Lóca, passamos por um terreno salpicado por pedras brancas arredondadas que pareciam ter sido dispostas para decoração do terreiro, um deslumbre. Mas, nem imaginava que ainda haveria um sentido absoluto ligado ao feminino no meu caminho: uma barriguda centenária, uma espécie nativa da caatinga e do cerrado, prenhe de um mundo de vida. Ela se chama barriguda porque guarda água em seu interior, assemelhada a uma mulher grávida com flores no cabelo. Ao pé dessa rainha eu me comovi e busquei um elo ancestral ligando todos os elementos da experiência. Foi aí que Josi, num gesto delicado, abaixou-se e pegou uma pedrinha transparente, assoprou não sei se para tirar a terra ou para jogar magia e colocou na minha mão, abrigando-a com meus dedos. O detalhe que não pode escapar é que ela havia alertado ao grupo para não mexer em nada do território. Fui premiada.

Nesses tempos em que mulheres buscam abraços em outras mulheres para chorar e lutar contra tanta violência, aprendi que se reinventar é joia feminina. Nos ecos das boas lembranças dessa jornada, um dos meus livros prediletos me acompanha: Vidas secas de Graciliano Ramos.

Sinhá Vitória é a personagem retirante que sabe nomear coisas e emoções cultivando a humanização que a seca e a miséria roubam. Não é um farol, mas antes, um vagalume que brilha num lampejo e orienta a vida. O Cariri cultiva Sinhás Vitórias que seguem sonhando futuros para suas famílias. Cada mestre que encontrei, cada pessoa com quem conversei se apresentavam como sujeitos da enunciação, ora universais na sua sabedoria, ora tão singulares. A simplicidade faz poesia nas suas vozes. Eu sonho tudo isso!

 

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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psicanálise e integrante da equipe editorial deste Boletim online.

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