Um passo a mais na construção de práticas reparatórias e antirracistas
por Marta Azzolini[1]
A partir da implantação da política de cotas para pessoas negras e indígenas no Instituto Sedes Sapientiae, foi criada a Comissão de Reparação e Ações Afirmativas do Departamento de Psicanálise com o propósito de trabalhar, de maneira coletiva e contínua, iniciativas voltadas à ampliação do acesso, permanência e sustentabilidade da formação psicanalítica para pessoas pretas, pardas e indígenas.
Esse projeto nasce do reconhecimento de que as desigualdades raciais que atravessam as instituições psicanalíticas produzem e mantêm barreiras históricas ao acesso, pertencimento, reconhecimento e circulação de corpos não brancos.
No entanto, ampliar a entrada de pessoas pretas, pardas e indígenas não se mostrou suficiente, fez-se necessário buscar condições que apoiem a sustentação de seus percursos de maneira ética, viva e possível.
É nesse contexto que a Comissão de Reparação e Ações Afirmativas vem construindo e propondo uma prática política contínua de reparação institucional e fortalecimento da formação dos estudantes que chegam ao Departamento pela política de cotas do Sedes.
Desde que a Comissão de Reparação foi criada (2022) seu trabalho assumiu diversas frentes:
– Criação da campanha Levante! para construir um fundo que, ao lado da política de cotas do Instituto Sedes, contribua, ainda que parcialmente, para bancar o alto custo de uma formação psicanalítica;
– Acompanhamento da chegada destes estudantes à instituição;
– Atenção com os espaços de escuta e participação;
– Cuidado com o letramento racial sobretudo em relação à maioria absoluta de pessoas da raça branca no Departamento, tanto no corpo formativo quanto no de formandos;
– Produção de dispositivos que favoreçam a permanência de pessoas negras e indígenas no Departamento.
Em 2025, a Comissão de Reparação resgata a ideia de um projeto de supervisão. A partir do reconhecimento do lugar central que esta ocupa na formação psicanalítica (tripé: análise, estudo teórico e supervisão clínica) e do quanto, muitas vezes, os custos financeiros desse processo formativo se tornam um obstáculo importante para sua continuidade, a Comissão, através de um pequeno grupo (Anne Egídio, Juliana Farah, Marta Azzolini e Silvio Hotimsky), se voltou a pensar a efetivação da atividade em que analistas membros do Departamento oferecessem supervisões sem custo financeiro para pessoas pretas, pardas e indígenas vinculadas ao Departamento através de seus cursos, mesmo que não contempladas no programa de cotas do Sedes. Em contrapartida, que esses supervisores engajados em atividades grupais de letramento racial se impliquem na formação a partir de uma psicanálise decolonial e antirracista que favoreça a atenção no manejo transferencial e contratransferencial, evitando ocorrências retraumatizantes.
Mais do que uma oferta individual de trabalho voluntário, a iniciativa busca construir um dispositivo institucional de cuidado, transmissão e reparação.
Com este propósito, foi encaminhado aos membros do Departamento um convite para adesão ao projeto através de uma carta de intenção de participação.
Num primeiro encontro conversou-se sobre o compromisso de sustentar um trabalho permanente de reflexão institucional, em que pensar a branquitude e a importância de se nomear o branco como raça são condições incontornáveis para não apenas entender a persistência do racismo estrutural em nosso pensar e em nossa escuta psicanalítica como para sustentarmos ativamente uma prática psicanalítica antirracista.
Atualmente, o projeto conta com 30 participantes, uma rede de supervisoras e supervisores voluntários comprometidos com a sustentação ética e clínica dessa experiência. Estão disponibilizadas 18 horas semanais e 11 horas quinzenais para supervisões individuais ou em duplas e até o momento 15 analistas em formação já deram início ao trabalho.
Entendemos, no entanto, que oferecer supervisão dentro de uma política de reparação implica também um trabalho permanente de reflexão coletiva que parte do entendimento de que o racismo não é apenas um fenômeno social externo à clínica, mas algo que atravessa as instituições, os vínculos, as formas de escuta e os processos de transmissão. Sustentar uma prática clínica comprometida com a reparação exige, portanto, disponibilidade para revisão crítica, escuta e transformação institucional.
Como Comissão de Reparação e Ações Afirmativas, sabemos que iniciativas como essa não dizem respeito apenas às pessoas diretamente envolvidas no projeto, mas à possibilidade de construção de uma psicanálise mais implicada com a realidade social brasileira, mais plural em suas formas de transmissão e mais responsável diante das desigualdades históricas que integram o nosso campo.
Essa experiência segue sendo coletiva e aberta à escuta, à revisão e ao trabalho contínuo de transformação institucional.
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora e supervisora no curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma, integrante da Comissão de Reparação e Ações Afirmativas e do Grupo de supervisão para pessoas negras e indígenas.