Imagens da infâmia e
violência social
por Denise Cardoso Cardellini, Ester Alves e Nelci Ramos Andregheto[1]
“…o décimo terceiro tiro me assassina – porque eu
sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Clarice Lispector – Mineirinho[2]
Vive-se tempos aquém da civilidade e da ética. Todos os dias, somos assombrados com os acontecimentos no mundo. As guerras não acabam e, nas cidades brasileiras, percebemos que a violência se alastra numa destrutividade social que afeta as relações institucionais e pessoais. O episódio horripilante no Rio de Janeiro, perpetrado em 28 de outubro deste ano, que mais parece uma “guerra urbana”, conta com armas, drones e cadáveres. Nos horrorizamos com as imagens devastadoras e repetidas desta tragédia. O pior é que, ao invés de convocar indignação e reformulação dos nossos pactos sociais em favor da civilidade, elas funcionam como violência espetacular a partir do ceifar das vidas e da exposição dos corpos.
Sabemos que a questão da segurança pública é complexa e difícil de ser encaminhada. As condições de vida precárias, associadas a um ambiente social e político degradado, atravessado pelo racismo e exclusão social, favorecem opressões e injustiças sob a forma de violência urbana. Como sempre, os efeitos recaem sobre os mais vulneráveis, vimos isso na ofensiva no Morro do Alemão e Penha, onde a violência está autorizada e é executada pelo Estado. São territórios que denunciam a insuficiência nas políticas públicas, evidenciando a aliança entre a pobreza e a injustiça social e escancarando o laço social perverso.
Os noticiários que exploram a insegurança pública trabalham com o fato de que “…sem imagem não há medo, e sem medo não há consentimento”, como aponta Reynaldo Aragon, jornalista e geopolítico que fez uma importante denúncia sobre a matança do dia 28 de outubro[3]. Obviamente, a exploração do medo pela exposição das imagens visa a narrativas importantes para os jogos de poder.
Nesse sentido, nos cabe apontar que veicular tais imagens, para além da função de ilustrar narrativas, é peça fundamental de sua construção e, por isso, impacta e direciona o exercício civilizatório. Os desdobramentos tecnológicos da imagem (o que inclui pixels, resolução, compreensão, profundidade de cor, luminosidade etc.), em sua passagem do modo analógico para o digital, carregam uma versão conceitual que implica em uma forma de governo do/pelo olhar[4] e são dirigidos para as disputas de poder.
No cotidiano, imagens violentas podem vir travestidas de “humor”, o que, segundo Jurandir Freire Costa[5], é forma de gestão do obsceno. Para abordar o tema, ele formula os conceitos de infâmia recreativa e infâmia punitiva. Na infâmia recreativa não temos humor, temos, sim, a degradação do outro, o gozo do opressor sobre o oprimido, o que no final, resulta em sua desumanização. Na infâmia punitiva, o sujeito, supostamente transgressor, se submete à lógica do grupo punindo-se publicamente como forma de redenção. O autor traz como exemplo os rituais de expiação no contexto religioso.
Assim, nos defrontamos com situações cotidianas impressionantes. Na novela Vale tudo – uma ficção – a vilã que armou tantas peripécias, maldades e crimes contra os outros, na embalagem de luxo e glamour do poder, arrancou do público simpatia e risos com a miséria dos fracos. Não há culpabilização, nem responsabilização pelas infâmias produzidas, sendo elas reproduzidas nas redes sociais.
Na subjetividade contemporânea, percebe-se a exacerbação do narcisismo junto com o predomínio do funcionamento psíquico primário. Com isso, vai-se achatando os ideais, estreitando o simbólico e deixando marcas que adoecem o sujeito. O narcisismo tem como característica o funcionamento no qual eu e outro são categorias que não fazem dialética. A lógica do “ou eu, ou o outro”, favorece a paranoia, o que dá aderência às imagens do inimigo. Daí o incremento do “efeito manada” e das polarizações.
Na clínica atual, temos observado manifestações da regressão psíquica com destaque para traços de onipotência (reativa à impotência) evidenciados em patologias do acting out, quadros ansiosos e depressivos, os quais remetem à presença de fragilidades na condição do pensar e elaborar.
Tais fragilidades propiciam crenças constituídas em blocos totalitários e impenetráveis. As crenças podem ter o caráter protetivo, mas, também, podem se cristalizar em figuras do inimigo e incremento da rivalidade, promovendo enrijecimento psíquico. Tudo isso contribui para o esgarçamento do laço social, que retroalimenta a produção do mal-estar na contemporaneidade.
Nesse momento cultural de grande instabilidade, a psicanálise tem como desafio ético impedir que temas recorrentes e pulsantes como violências, racismo, sexismo, extermínio dos povos originários e injustiça social sejam banalizados por imagens em detrimento da circulação da palavra e seus efeitos simbólicos. Essa tarefa requer a continuidade da interlocução com outros campos do saber.
Há, também, que se investir na civilidade e na ética para que os pactos sociais firmados barrem o gozo obtido no exercício da violência.
Apesar dos esforços e do cansaço de todos, precisamos como sociedade fazer mais na direção do cuidado comunitário e apostas em ações coletivas. Dessa forma, poderemos ter antídotos contra a barbárie, a fim de sustentar a democracia e, no limite, a humanidade.
Psicanalistas, membros do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrantes do grupo de trabalho e pesquisa Psicanálise e Contemporaneidade.
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[1] Psicanalistas, membros do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrantes do grupo de trabalho e pesquisa Psicanálise e Contemporaneidade.
[2] Lispector, Clarice. “Para não esquecer” (1999). Editora Rocco.
[3] https://www.codigoaberto.net/post/a-farsa-do-narcoterrorismo-como-o-rio-virou-laborat%C3%B3rio-da-guerra-h%C3%ADbrida-contra-o-brasil
[4] Georges Didi-Huberman trabalha esses conceitos em O que vemos, o que nos olha (1998), Diante da imagem (2013) e Imagens apesar de tudo (2012), todos eles lançados no Brasil pela Editora 34.
[5] Costa, Jurandir Freire. Além do princípio do pudor (2023). Editora Zagodoni.