Adolescência: construímos um Frankenstein?
Tiago Corbisier Matheus[1]
Muito tem se falado e escrito sobre a série de quatro capítulos (viva a objetividade!) Adolescência, dirigida por Philip Barantini. Com propriedade, trata de um tema sensível em nossa cultura, que é a perspectiva de futuro que cultivamos para nós, para os nossos, família e sociedade. Este é o lugar que atribuímos às novas gerações e seus sujeitos adolescentes, portadores que são de nossas expectativas de futuro, seja no receio de agruras que ameaçam, seja na esperança de mudança daquilo que inquieta e incomoda. Num mundo disruptivo como o nosso, marcado pelo incremento da desigualdade social, pela polarização e acirramento de disputas políticas, pela desconstrução de utopias longamente cultivadas, percebemos o esvaziamento dos ideais coletivamente compartilhados no meio social e a fragilização dos dispositivos mediadores da vida em sociedade, intensificando as experiências de desamparo e desesperança que nos acompanham. O que nos resta como esperança tende a ficar sobrecarregado.
O universo familiar tem funcionado como reduto neste cenário de desesperança generalizada, como uma bolha capaz de subsistir à revelia e fazer frente às adversidades do campo social ampliado, pautadas como têm sido por conflitos disruptivos e exclusão. Aliás, não é de hoje que a instituição familiar cumpre tal função, bem como não é nova a crítica que se faz deste arranjo e de suas consequências. Sabemos que tal polarização entre ameaça e esperança resultam numa visão maniqueísta do mundo (o bem está aqui e o mal está fora, no entorno a ser evitado), fomentando segregação e hostilidade, bem como o cultivo de valores hierárquicos misóginos e tradicionalistas, que visam a conservar a desigualdade da estrutura social vigente e seus dispositivos de poder (que o bem seja glorificado e o mal, destruído).
Assim, a instituição família funciona hoje, para muitos, como um feudo, uma instância imaginária em torno da qual cada sujeito sonha reescrever sua própria história, a fim de superar as marcas de dor que carrega. Todos vivemos excessos ou insuficiências, mas estes tendem a adquirir uma significação mais aguda num contexto social adverso, sobrecarregando a nova geração, que é tomada como alvo das projeções de um futuro melhor – meu filho, meu mundo.
Entre os demais personagens abordados na série, temos outra instituição cúmplice da primeira e que há décadas vem servindo como alicerce para este projeto de formação dos novos membros (das famílias e das sociedades). Esta segunda tem sido alvo de intensos e ambivalentes investimentos, tanto no cultivo de utopias de um mundo melhor, quanto em sua desqualificação, sendo responsabilizada pelo fracasso deste projeto (os jovens de hoje estão perdidos!). Há muito a escola ocupa um lugar estratégico não somente na formação acadêmica em favor da ampliação do repertório simbólico da nova geração, que então pode ter acesso às aquisições de saber alcançadas pelas demais gerações, mas também tem sido um lugar privilegiado para a socialização juvenil. Com o esvaziamento do espaço da rua como lugar de encontro, ela se tornou o local onde costumam se formar os grupos de pares entre jovens que, em suas ambivalências e intensidades pulsionais, servem de apoio para o exercício de relações horizontais (em relação à família) e para a construção da tão almejada autonomia (reconhecer-se como sujeito de direito e de desejo). A escola, quando se presta a tanto, funciona como palco da negociação simbólica entre gerações, oferecendo espaço para o protagonismo juvenil construir suas subculturas – conforme seus recortes raciais, de gênero ou ideológicos – como reação às demais gerações, que pretendem direcionar a bagagem e a conduta da mais jovem.
Logo, a escola é tomada pela instituição familiar como braço direito, sendo responsabilizada pela efetivação de seu ideal formador. A escola é cobrada (e, no caso das escolas particulares, também cobra) por isso. Ocorre que a própria escola também tem sido idealizada nesta função, como se fosse capaz, ela própria, de responder pelos valores, comportamentos e ideais juvenis; como se fosse capaz de, sozinha, realizar a utopia da modernidade, na qual o humano seria o próprio gestor de sua realidade social e autor deliberado de seu destino.
Finalmente, o terceiro personagem retratado é mais recente, mas não menos destacado, pois invadiu de modo avassalador e irreversível corações e mentes não só do mundo juvenil, subvertendo boa parte de tudo o que no universo familiar ou escolar vem há muito sendo cultivado. As ditas redes sociais (nome curioso dado para as redes de relações virtuais, como se estas definissem a realidade social efetiva de cada pessoa e seu entorno) surgem, hoje, como algoz produtor de tantos sintomas sociais, colocando as duas instituições, família e escola, em xeque.
As redes sociais são fruto de construções coletivas, oriundas de esforços compartilhados na produção de tecnologias que vieram atender anseios presentes em um mundo cada vez mais acelerado e urbanizado. Convergiram de interesses de diferentes ordens e segmentos, compondo assim um universo e um ferramental que passaram a interferir também nas aspirações presentes entre seus tantos usuários, seja cultivando imagens narcísicas de sucesso e realização pessoal, seja viabilizando uma interação que se supõe mais preservada da violência urbana ou do risco do contato direto entre pessoas, próprio da vida cotidiana de cada sujeito. A possibilidade de definir um perfil social próprio, despido de feridas e marcas indesejadas, para se lançar no meio social, tornou-se sedutora. O retorno do recalcado, em contrapartida, tem sua perspicácia e percorre caminhos diversos, de modo que o que pode ser negado ou evitado no mundo virtual, acaba surgindo de modo adverso, como estranhamento, disfunção, discordância ou fantasma, tal como a série nos faz ver.
A série Adolescência, como metáfora bem construída, permite vários recortes e questionamentos, o que percebemos nas distintas análises que têm sido feitas a seu respeito. Destaco aqui a angústia que ela nos provoca quando expõe a falência do nosso ideal de futuro, ao trazer a imagem de um jovem recém ingresso na puberdade, aparentemente amado e bem tratado, oriundo de uma singela e dedicada família de classe média inglesa, que é então apontado como autor de um ato de violência extrema – ao ultrapassar o impensável tabu não matarás. Somos fisgados na provocação e nos perguntamos: aonde foi que erramos? O que teríamos feito ou deixado de fazer para que tanto zelo e empenho possam ter assim culminado numa cena de horror? A falta de resposta faz eco, suscitando culpa, pesar e medo. A escola, como braço da família, surge como cúmplice responsável pela derrocada, não sendo capaz de bem conduzir a formação dos grupos de pares ali cultivados, não oferecendo referências significativas o suficiente entre educadores e saber produzido, que mediassem as aspirações juvenis e favorecessem ideais a serem cultivados? Ou teriam sido as redes sociais que, silenciosa e ardilosamente, teriam invadido lares cristãos, sabotando à revelia corpos e mentes?
Três personagens que seriam cúmplices na ação, numa trama que fica exposta sem aviso prévio. Percebe-se, logo, que o assassinato é do sonho cultivado na família média, de resistir às desventuras de um mundo corrompido pela desesperança e violência. Mas como? Por que?
A série apresenta um pai que evita repetir com o filho a opressão que teria sofrido frente a seu próprio pai, um pai dedicado ao projeto de família e formação da prole. Porém, traído por suas aspirações, não consegue evitar dar sinais do seu desapontamento com o filho, quando este se mostra menos hábil e afeito aos esportes do que teria fantasiado. Ainda assim, esse pai busca mostrar aceitação e consideração para com o gesto extremo do filho, o que não acontece quando é provocado pela comunidade do entorno, hostil diante da notícia que corre ao recriminar a família pelo ato de violência atribuído ao filho. A hostilidade entre vizinhos (narcisismo das pequenas diferenças) contribui para o aumento da tensão e culpabilização destes pais, que se percebem acusados junto ao filho. Ao ter seu furgão, instrumento de trabalho, pichado em função das atitudes do filho, ameaçado em seu lugar de provedor, esse pai se mostra impulsivo e irascível, fazendo lembrar a atitude do filho no ato extremo. Ainda que não tenha chegado às últimas consequências em sua irritação, se mostra cúmplice da incontinência do filho, em sua impulsividade.
O filho teria levado a incontinência do pai às últimas consequências? Identificar-se-iam em torno da angústia de exclusão ou desamparo em seus respectivos grupos de pares? Ambos mostram a dificuldade que o universo masculino enfrenta diante da ameaça do poder patriarcal: o que cabe aos homens se não mais ocupam o lugar de poder na família ou nas relações amorosas?
A escola que a série nos apresenta surpreende, por um lado, pela estrutura física e espacial de uma instituição pública, pouco semelhante à nossa realidade local. Mas, por outro lado, ela se mostra precária quanto às práticas e estratégias pedagógicas adotadas. Professores e coordenadores mostram dificuldade de diálogo com alunos, que por sua vez não escondem sua indisposição e rispidez entre pares ou com os adultos. Os educadores, quando confrontados, mostram-se ameaçados em sua função, lançando mão de atitudes autoritárias de distintas modalidades, denunciando assim a fragilidade do projeto escolar. Sinais de descaso e insatisfação são dados de parte a parte; o pavio de uns e outros é curto, criando um barril de pólvora constante. O clima pesado da instituição mostra que ela está longe do ideal para o qual fora proposta.
Os policiais que investigam o crime cometido surgem como testemunhas do desencontro entre alunos e professores, confirmando suas próprias lembranças juvenis a respeito do percurso escolar. Mas eles não estão isentos do fosso constatado, pois logo se dão conta da distância que também os separa dos jovens e de seu universo virtual, do qual pouco conhecem, apesar da proximidade física. É um mundo marcado por um jogo hostil, estigmatizante e pouco acolhedor, que os separa em winners ou loosers, sem margem para negociação. Se a narrativa em curso do jovem infrator sugere a tentativa de quebra desta dicotomia, indicando assim sua inconformidade e busca de saída de uma posição dada, o sonho de mudança serve mais para justificar a sedução que acompanha a violência deste jogo perigoso, que cultiva entre pares uma hierarquia intransigente e refratária. Esta é a lógica que acompanha o mundo paralelo dos jovens retratados na série, fruto da dedicação juvenil, que ocorre sob os desavisados olhares parentais. Jogo de exclusão e expiação revalidado no cotidiano escolar, com brincadeiras violentas mais ou menos salientes, mas que, a contar pelo enredo apresentado, não estão ao alcance da atuação de professores e educadores, rendidos em seu lugar de autoridade refratária e estéril.
Somos assim expostos a uma rede de desencontros entre atores que vivem distintas, mas nem tão distantes, modalidades de solidão, temperadas como são pelo desamparo de sonhos derramados. Como métrica deste universo, temos o individualismo contemporâneo e ideário da meritocracia: a disputa entre pares prevalece ante às possibilidades de pertença, sustentando como ideal de realização pessoal a aspiração de ascender ao grupo dominador em detrimento do dominado. Um seleto grupo de jovens eleitos como objeto desejado adquire poder desmedido para os demais, conforme a luta pelo reconhecimento que disputam. A lógica meritocrática confere legitimidade à violência sofrida: cada um se vê como responsável pelo próprio sofrimento e pelo lugar ocupado na hierarquia entre pares, conforme as marcas e insuficiências que pretendia esconder no perfil estabelecido.
O momento da adolescência descreve o difícil caminho da construção da autonomia de cada jovem (poder agir e falar em nome próprio), no desprendimento da autoridade e referência parental. Depende, para tanto, do amor e da sustentação narcísica recebidos (ter sido objeto de crédito dos pais), bem como da referência simbólica daí decorrente (repertório e ideais herdados e ressignificados). Os tais limites incorporados pelo próprio jovem são construídos ao longo da trajetória de formação desde a primeira infância e não como algo pontual a ser inserido unilateralmente pela dupla parental, como exercício de autoridade. A adolescência é resultado de uma construção de uma história de relações e com ela eclodem desafios que já vêm sendo gestados durante algum tempo, até mesmo ao longo de gerações. O movimento de desprendimento do adolescente convoca os pais a se reverem em suas posições e trajetórias, mas tal exercício, ainda que essencial, não basta para evitar atitudes disruptivas de adolescentes que vivem a estigmatização e a agressão entre seus pares. De fato, os pais são também responsáveis pela formação de seus filhos, mas não são os únicos e a bolha familiar não garante o sucesso do projeto ali gestado. Somos seres sociais, já dizia o velho mestre.
A escola, como instituição privilegiada na formação juvenil, é chamada a se rever constantemente em suas estratégias, que, inevitavelmente, nunca serão suficientes para contemplar os anseios tanto de pais, quanto da sociedade em geral, na formação da nova geração. Num contexto social dinâmico e complexo como o nosso, a escola precisará dialogar sempre com o caldo cultural do qual participamos, a fim de escutar, problematizar e propor caminhos para questões que chegam com as novas gerações. Tal tarefa precisa ser feita coletivamente, junto com os jovens, que anseiam por participação social e protagonismo nas realidades das quais participam; jovens querem se tornar sujeitos de suas próprias vidas. As escolas têm o desafio de permitir a emergência deste protagonismo, escutando o que dizem os jovens e oferecendo caminhos capazes de viabilizar a responsabilização destes pelos ideais almejados.
Não há como sustentar tal proposta se não for coletivamente, numa construção entre muitos, quebrando ou reduzindo a contundência do individualismo que o ideário meritocrático atual carrega. A escola não será capaz de realizar tal projeto sozinha, se não tiver interlocução e articulação com outros atores sociais, instituições capazes de participar direta ou indiretamente desta construção que nos envolve a todos. A escola depende da porosidade que encontre em tantos atores sociais, como intelectuais, agentes da cultura, profissionais da saúde, agentes do poder público, da sociedade civil ou mesmo da iniciativa privada, pois o ideário a ser almejado pela nova geração é fruto das redes (sempre dissonantes) estabelecidas entre esses atores. É da cumplicidade entre esses tantos que se torna possível sustentar a formação de cada um como uma construção comum.
As redes sociais, por sua vez, precisam de legislação própria, não somente veiculada por pais que monitorem as ações dos filhos que porventura fiquem fechados em seus quartos. As redes sociais são resultado do conjunto de forças sociais envolvidas e direcionadas para aquilo que, direta ou indiretamente, tantas gerações almejam, que é o ideário vigente. Se o individualismo prevalecer no caldo cultural atual, não há como esperar que jovens se contraponham a ele necessariamente, como se fossem eles os responsáveis pelo que as demais gerações não puderam fazer. Jovens reagem às questões que pulsam em cada realidade social; são por um lado sintoma destas, mas são também sujeitos agentes, que denunciam e problematizam aquilo que as demais gerações negam ou expiam nos mais novos. Não são somente os mais jovens que atualmente perdem referências e são capazes de tantas perversidades nas redes, em favor de suas fantasias narcísicas, mas são eles que mostram, por vezes, maior inconsequência diante de suas fantasias. Se há perversidade, esta não é fruto exclusivo dos jovens e o desafio de sua desmontagem exige o compromisso de todos aqueles que se alienam de seus conflitos e sintomas, expiando-os nos mais jovens.
Precisamos de cada um desses esforços, nestes diferentes planos, mas, sobretudo, precisamos sustentar uma utopia de ação compartilhada e coletiva em favor de algo além do bem estar individual. É preciso buscar a construção de uma cultura de bem estar capaz de alcançar uns junto com outros e não de alguns em detrimento de outros. É preciso que o ideal de cada um envolva em alguma medida o bem estar do outro, de modo que o ideal não seja ser único – especial, prime ou diferenciado – pois isso implica que outros não o serão, compondo uma gangorra na qual para alguém subir é preciso que outro venha a descer. Precisamos atuar coletivamente, em favor de projetos de bem estar coletivos, nos quais as pessoas, jovens e educadores possam se realizar no frágil e constante exercício de alteridade que inclui sempre o outro como condição de possibilidade. Precisamos de uma utopia coletiva para fazer frente ao dogmatismo excludente e alienado de quem assume como projeto a separação do mundo entre dualidades, quem é do bem e quem é do mal.
Abril/2025
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.