boletim online

jornal de membros, alunos, ex-alunos e amigos de psicanálise

Despedida

por Nanci de Oliveira Lima[1]

 

Foram dois anos e meio na Equipe Editorial do boletim online.

Nesse tempo, tive o prazer de participar de um veículo que leva profundamente a sério a tarefa de registrar, refletir, dar voz a leituras psicanalíticas sobre o que acontece no mundo, no Sedes e em nosso Departamento.

Quando cheguei, o Mario ainda estava por aqui — não mais participando das reuniões de pauta, mas bastante presente nos comentários, opiniões e aforismos que eram trazidos por Sílvia, que fazia a ponte entre ele e nós. Infelizmente, logo depois, Mario nos deixou, e seguimos cuidando do boletim como uma parte do legado deixado por ele.

Revisitando as edições das quais participei, encontrei matérias instigantes, delicadas, cativantes e não seria possível falar de todas elas aqui. As associações que me ocorrem são apenas uma amostra dos ecos que ficaram em mim:

Por meio dos diversos autores, subimos a rampa com o Lula e sua comitiva; homenageamos, de várias formas e em vários momentos, o legado do Mario e de tantos outros essenciais que também nos deixaram; vivenciamos alguns Entretantos; comemoramos — a cada vez — mais um ano de vida do boletim; discutimos os impactos nefastos do racismo estrutural no país e, em especial, na psicanálise e em nós; desejamos extramuros e falamos sobre as clínicas públicas; registramos a vasta lista da produção bibliográfica de membros do Departamento; ecoamos a importância da campanha Levante!; lembramos os 60 anos do golpe cívico-militar e o papel do Instituto Sedes na construção da democracia; questionamos a relação da psicanálise com a violência; apoiamos a carta aberta do Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, denunciando os perigos de uma psicanálise regulamentada e usurpadamente apropriada por grupos escusos; questionamos os limites éticos da abstinência frente ao risco de confundi-la com isenção diante das atrocidades do mundo e pensamos sobre como o fazer comunitário, a potência do diálogo e da reflexão coletiva podem ser os nossos paraquedas diante de um mundo que não deixa muitos motivos para sermos felizes — ainda que, teimosamente, não deixemos de esperançar, a cada canto de passarinho escutado aqui e acolá.

Aprendi muito, encontrei parcerias valiosas e aprofundei laços. Renovei a aposta de que é no encontro da pluralidade das nossas vozes que podemos construir algum sentido possível.

E é com um poema de Cortázar, encontrado no editorial da segunda edição de que participei, que encerro essa breve despedida:

O que mais gosto de teu corpo é o sexo,

O que mais gosto de teu sexo é a boca,

O que mais gosto de tua boca é a língua,

O que mais gosto de tua língua é a palavra.

O amor à palavra é o que move muitos de nós, psicanalistas. E foi inspirador testemunhar o cuidado com que ela é tratada em cada edição do boletim online; e, sobretudo, foi uma alegria ter sido, além de testemunha, também participante dessa construção.

Valeu!

 

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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante do GTEP e da Comissão de Admissão. Tesoureira na nova Comissão Diretiva FLAPPSIP 2025-2027.

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