Acessos e excessos no campo da psicanálise[1]
USP 2026
por Ana Maria Sigal[2]
Boa tarde, agradeço o convite de Renata Arouca, com quem trabalhei por vários anos no Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, movimento este que se dedica às lutas para não regulamentar a psicanálise, para mantê-la livre das ingerências de Estado e por uma psicanálise leiga e laica. Agradeço também aos organizadores do evento, e saúdo os companheiros que compartilham a mesa. Sempre é um prazer falar na USP.
Para falar de acessos e excessos é preciso circunscrever esta questão para saber: Excesso de quê? Acessos aonde? Acho excelente a proposta desta mesa porque permite que sejam tomados diversos caminhos. Gostaria de falar sobre a formação de analistas, um tema que me é caro e em torno do qual transito há 50 anos no Brasil e por outros 10 anos antes de vir da Argentina. Podemos ser incluídos, ter acesso e podemos circular por diversos lugares na psicanálise, mas importa saber de qual psicanálise falamos. Há também excessos que se cometem em nome da psicanálise e vou falar de alguns deles.
Tomarei o caminho da formação para circunscrever campos; em princípio falarei da psicanálise e da psicanálise que pratico, que está relacionada à instituição a que pertenço. Isto não impede que existam muitas outras formas de abordar o sofrimento do ser humano, desde a psicanálise e fora dela.
Cheguei ao Brasil há 50 anos, data do golpe militar na Argentina; fui exilada política num primeiro momento e depois passei a ser residente brasileira por opção. Um dos motivos que me determinou a ficar foi que já tinha afincado minhas raízes no Brasil, tinha filhos brasileiros e, como elemento muito importante, um projeto político-técnico institucional consolidado. No mesmo ano em que cheguei, conheci Regina Schnaiderman e Roberto Azevedo, que estavam engajados no plano de criar um curso para formação de analistas que se diferenciasse da formação oficial ligada à Internacional de Psicanálise (IPA). Sempre a questão era: a quem pertencia legitimamente a psicanálise? Hoje continuamos discutindo esta questão, e é por isto que vou definir um campo – sem dizer que seja o verdadeiro ou o legítimo, mas sim o campo com o qual me sinto identificada, um campo possível. Nos anos 1970 fui continuar minha formação na Europa, ficando na Inglaterra, onde havia algumas opções de formação: a Hampstead Clinic, comandada por Anna Freud; a Tavistock Clinic, formada por vários analistas independentes, com grande abertura para a psicanálise de crianças, de grupos, de família, e que desenvolvia o projeto de formação a partir da inserção clínica; a Sociedade de Psicanálise e grupos alternativos como a comunidade terapêutica de Ronald Laing e David Cooper, que funcionava como uma unidade experimental dentro do Hospital Shenley, em Hertfordshire, nos arredores de Londres.
A Villa 21 foi um marco do movimento da antipsiquiatria e das comunidades terapêuticas democráticas. Cooper buscava tratar jovens em primeiro surto psicótico eliminando as barreiras tradicionais de poder entre médicos e pacientes, evitando métodos invasivos e focando na convivência e na autonomia dos sujeitos, ligado ao movimento italiano da antipsiquiatria de Franco Basaglia. Optei por me incorporar a Tavistock Clinic e compartilhar dois dias por semana na comunidade terapêutica de Cooper. Desde os primórdios estava interessada nos movimentos alternativos. Quando regressei desta experiência, me encontrei, em Buenos Aires, com um novo grupo, que me ofereceu as ferramentas para estudar e trabalhar: o grupo Plataforma, articulado por psicanalistas politicamente engajados, que estavam em conflito com a Internacional. Nesta experiência recolhi as melhores ferramentas que me acompanharam ao Brasil.
O grupo que se formava aqui no Brasil questionava determinados parâmetros de modo muito parecido ao que nós, argentinos, havíamos feito em relação à formação de psicanalistas e suas instituições, a partir de elaborações que ainda hoje defendemos para pensar a democratização da psicanálise. Plataforma foi um movimento que teve suas origens no questionamento que um grande grupo de analistas fez, no Congresso de Roma, sobre a agressividade. Tratava-se de identificar a agressividade como simples produto do mundo interno do sujeito ou considerá-la articulada à forma como uma sociedade capitalista e neoliberal afeta o sujeito na constituição da neurose. Hoje, segue sendo necessário insistir na importância do laço social como variável que determina a formação da subjetividade. Sendo fundamental conhecermos Freud, não se pode coagular um pensamento e mantê-lo fora das coordenadas de seu tempo histórico. Por isso, trata-se de voltar a Freud para fazê-lo trabalhar: desenterrar as vias de pensamento que ficaram submersas, empurrar a teoria a seus limites e revisá-la em busca dos pressupostos epistemológicos a serem repensados à luz das novas conceitualizações. Se Freud deixa muitas pontas em aberto, que podemos explorar, existem princípios aos quais não se pode renunciar para nos pensarmos no campo da psicanálise. Quais seriam os inegociáveis ou os fundamentos para nos dizermos dentro desse campo?
Aqui acontecem os excessos: identificamos espaços que se dizem de formação de analistas, mas que baseiam sua transmissão em ideias frontalmente contrárias à psicanálise. Não se trata de regulamentar a psicanálise dizendo quem é ou quem não é psicanalista, submetendo o ofício de psicanalista a uma autorização exterior à sua ética, mas sim podemos dizer que há práticas que estão fora do campo psicanalítico. O movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras se formou no ano 2000, em resposta a uma tentativa da SPOB – Sociedade psicanalítica ortodoxa brasileira -, uma sociedade evangélica, de regulamentar a psicanálise a partir de uma visão absolutamente contrária aos princípios científicos deste saber. Tal grupo pretendia deter o poder ao criar uma autarquia que autorizasse o exercício deste ofício. Muitos grupos religiosos se apropriaram da psicanálise visando a dar tintas de cientificidade a seu discurso. De nossa parte, batalhamos por uma psicanálise laica e leiga – pois não é necessária uma formação prévia em medicina ou psicologia para aceder à formação de analista, conforme já registrara Freud em seu exemplar trabalho de 1926, “A questão da análise leiga”.
Como saber e prática subversivos, a psicanálise se debruça sobre a verdade do sujeito singular e único. Por isso é laica, independente de normas éticas ou morais de cunho religioso para o que se desenvolve no campo da teoria e da clínica – campo de uma práxis que justamente visa à desalienação do sujeito. Como então formular ideias que nos permitam dar contorno e piso às questões que poderiam caracterizar este saber? Como definir condições do campo sem enquadrá-lo ou aprisioná-lo, mas que nos ofereçam alguma formulação para caracterizá-lo?
Penso que há certos inegociáveis para definir um campo: são coordenadas básicas que minha formação freudiana considera princípios fundamentais que definem condições mínimas para defini-lo nos tempos atuais. Penso nas fundações, nos alicerces de uma construção sem os quais não se sustentaria. Tal caracterização está exposta e aberta aos debates que cada um queira travar, fundamentar e registrar, considerado o necessário rigor epistemológico a respeito do que é analítico, do que é o objeto da psicanálise. Consideramos conceitos fundamentais a serem conservados, no campo da teoria:
1) O inconsciente
2) A sexualidade infantil
3) A pulsão
No campo da clínica, os conceitos de:
1) Transferência
2) Abstinência
As questões relativas ao método são variáveis, segundo o setting implementado, pois associação livre e atenção flutuante podem se modificar em configurações especiais tais como o uso da tela nas análises online, em grupos de conversa e sob outras diversas modalidades grupais.
Ao falarmos em abstinência, recusamos uma compreensão equivocada que exigisse que o analista não tivesse participação, como sujeito, da história de seu tempo. Outrora a participação na instituição oficial de formação de analistas exigiu que o analista se abstivesse de sua função cidadã e se mostrasse neutro, a fim de não obstruir a projeção do paciente. Mas não é esse o conceito de abstinência em Freud, que se refere a se abster de desejar pelo outro, apontando para a capacidade do analista de não escolher caminhos para o analisando, a quem cabe responsabilizar-se pela sua subjetividade e pelas escolhas que podem transcorrer durante uma análise. Porque a neutralidade não existe, a análise do analista é fundamental para permitir-lhe uma escuta mais ampla.
Entretanto, questionamos a análise didática, que se apresenta como uma análise que controla a formação, por isso se constituindo essencialmente contra o trabalho analítico: somos favoráveis ao reconhecimento institucional da liberdade do candidato para escolher analista e supervisores. Entendemos que o conceito de análise não admite adjetivação. Há uma única análise, a análise do sujeito. Toda análise é exclusivamente um trabalho com o inconsciente, não tem funções pedagógicas ou didáticas. Tampouco àqueles que conduzem as análises caberia qualificar seus pacientes no âmbito da formação. Somos contra a verticalidade de uma estrutura de poder que rege as instituições de formação. A verticalidade imposta à instituição pela designação de analistas didatas reproduz, de certa forma, um desejo excessivo de Freud, o de manter o controle da formação num contexto em que sua detenção do poder começava a ser questionada.
Também ressaltamos a necessidade de superar certas restrições impostas à psicanálise nos seus começos, ao expandi-la para o trabalho grupal, assim como incluí-la nos serviços públicos que lhe consintam maior alcance social, para sua efetiva deselitização. Ao incluirmos a psicanálise no hospital, nos serviços de saúde, nos CAPS, tais espaços também podem funcionar como espaços de formação – uma ideia interessante que se pode basear nos trabalhos da Clínica Tavistock. Não se transforma alguém em analista oferecendo-lhe um curso, é necessário entender que esta formação é complexa e requer tempo e prática da função clínica. A universidade não pode formar analistas, pode pesquisar e trabalhar com os conteúdos teóricos, mas não forma propriamente alguém para clinicar. Tal percurso se dá nos contextos das instituições de formação ou, por vezes, das formações independentes, razão pela qual contestamos propostas de formação de analistas em bacharelados. Nos próprios lugares de trabalho se podem articular espaços de formação, tendo em conta a prática clínica, a exigência de análise pessoal e o estudo da teoria. Pensando com esta liberdade, identificamos a possibilidade de que a psicanálise trabalhe em diferentes territórios, democratizando-se quando exercida por pessoas bem formadas. Novamente, deselitizar não implica diminuir o rigor da formação.
Desde o ponto de vista epistemológico, reivindicamos a leitura de Freud sem sacralizar sua obra, o que envolve recriar e reconstruir conteúdos que foram elaborados segundo o contexto social em que Freud viveu e que se inscreveu em suas formulações. Sem dúvida, sua teoria emerge em uma sociedade branca-europeia, misógina, onde primava o patriarcalismo. Pouquíssimas mulheres tinham então acesso tanto à formação quanto à participação social. Nesse contexto, Freud elaborou a teoria da sexuação na mulher pressupondo o homem como universal, o que levou a posições preconceituosas em questões de gênero. Ao tomar a psicologia masculina como universal, resultou em desqualificar o lugar da mulher como sujeito igual e reafirmar o poder do homem. No decorrer dos anos, coube-nos trabalhar intensamente no estudo da sexualidade para aprofundar conceitos que faziam obstáculo à escuta das novas sexualidades que começavam a se manifestar frente a uma sociedade menos repressora.
A obra de Freud oferece, porém, grandes aberturas para trabalharmos a diversidade da sexualidade: a teoria da bissexualidade inerente ao ser humano, a conceitualização de uma pulsão perversa polimorfa, a escolha de um objeto vicariante que caracteriza a pulsão, em contraposição ao conceito de instinto, o trabalho com o complexo de Édipo ampliado, que nos defronta com a possibilidade de que cada sujeito tome o mesmo sexo como objeto de amor e de identificação foram vias antes pouco exploradas, que hoje em dia encontram um desenvolvimento muito maior. As transformações na teoria e na prática são elementos decisivos para manter a psicanálise viva. Por isso não cessamos de pesquisar, estudar e publicar trabalhos nessa direção.
Ao seguirmos pensando os grandes problemas que atravessam nossa sociedade atual, fomos ainda ganhando uma nova consciência do racismo estrutural que atravessa o Brasil e nos interessando pelas políticas antirracistas – o que atende à consideração da alteridade e do contexto social como produtores de marcas no inconsciente. Desse gesto político decorrem consequências teóricas e clínicas: repensar a metapsicologia a partir do mapeamento de fenômenos sociais nos quais o racismo tem grande expressão.
Se no inconsciente recalcado primariamente se guardam as primeiras representações, marcas-coisas da infância mais pretérita, que esta seja produzida num determinado meio social e político tem suas consequências: a relação com a branquitude ou a negritude também deixa suas marcas recalcadas, formando parte do inconsciente primitivo produto do recalcamento primário. Portanto se tratava de reconhecer que o inconsciente tem cor. Já Fanon tinha manifestado que o inconsciente não é neutro, reiterando a ideia de que fantasias, sintomas, identificações surgem da cultura que nos atravessa e incluir, em nossas referências teóricas, autores como Neusa Santos Souza, Grada Kilomba, Franz Fanon, Cida Bento, Isildinha Baptista Nogueira e tantos outros, possibilitou reformular algumas ideias relativas ao narcisismo e ao Ideal do eu, assim como recolocar questões importantes sobre a transferência e o manejo da contratransferência do analista que se precisa letrar, para se haver com seu racismo estrutural. A despeito do necessário reconhecimento de que nossa instituição é majoritariamente composta por pessoas brancas, há um intenso movimento interno visando a uma reparação ativa face à exclusão por tantos anos vivida. Somente o acesso a colegas negros (pretos e pardos) e indígenas modifica esta paisagem, o que temos visado através da criação de cotas raciais, cujo número investimos em ampliar.
Excessos
Empenhados em manter o tripé formativo com qualidade, acreditamos que uma democratização não pode acarretar uma banalização. Ser analista é um ofício que se transmite no corpo a corpo. O ofício de psicanalista requer muitos anos de formação tomando a clínica, a teoria e a própria análise como elementos indispensáveis para poder escutar o sofrimento do outro. Hoje em dia, encontramos no campo da transmissão excessos de facilitação do caminho a ser percorrido.
Parto da ideia de que a psicanálise não é uma profissão. Não é um aprendizado que se possa cursar numa universidade, nem dispor de um programa de estudos fixo e estruturado que proporcione uma titulação a partir do que registram os livros. Simplesmente não existe um título de psicanalista, já que a formação tem como eixo principal a análise do analista: um trabalho árduo, pessoal, único e singular, sustentado na transferência, e interminável. Sublinho: É no corpo a corpo que se transmite um ofício. Deste modo, qualquer tentativa de regulamentar a psicanálise entraria em contradição com sua própria ética, implicaria aceitar que um tratamento psicanalítico pode ser regulamentado ou que a universidade teria condições de oferecer tal formação. A psicanálise na universidade tem grande importância, como pesquisa, como modo de interrogar a teoria e fazê-la conversar com saberes relacionados, mas não poderia formar um analista, seja em nível de pós-graduação, seja na graduação. Muito nos preocupam os abusos e os excessos, queremos pensar também junto à universidade na difusão de uma prática democratizada, rigorosa e séria, acessível à população como alternativa aos aconselhamentos, coachings ou outras técnicas de efeitos rápidos que são produtos de uma sociedade neoliberal que se pauta pelo dinheiro. Queremos pensar juntos, ouvir e ser ouvidos neste árduo caminho de levar a psicanálise à sociedade como um todo e poder atender populações que ficam à margem. Pois o excesso de ofertas absolutamente deformadas afeta a formação desejável a um analista.
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[1] Trabalho apresentado na Mesa A psicanálise brasileira entre o acesso e o excesso, partilhada com João Sales e Ludmila Frateschi sob a mediação de Renata Arouca por ocasião do evento A formação psicanalítica no Brasil: desafios, extravios, perspectivas, coordenado por Daniel Kupermann em 31 de agosto de 2026 no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
[2] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, supervisora no Curso de Psicanálise.