Sexualidade, gênero e poder na cena psicanalítica contemporânea
Um relato sobre a aula aberta com Silvia Alonso – Curso Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea
Instituto Sedes Sapientiae – 20 de maio de 2025
por Marcelo Soares da Cruz[1]
No dia 20 de maio de 2025, o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae promoveu uma Aula Aberta que mobilizou intensamente professores, membros e alunos de seus espaços de transmissão. A atividade, parte do ciclo de aulas abertas do curso Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea, foi protagonizada pela psicanalista Silvia Leonor Alonso e teve como tema central as relações entre sexualidade, gênero e poder: história, psicanálise e interseccionalidade.
A abertura do evento foi realizada por Márcia de Mello Franco, coordenadora do curso, que ressaltou o compromisso do Departamento com a criação de espaços de pensamento capazes de acolher e tensionar as problemáticas emergentes na clínica e na cultura contemporâneas. Destacou-se, nessa introdução, a urgência em se pensar temas como subjetividades em tempos de aceleração, crise política e ascensão da extrema-direita, assim como o impacto das transformações sociais nos modelos de identidade, gênero e sexualidade.
Uma aula que atravessa história, clínica e política
Silvia Alonso estruturou sua conferência em torno da articulação entre sexualidade, poder e psicanálise, explorando os modos como as normatividades sexuais e de gênero foram historicamente produzidas e transgredidas. Em sua fala inicial, trouxe o exemplo potente da Berlim da década de 1920, com destaque para o documentário Cabaré Eldorado: o alvo dos nazistas, que mostra como espaços queer e de diversidade sexual foram, num primeiro momento, tolerados e até instrumentalizados pelo poder, para em seguida serem brutalmente perseguidos com a ascensão do nazismo.
O relato da destruição do Instituto de Magnus Hirschfeld e da perseguição aos homossexuais marca, como apontou Alonso, o entrelaçamento perverso entre moralidade sexual, aparato jurídico e política de exclusão. A normatividade social muda com a mudança do poder político, enfatizou. O que era invisibilizado se torna alvo da violência sistemática, e as sexualidades que fugiam ao ideal da raça pura foram apagadas do espaço público e social.
Feminismos e rupturas epistêmicas
A partir dessa cena histórica inaugural, Silvia desenvolveu uma genealogia crítica do pensamento feminista, demonstrando como os feminismos – sempre no plural – foram fundamentais para desnaturalizar as categorias de gênero e reivindicar novos lugares subjetivos para as mulheres e dissidências. A pensadora abordou a importância de Simone de Beauvoir e sua ruptura antropológica ao politizar o singular e singularizar o político, bem como a centralidade do conceito de diferença nos desdobramentos feministas pós-maio de 68.
Silvia destacou que os feminismos, embora inicialmente marcados por uma perspectiva universalista (centrada na mulher branca, cis e de classe média), transformaram-se por meio das lutas das mulheres negras, trans, indígenas e lésbicas, configurando hoje uma “rede que conecta diversidades” em vez de uma massa uniforme. Essa pluralização também impulsionou novas abordagens do conceito de gênero, que, como salientou, desnaturalizam o masculino e o feminino, e introduzem o desafio de ultrapassar a binariedade e a heteronormatividade implícitas em sua própria formulação original.
Psicanálise entre rupturas e conservadorismos
A questão que atravessou toda a aula foi: Como a psicanálise responde a essas transformações? Silvia lembrou que a teoria psicanalítica nasceu, ela mesma, como uma ruptura com o saber médico e patriarcal da virada do século XIX. Citando Juan Carlos Volnovich, trouxe a lembrança da conferência de Freud em Viena em 1886, em que ele afirmava a histeria masculina e a origem traumática da histeria, colocando no banco dos réus os homens abusadores e toda a comunidade médica da época.
Entretanto, essa subversão não se manteve estável: a partir da famosa Carta de 1897, Freud recua de sua teoria da sedução e começa a formular a fantasia como motor psíquico dos sintomas, muitas vezes em detrimento do reconhecimento da violência real. Alonso destacou os movimentos pendulares entre abertura e fechamento na teoria freudiana, ora instaurando novas possibilidades de escuta e simbolização da sexualidade, ora capitulando a um certo biologismo e normatividade social.
A conferencista sublinhou o papel ambíguo da psicanálise nesse campo: por um lado, a potência de sua escuta e de conceitos como pulsão, sexualidade infantil e inconsciente permitem pensar a sexualidade como plural e não biologicamente determinada; por outro, o apego a modelos fálico-centrados e binários impediu avanços mais radicais. É preciso distinguir o Freud que faz teoria, e abre caminhos, do Freud que negocia com o poder, e os fecha, resumiu.
Epistemologia da alteridade: contribuições contemporâneas
Avançando para o pensamento mais recente, Silvia Alonso explorou as contribuições de autores que vêm trabalhando a questão de gênero e sexualidade na psicanálise a partir de outras perspectivas. Destacou a importância da teoria da sedução generalizada de Jean Laplanche, que introduz o conceito de mensagem enigmática e de designação de gênero como processos atravessados pelo inconsciente do outro. Laplanche, segundo Alonso, permite deslocar o olhar para os inícios da vida psíquica, onde o gênero não é apenas interiorizado, mas traduzido sob o efeito de mensagens opacas e conflituais.
Também trouxe as contribuições de Marcia Arán, que propõe uma crítica à centralidade do complexo de Édipo e à primazia do falo, sugerindo a retomada da noção freudiana de feminilidade como potência não capturável pela lógica da representação fálica. E, por fim, apresentou as ideias de Grada Kilomba, que propõe uma epistemologia interseccional crítica a partir do cruzamento entre gênero e raça, revelando os múltiplos vetores de dominação implicados nas práticas clínicas e sociais.
Debates: entre escuta e potência
Após a palestra, a conversa com o público revelou o engajamento da audiência com as provocações da autora. Foram levantadas questões sobre a articulação entre classe, raça e sexualidade, a função dos movimentos identitários no reconhecimento da potência em si, e as possibilidades de transformação institucional da psicanálise frente à multiplicidade dos sujeitos contemporâneos.
Silvia Alonso ressaltou que o desafio atual não está apenas em reconhecer as exclusões, mas também em criar linguagens e formas de escuta que sejam capazes de sustentar a diferença e a alteridade. Rejeitou a ideia de que se trate de simplesmente “inverter o poder”, propondo, em vez disso, um deslocamento ético e político para o reconhecimento da potência criativa de sujeitos que foram historicamente silenciados. Trouxe como exemplo a filósofa e psicanalista Luce Irigaray e sua proposta de construir um “falar mulher”, como forma de romper com a linguagem patriarcal hegemônica.
Escutar o que ainda não tem nome
A aula foi concluída com uma reflexão sobre o papel da psicanálise em tempos de assombro; nas palavras de Alonso: “a sexualidade na psicanálise tem que estar a serviço da criatividade, da inventividade do sujeito para encontrar uma solução singular”. Isso, contudo, exige trabalho teórico e político, exige reformular os próprios conceitos que organizam a escuta. Freud escutou o desejo das histéricas num tempo em que esse desejo não tinha lugar na cultura. Hoje, somos convocados a escutar outras formas de desejo e subjetivação que ainda não têm nome, ou que foram nomeadas apenas como desvio.
Relevância do encontro para a formação psicanalítica
A Aula Aberta com Silvia Alonso foi, sem dúvida, um marco na história recente do curso Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea e do Departamento de Psicanálise como um todo. O evento reafirmou o compromisso da instituição com uma psicanálise viva, aberta ao tempo presente, capaz de dialogar com os impasses contemporâneos sem perder sua especificidade clínica e conceitual.
Mais do que um evento pontual, essa aula inscreve-se em um movimento de ampliação epistemológica e institucional da psicanálise no Brasil, e expressa o desejo de muitos analistas por uma escuta que não apenas reconheça as diferenças, mas que as sustente como operadores do pensamento.
Vale assistir à gravação da aula no canal do Departamento de Psicanálise no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=VXT3ewRZgzM
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor no curso Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea.