Mater Dolorosa
por Rubia Delorenzo[1]
“E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos…
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui…”
Haiti: Letra de Caetano Veloso / Música de Gilberto Gil
Foram 121, por ora.
Serão mais, no futuro dos dias.
Foi no Rio. É em Gaza.
O avanço autorizado do massacre.
Pretos pobres
brancos pobres desvalidos como pretos
Palestinos
Desterrada, essa humanidade
vive nos atalhos pelos morros
na permanente fuga pelos becos.
Pelos matos.
Caçados.
É o tráfico.
É o terror.
É a indiscriminação do mal.
Não há origem
Não há história
Não há memória de que a peste nasce no mundo desigual.
É a discriminação dos indefesos
A vida nua exterminada
Mães se dobram sobre os corpos de seus filhos descartáveis
Choram por parir filhos sem futuro
Choram pela morte anunciada desde o nascimento
Mortes por feridas de facadas, por balas traiçoeiras de fuzis
Pelos estilhaços letais
Choram por teimar em sonhar por eles
Pela quimera desfeita no primeiro sopro da manhã.
Choram por teimar em rezar por eles.
À Santa Rita, das causas impossíveis, à Santa Edwiges que protege endividados.
Mas, nas favelas e em outros territórios onde se pratica o genocídio, a execução de filhos, de irmãos, companheiros, trabalhadores, é tida como mero “dano colateral”.
Outubro /2025
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste Boletim online.