Do Manifesto ao Letramento na Jornada O racismo nosso de cada dia: do pensamento à ação[1]
por Anne Egídio[2], Maria Aparecida Miranda[3], Selma Tavares[4]
Em 27/09/2020 o Grupo de Trabalho A Cor do Mal-Estar: da Invisibilidade do Trauma ao Letramento foi reconhecido em seu trabalho e convidado para representar o Departamento de Psicanálise no evento interdepartamental do Instituto Sedes Sapientiae. Na oportunidade apresentou um Manifesto, dando continuidade ao longo e complexo caminho de letramento para a luta antirracista, que se iniciou com uma denúncia em 2010 de Maria Lucia da Silva, no curso Conflito e Sintoma, e que prossegue num questionamento duradouro, capaz de originar ainda novos e potentes frutos.
O Manifesto resgata a Carta de Princípios deste Instituto com seu histórico propositivo marcado por lutas políticas democráticas. Princípios que buscam um modelo implicado com as questões políticas e sociais de seu tempo. Uma instituição comprometida em:
VI – Desenvolver pesquisas, cursos e serviços vinculados à realidade brasileira e voltados para as necessidades da população economicamente menos favorecida, facilitando-lhe instrumentos para assumir seu próprio projeto histórico de libertação;
X – Praticar sistemática autocrítica de todo seu procedimento, corrigindo erros, aperfeiçoando métodos ditados pela exigência do trabalho comprometido com a realidade social;
XII – Sendo um órgão de questionamento teórico e instrumento de atuação na sociedade, o Instituto Sedes Sapientiae compromete-se a pautar suas atividades pelas linhas fundamentais que consagram o homem como princípio, a realidade social brasileira como campo de trabalho, o exercício da defesa dos direitos humanos como método e a libertação como fim, dentre outros compromissos.
Se a expressão “população economicamente menos favorecida”, que aparece em destaque em nossa Carta de Princípios, fala de uma pobreza abstrata a ser combatida, sem corpo e sem história, hoje somos capazes de determinar com mais precisão que parcelas da população, as assim chamadas minorias, foram destinadas a ocupar o espaço da vulnerabilidade e da necessidade, e certamente as populações negras e indígenas se destacam entre elas.
Todos os indicadores sociais de saúde, educação, habitação, trabalho, renda, justiça, punição e encarceramento, serviços básicos de saneamento, segurança e transporte são unânimes em apontar como a distribuição de cuidados e privilégios é desigual e como é retirada dessa parcela da população a oportunidade de usufruir e exercer seus direitos.
É hora de esmiuçar o lugar (e a culpa) de classe para admitir quais os marcadores sociais da diferença (e de opressão) que determinam e mantêm a distribuição desigual do poder e do privilégio. E, certamente, o marcador social de opressão de raça é um deles e se expressa em detrimento da população negra e indígena, que compõe a maioria dos que vêm até o Instituto Sedes Sapientiae na busca de atendimento clínico. A mesma face desigual entre brancos e negros é evidenciada na constatação de que o número de pessoas negras nos cursos, tanto estudantes quanto professores, é diminuto. Já no quadro de funcionários que exigiriam menor qualificação e, portanto, remuneração, nota-se que a presença negra aumenta significativamente.
O racismo brasileiro é estrutural e se apresenta como tal também em nossa instituição. Assim, torna-se imprescindível identificar quais determinantes históricos, ainda vigentes, são responsáveis por essa desigualdade para sermos capazes de receber o que temos denominado diversidade, estabelecendo um novo espaço plural, ampliando nossa capacidade de lidar com a complexidade do tempo presente.
Essa mobilização é inescapável. E só temos a ganhar com a ampliação de nosso olhar para outras perspectivas diferentes do estabelecido que zela pela manutenção das regalias e prejuízos.
“Na fina camada entre memória e esquecimento, por vezes o que se revela,
desconcertante e assustador, é o presente”.
Belisário Franca – Menino 23, Infâncias Perdidas
Como nossa instituição, com seus departamentos e profissionais da saúde mental, pode se posicionar? Como manter a sustentação do mal-estar? Como romper com a pretensa neutralidade que não raramente opera como forma de conivência? Como ampliar uma aliança institucional que realinhe o Departamento de Psicanálise a uma luta democrática antirracista, capaz de mobilizar afetos, produzir implicação e instaurar práticas transformadoras? É nesse campo de abertura e confronto que se constitui o letramento racial, forjado na resistência e insistência pretas.
Desejar que esses corpos transitem no espaço institucional é permitir que essas confluências com aqueles que já lá estavam indiquem onde se situam as contradições e as potências da instituição. A sustentação desse desejo possibilita àqueles que frequentemente não se reconhecem como racializados deixar-se ser e também desejar ser racializados, justamente para poder ocupar o lugar de alteridade em uma relação e, a partir disso, saber qual é o seu lugar de pertinência no laço social.
Incluir pessoas negras e indígenas não é suficiente, pois ao incluir também se faz necessário ampliar os espaços de possíveis encontros e trocas de “igual para igual”.
Se a lógica comum de inclusão se mantiver engessada em corpos negros inseridos em espaços majoritariamente brancos, sendo corpos impedidos de expressar suas subjetividades e tomados como objetos a serem explorados, não estaremos rompendo e alterando tal lógica.
É importante lembrar que Ações Afirmativas são um conjunto de iniciativas que buscam reconhecer e corrigir injustiças cometidas contra grupos sociais que sofreram e sofrem discriminação, exclusão e violação de direitos ao longo da história e não uma vantagem ou privilégio para este grupo. Uma política afirmativa é aquela que afirma o desejo de transformação, mesmo quando o Estado e parte da sociedade faz parecer que essa transformação seja inalcançável.
Nesse sentido, é oportuno que o Instituto Sedes Sapientiae e o Departamento de Psicanálise contemplem a dimensão política da psicanálise no Brasil ampliando o debate sobre raça, sexo/gênero e classe como elementos estruturantes de nossa realidade social. Tal compromisso alinha-se à Carta de Princípios da instituição que, em seu Artigo I, nos convoca a assumir nossa “parcela de responsabilidade na transformação qualitativa da realidade social […] no sentido de justiça social, democracia e respeito aos direitos da pessoa humana”. Torna-se incontornável enfrentar as persistentes violações de seus direitos, considerando o processo histórico que, por mais de 350 anos, desumanizou e dizimou populações negras e indígenas.
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[1] Apresentado na abertura da Jornada realizada em 09 de maio de 2026 no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[2] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da Comissão de Reparação e Ações Afirmativas, participante dos grupos de trabalho A cor do mal-estar: psicanálise e racismo e Existe uma psicanálise brasileira?, articuladora da área de Formação Contínua no Conselho de Direção do Departamento de Psicanálise 2026-2027.
[3] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da Comissão de Reparação e Ações Afirmativas, participante dos grupos de trabalho A cor do mal-estar: psicanálise e racismo e Generidades, diretora eleita do Instituto Sedes Sapientiae 2025-2027.
[4] Participante externa do grupo de trabalho A cor do mal-estar: psicanálise e racismo e da Comissão de Reparação e Ações Afirmativas do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.