Relato sobre as rodas antirracistas
por Bruno Spadoni[1], Camila Hachul[2], Luísa Godoy[3], Raphael Rodrigues Martins[4] e Renata Greco[5]
As rodas aconteceram, a palavra circulou e os encaminhamentos começaram a ser pensados.
Foi bonito ver a sala 81 cheia: mais de 80 participantes em cada dia. Acreditamos que vieram mais pessoas do que as que assinaram a lista — foram 125 assinaturas. Faltaram cadeiras para acomodar o público; foi preciso colocar almofadas no chão e, ainda assim, algumas pessoas permaneceram de pé. Eram visíveis a atenção e a entrega de muitos ali, mas, sobretudo, o desejo coletivo de construir uma reparação conjunta. Após a leitura da nossa carta, não demorou para que as falas começassem a surgir. Nós e os demais alunes, a Comissão de Reparação, professores do Curso de Psicanálise, coordenadores e a direção do Instituto Sedes Sapientiae — ninguém detinha o saber. Todos tiveram a oportunidade de se colocar a partir do trauma subjetivo, coletivo e estrutural; da experiência ou do conhecimento; do vivido ou do não vivido.
Tratou-se de um movimento inaugural do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Aqueles que se pronunciaram marcaram que a roda constituía um ato simultaneamente psicanalítico, político, ético e poético, oferecendo um espaço coletivo de elaboração do mal-estar, da dor individual e do trauma cultural e estrutural. Muitos manifestaram alívio ao saber que existe, no Sedes, um espaço onde o desconforto pode ser nomeado e sustentado, rompendo o silenciamento de violências historicamente deslegitimadas ou naturalizadas, que produzem abandono e exclusão. As rodas chegaram a ser cogitadas como um dispositivo de acolhimento, permanência e reparação simbólica, reforçando que a elaboração não pode ficar restrita ao âmbito intrapsíquico. Foi repetida, por muitos, a importância da coletivização diante dessas violências — e de outras que também foram nomeadas. O racismo, o tema mais abordado, mas ao qual não podemos nos limitar, exige respostas que articulem sujeito, coletivo e instituição.
Surgiu, com força, a necessidade de criação de um outro dispositivo institucional permanente, capaz de orientar e conduzir situações de violência sem recorrer à lógica punitiva ou do cancelamento. Esse dispositivo apareceu nomeado de múltiplas formas — protocolo, escutadoria, mediador, comissão — justamente para evitar o engessamento e preservar a dimensão da escuta psicanalítica. Entre os elementos consensuais para esse dispositivo, destacam-se:
- acesso direto e cuidado prioritário a quem sofreu a violência;
- caráter orientador e reparativo;
- construção coletiva e horizontal;
- participação das três esferas institucionais: analistas em formação, professores e diretoria;
- inspiração em práticas de justiça restaurativa;
- sustentação do mal-estar como condição ética
No campo da formação, os participantes apontaram para a urgência do letramento racial no curso — não como algo opcional, como já ocorre no Departamento: Oficinas de Aquilombamento Afetivo e Letramento —, da ampliação das bibliografias de autores negros e da revisão dos processos seletivos. No entanto, algumas pessoas levantaram a seguinte questão: será que recorrer à pedagogia é, por si só, uma saída?
Outra colocação muito importante foi a lembrança de que o Sedes e seus departamentos podem pensar diversos dispositivos para lidar com essas violências, mas não podem esquecer que o Instituto Sedes Sapientiae não está acima da lei e que determinadas situações também precisam ser encaminhadas para essa instância.
Por fim, como já mencionado ao longo do texto, reconheceu-se que precisamos construir urgentemente dispositivos de elaboração horizontal e de reparação pública, sobretudo quando a violência não é reconhecida por quem a comete. Em consenso, afirmamos que as violências sempre existirão, mas a aposta está na construção contínua de laços, aquilombamentos e espaços permanentes de escuta, sustentando a ideia de que algo precisa acontecer o tempo todo para que não sigam se repetindo do mesmo modo.
Diante disso, concluímos: a luta não acabou. Precisamos arregaçar as mangas, somar forças e trabalhar coletivamente.
Carta-convite às rodas
Começamos esse evento com a fala da fundadora desse Instituto, Madre Cristina, no documentário “Memórias da Psicologia”:
“Esse instituto, a proposta dele, não é ser uma escola, é também escola, mas infelizmente é conhecido só como escola. A minha ideia era ser um instrumento, um local, um encontro, um espaço, onde pessoas quisessem pensar a transformação da sociedade”
Sendo assim, estamos aqui.
No dia 28 de outubro, vivemos uma situação de racismo explícito durante nossa supervisão do 4º ano do curso de Psicanálise — uma situação frente à qual tivemos muitas dificuldades em lidar com a recusa, a negação e outros desdobramentos.
Diante disso, entendemos que não se tratava de um incidente isolado, mas de um sintoma estrutural. Pensamos que a melhor forma de responder seria elaborar coletivamente o ocorrido, buscando ações que escapem da lógica punitivista — não voltadas apenas a eliminar o algoz, mas a produzir transformações reais na estrutura e no cotidiano da instituição.
Com essa intenção, fizemos uma convocatória e reunimos 125 assinaturas. Com isso em mãos, iniciamos negociações com o grupo de professores e com a Comissão de Reparação e Ações Afirmativas, para que este encontro pudesse acontecer. E cá estamos.
Esse episódio ocorreu logo após o XIII Congresso da FLAPPSIP, cujo tema foi Eros, alteridade e criatividade em tempos de assombro. Nesse evento, em Lima, nós — analistas — nos colocamos à frente das discussões sobre raça, gênero, classe e outros marcadores sociais da diferença. No entanto, bastou retornarmos ao cotidiano institucional para que ficasse evidente o abismo entre discurso e prática. A distância entre a fala progressista e o enfrentamento real das violências segue escancarada.
Somos a primeira turma do curso de Psicanálise beneficiada pelas cotas, fruto da luta iniciada pelo Grupo de Trabalho A Cor do Mal-Estar. Sentimos, portanto, um compromisso maior com essa história. Temos percebido que outros corpos, outras identidades, outras narrativas sociais e outras origens têm ocupado cada vez mais o Sedes — e que isso tem produzido movimentações, novos discursos e novas perguntas.
O que emerge dessa presença quando essas pessoas passam a ocupar a instituição como sujeitos de fala, e não como objetos de estudo? Muito mal-estar, ao que parece. Mas o que se perturba quando os “monstros e lixos” falam? — parafraseando Lélia Gonzalez e Paul Preciado.
O assombro que surge da presença desses corpos ultrapassa o Instituto Sedes. É um sintoma amplo, que exige atenção e cuidado urgentes. Se não resistirmos ou criarmos algo novo diante desse conflito, corremos o risco de retroceder ou de reduzir tudo à mera gestão do capitalismo em crise.
Por isso, propomos deslocar essa questão de um campo exclusivamente metapsicológico para um ato público e político, que marque como o racismo e outras discriminações estão presentes e podem explodir nas situações mais inusitadas — inclusive em uma supervisão.
O encontro de hoje nasce de um movimento nosso, enquanto analistas em formação, que decide ocupar o espaço de supervisão para pensar coletivamente o que o curso e o Departamento podem fazer diante de uma situação tão violenta quanto persistente. Trata-se de um movimento articulado ao grupo de professores e à Comissão de Reparação e Ações Afirmativas do Departamento de Psicanálise.
Estamos propondo que o Departamento seja atravessado por essas questões tão candentes, abrindo espaço para nos perguntarmos o que é intolerável e o que precisa ganhar dimensão de conversa pública e institucional.
O que fazer diante de algo assim?
Se muitos de nós, psicanalistas, não desejamos que o Estado regule nossa prática, como agir diante de posturas como essa? Como encaminhar questões tão graves e urgentes de modo a afirmar uma psicanálise encarnada e inserida no mundo — em oposição a uma prática que “paira” acima de tudo isso?
Freud, em entrevista em 1930, já nos advertia:
“Tudo compreender não é tudo perdoar. A psicanálise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que devemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância para com o mal não é de maneira alguma um corolário do conhecimento.”
Esperamos que, a partir deste episódio — e de outras situações de violência dessa natureza — todas as instâncias do Sedes, do Departamento e do curso possam ser retrabalhadas, como por exemplo: entrada e permanência de alunes, contratações, bibliografias, programas de seminários e protocolos institucionais.
Abrimos, assim, esta roda para essa conversa, pois acreditamos na música Prelúdio do Raul Seixas:
“Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade.”
__________
[1] Aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[2] Aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[3] Aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[4] Aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[5] Aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.