O racismo nosso de cada dia – Do Manifesto à Política: cinco anos de luta antirracista no Departamento de Psicanálise
por Fabiana Gomes[1]
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A fria manhã de sábado não impediu o auditório cheio. No palco, uma ausência: aquela mesona de sempre não estava lá.
Diz que a ausência foi proposital, um gesto aparentemente pequeno, mas carregado de sentido. Sem mesa, ninguém ficaria do lado de lá. Ninguém ficaria do lado de cá. Era um convite à conversa horizontal, ao trabalho partilhado, à escuta que não separa quem fala de quem ouve. Foi assim que o Departamento de Psicanálise ali representado por Cristina Petry abriu, neste início de 2026, a Jornada de Reparação e Ações Afirmativas, um encontro para fazer o balanço de cinco anos de enfrentamento do racismo dentro da instituição e traçar os caminhos que virão.
Maria Aparecida Miranda seguiu com a palavra e relembrou como a história que chegou até ali começou antes: a partir de um episódio ocorrido em 2010 no interior do Instituto, abriu-se uma fenda por onde o racismo estrutural, tão atuante em nossa cultura e em nossa “neurose cultural”, como precisamente formulou Lélia Gonzalez, apresentou-se em toda a sua inteireza. Naquela ocasião, o sintoma havia sido apontado pela estudante Maria Lucia da Silva. Risca de pólvora traçada. A partir dali, abriram-se os trabalhos de desvelamento e enfrentamento do racismo na instituição.
Dez anos depois, em 27 de setembro de 2020, o Grupo de Trabalho a Cor do Mal-Estar: “Da invisibilidade do trauma ao letramento” foi convidado a representar o Departamento de Psicanálise num evento interdepartamental do Sedes. Na ocasião, apresentou o Manifesto, um documento que resgatava os princípios fundadores da instituição para confrontá-los com a realidade racial brasileira. A Carta de princípios do Sedes fala em “população economicamente menos favorecida”. O Manifesto dizia: é preciso esmiuçar e ser mais preciso do que isso. Essa pobreza abstrata tem cor. Tem corpo. Tem história. São as populações negras e indígenas que concentram as maiores vulnerabilidades e desigualdades em saúde, educação, renda, habitação, encarceramento. E o racismo que produz essa desigualdade lá fora também se reproduz aqui dentro: no ainda visível e desconcertante desequilíbrio entre quem estuda, quem ensina e quem limpa os corredores.
Anne Egídio seguiu a apresentação, abrindo com a frase de Belisário França no documentário Menino 23, Infâncias perdidas: “Na fina camada entre memória e esquecimento, por vezes o que se revela, desconcertante e assustador, é o presente“.
Em seguida, deslocou a discussão para uma pergunta central: como sustentar e conjugar as diferenças no interior da instituição? Sua fala insistiu em que ações afirmativas não caminham sozinhas. Mais do que incluir pessoas negras e indígenas, seria necessário produzir implicação coletiva e sustentar o mal-estar que emerge quando as estruturas raciais da instituição passam a ser interrogadas. Nesse sentido, o letramento racial exigiria também a racialização daqueles que historicamente se pensavam fora da raça, deslocando o sujeito da ilusão de neutralidade sobre si mesmo. Talvez ressoe aí algo daquilo que Freud formulou como as feridas narcísicas impostas ao homem: a descoberta de que o Eu não ocupa o lugar soberano que imagina ocupar. Pois a alteridade racial, quando efetivamente reconhecida, não apenas interpela a instituição, mas desorganiza ficções de universalidade há muito naturalizadas no laço social.
Daniela Danesi seguiu oferecendo uma síntese das ações da Comissão de Reparação até o momento: em dezembro de 2021, a Assembleia de membros do Departamento criou o Fundo de Reserva para Ações Afirmativas, financiado por contribuições dos membros e aporte equivalente do Departamento. Em fevereiro de 2022, foi constituída a Comissão de Reparação e Ações Afirmativas, composta por articuladores do nosso Conselho de Direção, grupo GTACME, membros, aspirantes e colaboradores externos vinculados a grupos de trabalho numa chamada ampla, que quis desde o início ser coletiva. A Comissão organizou seu trabalho em quatro eixos: letramento e aquilombamento afetivo; acompanhamento das políticas de cotas; acolhimento e suporte a estudantes cotistas; e auxílio formação, gestão e ampliação do Fundo de reserva para ações afirmativas.
Os números apresentados na jornada contam parte dessa história. Desde 2023, o Departamento investiu mais de R$ 524 mil em auxílio-formação para estudantes cotistas, cerca de R$ 62 mil em 2023, R$ 170 mil em 2024 e R$ 239 mil em 2025. Até março de 2026, o investimento no ano já somava mais de R$ 51 mil. No mesmo período, o Fundo de Reserva para Ações Afirmativas alcançava aproximadamente R$ 157 mil. Hoje, o Departamento conta com 36 cotistas ativos distribuídos entre os três cursos e 60 estudantes autodeclarados negros, pardos ou indígenas. Entre membros e aspirantes, ao menos 32 pessoas negras ou pardas foram identificadas a partir dos pedidos de isenção de anuidade (número que pode ser maior, já que o levantamento se baseia apenas nesse critério).
Os dados também permitiram localizar os limites do processo. Desde 2023, 17 cotistas concluíram os cursos do Departamento, ao mesmo tempo em que a Comissão reconhece que a presença de pessoas negras e indígenas na formação permanece reduzida, ainda que a procura tenha crescido. Persistem também outros impasses: a baixa adesão ao financiamento recorrente da Campanha Levante, a necessidade de maior engajamento institucional nas ações da Comissão e a construção de espaços de acolhimento e escuta para conflitos e mal-estares ligados ao racismo.
Foi justamente em torno dessas lacunas que a manhã se dividiu em três grupos de trabalho e foi deles que vieram algumas das propostas mais concretas do encontro.
O primeiro grupo se debruçou sobre os dispositivos institucionais de acolhimento para situações de racismo. A discussão caminhou em duas direções complementares: de um lado, a criação de um canal de escuta com possibilidade efetiva de encaminhamento; de outro, a construção de espaços coletivos de elaboração, como rodas de conversas e dispositivos de letramento racial envolvendo alunos, professores e membros do Departamento – alguns já em curso. A conversa também tocou numa dificuldade recorrente: como convocar aqueles que ainda não se sentem implicados nessas discussões? Como alcançar aquilo que muitas vezes não se explicita em sala de aula, mas circula nos corredores, nos silêncios e nas situações difíceis de nomear?
O segundo grupo fez uma análise crítica do que já existe. A conclusão foi que a revisão das políticas de cotas precisa ser construída de forma horizontal e verdadeiramente inclusiva, com cotistas, estudantes, docentes, membros e grupos de trabalho, e que o resultado dessa construção precisa ser levado à direção do Instituto como proposta formal. O grupo também apontou algo incômodo: a comunicação do próprio evento havia falhado, e muitos estudantes não souberam que a jornada estava acontecendo. Outro incômodo mencionado foi a presença ainda considerada discreta de autores negros na transmissão da psicanálise, que ajuda a dimensionar o tamanho da estrutura que precisa ser mexida. As vagas afirmativas não preenchidas nos GTs também dizem dessa estrutura que é conservadora e difícil de mexer. Mas é essa estrutura que precisa ser furada.
O terceiro grupo discutiu estratégias para fortalecer a Campanha Levante e o Fundo de Reserva para Ações Afirmativas. Entre as propostas estavam campanhas de comunicação mais diretas e visuais, iniciativas para tornar concreto o impacto de cada doação e a destinação de um percentual dos eventos ao Fundo. O grupo propôs também aprimoramentos nos processos de seleção e comunicação com os candidatos, no sentido de evitar retraumatizações. Ficou colocada ainda a sugestão de um censo racial do Departamento e, em relação ao Instituto, o uso da própria Carta de princípios do Sedes como instrumento de pressão para ampliar o número de cotas oferecidas.
Apresentadas as propostas, a palavra foi aberta e o debate fervilhou. Vieram à tona a contemplação da interseccionalidade; meios de adensar as contribuições à campanha Levante; mais uma vez, a questão dos ausentes e como encorajá-los a comprometer-se com os valores e lutas do Departamento; o envolvimento da comunidade nas instâncias políticas do Instituto e a identificação dos gargalos e impasses para entender como avançar no combate ao racismo; a importância de também reconhecer os avanços; a necessidade de trabalhar na definição dos dispositivos e numa sistematização de agenda futura; e a proposta de um ato simbólico de inclusão da questão racial na Carta de princípios.
Incluir não é suficiente, disse o Manifesto de 2020. É preciso ampliar os espaços de encontro, de troca e, efetivamente, promover a conjugação das diferenças. Cinco anos depois, o Departamento sabe que esse caminho é longo e que ele só se faz junto e que há trabalho concreto pela frente: a Comissão de Reparação vai condensar os relatos e encaminhar as propostas ao Conselho de Direção.
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[1] Aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, psicanalista em formação no 4o ano do Curso de Psicanálise, integrante da equipe editorial deste boletim online.