Por que estudar Bion?
por Clarissa Silbiger Ollitta[1]
O grupo de trabalho Por que estudar Bion?, sob minha coordenação, formou-se a partir do espaço de interlocução oferecido pela Incubadora de Ideias e teve início em maio de 2019.
Bion é considerado um autor complexo de difícil compreensão. Frequentemente busca-se condições coletivas de compartilhamento da leitura como recurso de lidar com as dificuldades de acesso ao autor. Foi assim que nos propusemos construir um caminho vivo de aprendizagem no estudo de Bion.
Considerando o percurso de cada participante na psicanálise e suas inquietações teórico-clínicas, processamos um programa articulado com a seleção de leituras, buscando expandir nossos referenciais em encontros únicos de elaboração da experiência. Sem a preocupação em alcançar um saber pré-estabelecido, navegamos em áreas desconhecidas em constante movimento de criação.
Atentos e coerentes com a concepção de aprender pela experiência, segundo Bion, temos trilhado um caminho de confiança, liberdade e intimidade. Somos um grupo pequeno, de encontros mensais com participação estável e disponível para novos participantes.
“Nós, como grupo, deveríamos ser capazes de mobilizar ou germinar uma ideia: produção muito difícil para um único indivíduo”, afirma Bion em Seminários na Clínica Tavistok.
Para compartilhar um pouco a nossa experiência, solicitei aos membros que escrevessem depoimentos de suas participações no grupo. Seguem alguns relatos:
“Quando vi o título do grupo de estudos Por que estudar Bion? me chamou atenção, não por ser Bion especificamente, mas pelo convite em forma de pergunta. Foi para mim, uma indagação estimulante. Iniciei o grupo ainda presencial e fui achando interessante. Estávamos num período pré pandemia.
Hoje eu penso que, mais do que estudar os textos do Bion (que considero difícil de estudar sozinha), a experiência em si é que foi se tornando interessante.
Às vezes não lembro onde paramos na última leitura, mas mesmo assim, sempre é muito agradável e enriquecedor participar. Acho que a maneira como foi conduzido desde o início, fez com que as pessoas ficassem à vontade e livres para se colocarem e aprender. É assim que me sinto a cada encontro.” L. T.
“Se pensarmos, como Bion, o grupo como o meio pelo qual as demandas de cada um são expressas de maneira particular, entendendo que o grupo pode suprir algumas necessidades de nossas vidas mentais, quer frustrando quer satisfazendo. Assim, nos deparamos com uma situação que é percebida como paradoxal e contraditória e perceberemos o quanto a situação de estar junto pode ser angustiante. Para que possamos experimentar as possibilidades de transformação em um grupo, é necessária alguma continência, alguma espécie de borda, de enquadre. Por que estudar Bion? é a pergunta que faz litoral em águas desconhecidas, que possibilita um recuo sempre necessário perante a necessidade de compreender. Pensar os pensamentos juntos, nesse grupo, ali-mentando a fome de saber, só é possível se pudermos experimentar a frustração de não-saber e que tenhamos fé na esperança de tolerá-la e modificá-la, não somente evadi-la. Entendo que a experiência nesse grupo permite uma apreciação da vida mental que não seria possível em outras condições e que sustentar uma leitura de Bion a partir desses pressupostos contribui para uma expansão de nossas capacidades mentais e clínicas. Sobre pensar Por que estudar Bion juntos? poderíamos responder, porque estamos estudando Bion, juntos.” A. B.
Que novas pessoas interessadas nesse trajeto possam vir junto. Os encontros do grupo são mensais, no formato online, realizados nas primeiras segundas-feiras de cada mês, entre as 19h30 e as 21h. Interlocutora: clarissasilbi@uol.com.br
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, coordenadora do GT Por que estudar Bion?, professora desde 2007 no Instituto Sedes Sapientiae, onde ministra o curso Bion e a expansão da psicanálise contemporânea.