Sobre as rodas, o que roda?
por Professores/as do Curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae[1]
Ao final de 2025, vivemos uma experiência muito significativa no Curso de Psicanálise – que nos tomou a todos/as, professores/as e analistas em formação, que se irradiou para o Departamento de Psicanálise e para a Diretoria do Sedes. Ela se deu a partir de uma situação de racismo ocorrida em uma atividade de supervisão do Curso, deflagrando uma série de acontecimentos. Insidioso e ocupando frestas pouco visíveis da vida institucional, o racismo extrapolou as fronteiras do sigilo da supervisão, exigindo elaboração coletiva. Dentre as providências que se seguiram dali, surgiu um movimento político organizado por alunos/as envolvidos/as no episódio, convocando uma roda geral de conversa, no horário das supervisões, realizada em dois dias da semana. Professores/as aderiram ao chamado, suspendendo as atividades: a luta antirracista “ocupava” o Curso.
Além disso, os/as alunos/as mobilizaram também a Comissão de Reparação, um grupo do Departamento destinado a pensar o racismo e realizar ações concretas para enfrentá-lo no âmbito mais amplo do Departamento, como, por exemplo, acolher e encaminhar queixas e denúncias que não encontram outros espaços institucionais de escuta, organizar oficinas de aquilombamento e campanhas de auxílio à formação de aluno/as cotistas. A Diretoria do Instituto, envolvida nas medidas tomadas diante do ocorrido, também foi chamada a participar. Assim, comparecemos – alunos/as e professores/as do curso, Comissão de Reparação e Diretoria do Instituto – em grande número, às rodas de conversa.
Nós, professores/as do Curso, entendemos que este foi um acontecimento instituinte, por pelo menos duas razões: não assistíamos, há anos, a um movimento político organizado dessa natureza por parte dos/as alunos/as, ausência que parecia refletir, dentre outras coisas, uma crise mais ampla dos espaços de participação política coletiva em nosso país. Embora já tivessem participação ativa na vida do Curso, algo diferente se produzia agora: uma força autônoma de mobilização política, capaz de reunir todas as turmas do Curso e alcançar outras instâncias. Outra razão foi a dimensão de uma resposta institucional em ato, diante de uma experiência de racismo, que não se restringiu à sua condenação ou à adoção de medidas formais, mas mobilizou diferentes segmentos em um processo coletivo de escuta e elaboração, voltado à transformação das próprias relações institucionais.
Com a participação maciça de alunos/as e professores/as do curso, foi notável a presença daqueles(as) que ingressaram a partir da implementação da política restaurativa de cotas para pessoas negras. Vale destacar que quem iniciou o movimento pertencia à primeira turma que ingressou por meio dessa política. Isso não é pouca coisa! Ao longo do encontro, a participação de cotistas trouxe à conversa perspectivas até então pouco presentes no Curso. A composição interracial do encontro permitiu que experiências que poderiam permanecer abstratas para uns fossem enunciadas por quem as vive, ao mesmo tempo que passaram a circular em um espaço compartilhado de escuta e elaboração. Uma das participantes da roda, integrante da Comissão de Reparação, observou, emocionada, que talvez pudéssemos experimentar ali a formação de um “cordão branco” contra o racismo, em que pessoas brancas mobilizam sua própria implicação e responsabilidade, somando-se ativamente à luta antirracista.
Entendemos, todos/as, a necessidade de abrirmos espaços cotidianos de trabalho como o das rodas, voltados não apenas às questões de raça, mas também às questões étnicas, de gênero, de classe social etc. Ensaiamos algumas ideias a esse respeito, que não chegaram a se concretizar em propostas efetivas, deixando em aberto uma tarefa que ainda devemos abraçar e fazer avançar coletivamente.
Frente ao que nos ultrapassa, resta muito a tecer. Desse cordão branco — que deixa de ser contenção para virar continência —, nasce mais um convite para a feitura de novos laços em todas as instâncias. Da marca de um episódio violento, quando nomeado, não há retorno. Aprende-se isso, na melhor das hipóteses, ao nos inclinarmos sobre os limiares do racismo institucional para escutá-lo na dor de corpos diversos, reconhecendo as particularidades de nossas dis/posições no/para o diálogo.
Ainda assim, também é sabido que o resgate desta memória não nos isenta de futuros desafios e da lida com a dívida histórica que assola o Instituto Sedes, a psicanálise e o país em sua estrutura. Lembremos dos feitos, acolhamos os efeitos, atentos aos tropeços, ruídos e descompassos que se manifestam e se expõem interracialmente — repetições e resistências que impedem avanços e desconstruções. A experiência de 2025 é um convite para que tracemos pontes, apostemos na ampliação de condições de diálogo. O percurso simbólico feito até aqui não nos imuniza da reincidência de violências estruturais, não oferece salvaguarda a qualquer “oásis da ignorância”, mas convoca à instauração de outros e novos espaços institucionais de acolhimento e sustentação de tensões que, há pouco, tiveram oportunidade de expressão e, benfazejas, extrapolaram fronteiras, dispondo hierarquias em rodas, propondo outro desenho.
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[1] Alcimar Alves de Souza Lima, Ana Claudia Patitucci, Ana Maria Sigal, Atilio Bombana, Breno Sniker, Camila Munhoz, Flavio Ferraz, Isildinha Baptista Nogueira, Lucía Barbero Fuks, Mara Caffé, Maria Aparecida Aidar, Maria Cristina Ocariz, Maria de Fátima Vicente, Maria Elisa Pessoa Labaki, Mauro Meiches, Miriam Chnaiderman, Moisés Rodrigues da Silva, Nayra Ganhito, Noemi Moritz Kon, Paula Francisquetti, Rafael Alves Lima, Rodrigo Blum, Silvia Alonso, Soraia Bento, Tales Ab’Saber, Tânia Corghi Veríssimo.