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A história por trás dos sorrisos das fotos

por Ana Raquel Ribeiro[1]

 

Acabei de publicar fotos sorridentes enfeitadas com medalhas ao término da famosa ultramaratona Two Oceans: uma corrida de 56 km ao longo das lindas costas leste e oeste da Cidade do Cabo, na África do Sul. Uma grande conquista sem dúvida, mas que inclui muito mais do que sugerem as imagens na rede social. A prova é considerada desafiadora não apenas pela quilometragem, mas por duas subidas longas e pelo limite máximo de sete horas para ser concluída. Uma tarefa bem difícil e que exigiu planejamento e muito treino. Os quase doze meses de preparação específica, somados aos meus mais de vinte anos de corridas, deveriam ser suficientes para não haver grandes surpresas, além das belas paisagens. Mas a vida nunca acontece assim.

Na véspera da prova, a rotina se repetiu como tantas outras vezes: jantar cedo uma massa leve, preparar a roupa (incluindo tênis, meia e bermuda previamente amaciados) e separar a “comida”, igualmente testada nos treinos longos. Quer dizer, comida… comida… não é bem o melhor nome. Trata-se mais de uma gosma gelatinosa de carboidrato concentrado embalada em sachês que servem de porções de energia capazes de manter o sistema funcionando, as pernas correndo e o cérebro minimamente feliz para concordar com a ideia insistente (e um tanto maluca) de ficar correndo por horas a fio.

Separei oito sachês coloridos, de sabores variados: frutas tropicais, pitaia, chocolate e o mais poderoso de todos, reservado para os momentos críticos de exaustão: café com dose extra de taurina. Algo como… gasolina aditivada. De acordo com o plano, precisaríamos de um sachê a cada sete quilômetros e mais um, para eventual necessidade. Afinal, nunca se sabe. Bem, às vezes a gente desconfia. A verdade é que eu já sabia que algo estava diferente. Os tais géis, que tinham funcionado até então, não caíram bem no último treino longo. Naquele momento, estávamos consumindo cerca de cinco sachês por treino e o corpo mandou seu recado de que não estava mais querendo saber daquela ração de astronauta. Mas… já era o final do ciclo de preparação, tudo estava seguindo como esperado e, na verdade, nem haveria tempo para testar algum alimento alternativo antes da prova. Assim, meio sabendo, meio sem querer acreditar, segui com o plano e com os géis coloridos.

Chegamos para o início da prova animados, confiantes no treino e, confesso, com um medinho do que poderia acontecer. Como todo início de prova, a concentração de corredores estava cheia de emoção e expectativa. Mas, diferente de qualquer outra corrida, fomos surpreendidos pelo coro de mais de 12 mil pessoas entoando aquele que virou o hino sul-africano para grandes desafios. Shosholoza , música negra originalmente nascida nas minas de ouro e posteriormente levada às partidas de futebol, tem uma melodia enérgica, ritmada como um trem a vapor e canta em zulu algo como: Vamos em frente, todos juntos empurrando o trem rumo às montanhas”. Impossível não se emocionar.

Especialmente, porque a metáfora desse hino zulu foi eternizada em um dos dias mais importantes da era democrática da África do Sul: “o dia mágico” (24 de junho de 1995), quando o então presidente Nelson Mandela uniu os dois “países” sul-africanos na final do mundial de rúgbi em que, pela primeira vez as torcidas (branca e negra) entoaram juntas o mantra que apoiou a busca pelo título.

A conquista do torneio disputado na África do Sul, estimulada pelo slogan “um time, uma nação”, foi um marco no processo de unificação do país. Naquele dia, brancos e negros deixaram de lado as diferenças e comemoraram juntos o orgulho de pertencerem à mesma nação. Brancos ergueram a nova bandeira da nação arco-íris e cantaram o hino dos negros, que narrava a luta dos negros, na língua dos negros. Esse movimento foi vital no difícil processo de elaborar dores tão profundas como as deixadas pelo regime do apartheid.

Passadas três décadas, na largada da Two Oceans, a multidão de pessoas pretas e brancas, cantando lado a lado, era memória viva do legado de Mandela. Uma celebração e um novo chamado para seguir a construção, ainda tão distante, do dia em que a cor da pele não seja sinônimo de exclusão e de desigualdades.

A largada foi ainda sem sol, que nasceu pouco mais de uma hora depois do início da corrida, quando já tínhamos percorrido cerca de dez quilômetros. O clima perfeito e a bela praia amenizaram a preocupação com o efeito (já presente) do primeiro gel que tomei. Seguimos encantados pela vista que crescia e pelo oceano agigantado de tanto azul. Lindo demais!

Por volta do quilômetro quatorze, decidi tomar apenas mais meio sachê, na esperança de que o corpo concordasse em seguir o planejado. Mas chegando no vinte e um, as negociações foram encerradas. O meio gel de frutas tropicais caiu feito um tijolo, chacoalhando tudo por dentro e acionando o alerta vermelho: sem gel, como correr mais 35 km?

Já próximo à metade da prova, nem tive a chance de pensar no que comer. De repente, a urgência, essa que sempre fura a fila, era apenas uma: achar um banheiro! Nesse ponto da corrida, estávamos iniciando a primeira das duas grandes subidas: o Chapman´s Peak. Segui carregando um vulcão na barriga, daqueles que anuncia sua eminente erupção. Suava frio, procurando qualquer moita em que pudesse me aliviar, quando passou ao nosso lado um pelotão ritmado de homens e mulheres pretos num passo cadenciado por um guizo e pelo canto hipnotizante de um deles. Não entendia a língua em que cantavam, mas aceitei o convite para outra sintonia, regida pelo pulso daquela voz. Fui chegando mais perto do grupo e segui(mos) nesse que parecia um corpo único, um passo, um só. Subi(mos) até o Chapman´s Peak assim, levados pelo guizo e pela voz. Nesse gesto coletivo, desliguei meu corpo de suas urgências tão individuais. Como lembra Haruki Murakami[2], a repetição por tempo suficiente de qualquer ação mundana (como colocar um pé na frente do outro para correr) pode se tornar um ato contemplativo ou até meditativo. Assim segui, com o pelotão africano, sem pensar, cadenciando passo a passo, por cerca de cinco quilômetros montanha acima.

Quando chegamos no topo, tal qual oásis no deserto, estava lá o ponto de apoio! Sim com água mas, principalmente, com o mais maravilhoso banheiro químico de todo o mundo! Sorri agradecida ao grupo – que nunca saberá, mas me carregou até ali – e fui resolver a urgência que não tinha mais como ser adiada.

Entre fila e banheiro, lá se foram quatro minutos. Basicamente uma eternidade, quando cada segundo conta. A verdade é que, em meio ao alívio, estava tudo muito tenso. Sem energia, o ritmo mais lento e paradas como essa poderiam custar a prova. O problema agora era seguir sem gel por mais 23 quilômetros, incluindo a subida mais difícil. Minha salvação (e, na verdade, única alternativa) foi apelar para goles de coca-cola, a cada três quilômetros nos pontos de apoio.

No simbólico quilometro 42, o raciocínio falhava. Nessa hora, foi meu parceiro da vida que, mais uma vez, me socorreu. Do nada, ele surgiu sorridente com um picolé! Coloquei para dentro, como pude, aquela que seria a única fonte de energia, além dos goles de coca-cola. A subida mais temida começava ali e eu não tinha mais forças. Foi ele quem me carregou com seu olhar nos meus olhos, chamando para seguir. Horas antes, ríamos juntos das frases motivacionais espalhadas por todo o percurso da prova. Ele achando graça de tão bregas que soavam. Mas a verdade é que não consegui evitar a cafonice de apoiar no ombro dele, meio aos prantos, para chegar no topo da maior subida dessa prova que, afinal de contas, eu escolhi fazer.

Entre passadas ritmadas e o apoio sorridente das pessoas nas ruas, vimos chegar o topo da ladeira e nela renovada a esperança de concluir o percurso nas sete horas limite. Lá, uma banda de rock agitava o espírito para não desistir. Funcionou. Celebramos muito e em alto som. Ainda faltavam seis quilômetros e, obviamente, as contas do tempo restante eram feitas pelo meu parceiro. Mas eu acreditava. Seguimos, como combinamos, um passo de cada vez. Com a ajuda das descidas e dos deuses africanos, retomamos o ritmo até cruzar a linha de chegada em inacreditáveis seis horas e cinquenta e quatro minutos, dois géis, um picolé de laranja e muitos goles de coca-cola.

Passada a epopeia, senti vontade de contar essa história. Não apenas pela deliciosa conquista, pelas paisagens deslumbrantes por onde passamos, pela incrível experiência de ver um povo tentando reescrever a própria história, mas especialmente como forma de registrar, da vida, algo mais que os sorrisos das fotos. Essa vida que pulsa, resiste entre tropeços e se refaz na sua cotidiana imperfeição.

Cidade do Cabo – África do Sul, 12 de abril de 2026.

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[1] Psicóloga, psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, co-interlocutora do GT Famílias no século XXI; autora e organizadora do livro Reflexões clínicas no contexto do Acolhimento; coordenadora do programa Com Tato do Instituto Fazendo História (2014-2024).

[2] Murakami, Haruki. Do que eu falo quando eu falo de corrida. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

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