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Sobre uma experiência

por Cleide Monteiro[1]

 

É de ser atravessada por uma experiência que quero escrever. Foram três momentos de eventos do Departamento de Psicanálise que produziram em mim uma reação intensa.

Primeiro a apresentação de casos clínicos dos aprimorandos do curso Psicanálise na Clínica do Sedes (atividade interna ao curso, denominada Espaço Clínico[2]). O tema era violência e foram apresentados relatos de pacientes nos quais a violência fora sofrida efetivamente através de ações de espancamentos que deixaram marcas no corpo e que tinham esse nome e valor: violência, e situação de uso sexual de filhas, executado pelo pai, e que tiveram como resposta da mãe, quando interpelada sobre esses acontecimentos, que era direito do pai. Como abordá-la ou nominá-la no tratamento? Seria a não denominação de abuso uma recusa do sentido do ato?

No evento Psicanálise e sexualidades: multiplicidades e espirais do desejo[3], o questionamento da definição psicanalítica de sexualidade se deu em inúmeros contextos, tratando fundamentalmente do quanto essa teoria traz a marca de seu tempo, ou seja, da modernidade. Também o questionamento do modelo ocidental de ciência, através do dualismo com o qual define as diferenças e o apagamento do saber de outras culturas, através do projeto colonial, foi tematizado.

Na roda de conversa Cartas a um velho terapeuta[4] se configurou para mim o tamanho da proposta que me parecia dever ser algo que não transformasse diferenças em hierarquias de valor, de direitos. Precisaríamos então desenvolver um conceito de natureza humana!!! Como nos identificarmos como humanos? Lembrei-me da Declaração dos direitos humanos. Mas essa declaração foi realizada pela sociedade ocidental!!!!!!!! no pós segunda guerra mundial. De como estão definidos os humanos nessa declaração eu não tinha conhecimento. Algo para pesquisar. Mas, nitidamente, uma tentativa de que alguma produção ocidental tivesse se preocupado e produzido algo que nos unisse.

Seriam essas formulações a nova utopia para o século XXI?

A história dos humanos em lutas e guerras desde tempos imemoriais nos mostra um panorama nada animador, no qual o domínio sobre os “diferentes” (definidos de inúmeras maneiras), se dava pelas conquistas de território e pela escravização dos perdedores.

Também no evento se apontava a colonização que poderíamos exercer quando não compreendemos os acontecimentos dentro do sistema cultural do paciente. Imediatamente me voltou à memória a apresentação do caso clínico da paciente abusada sexualmente pelo pai. Se trataria de nominar a situação como abuso, se na cultura de origem isso era um direito? Estaríamos colonizando? Dependeria certamente do contexto no qual esse acontecimento estaria sendo relatado. Poderia a paciente estar com dúvidas sobre a regra de sua cultura, portanto já marcada com outro regramento cultural. Mas, acrescento não ser nada fácil essa discriminação para o analista que também é marcado pela sua cultura.

O questionamento do enquadre psicanalítico como uma forma que replicava o laboratório, o experimento, no qual se eliminam variáveis para chegar ao objeto a ser pesquisado, modelo de ciência ocidental de reduzir as variáveis, me surpreendeu. Porém, em outros termos, já temos conhecimento de experiências clínicas que se balizam por outros modos de clínica, seja na rede pública, nos atendimentos de rua ou nos espaços públicos. O que elas nos contam quanto às possibilidades não ritualísticas de chegar ao inconsciente? Ou, em outros termos, nos aproximam do sofrimento dos humanos, bastante promovido, influenciado pelo entorno social que nos demanda ou nos nega existência? O que nos ensinam essas clínicas? Muitas vezes encontros pontuais e que nos fazem pensar qual efeito? Baseados em que crenças?

Esse conjunto de questionamentos e reações que me animei em publicar, me mostram quanto o processo de letramento nas questões raciais – e incluo as de gênero -, transitam em terreno profundo de nossas convicções e crenças sobre o humano, que são marcas de nossa constituição muitas vezes nunca colocada em palavras. Têm o poder de abalar pontos essenciais do que se considerou até o momento como pilares, ampliando o território das incertezas. Porém, também produzem possibilidades de conversas em espaços que permitam falar das incertezas, estudos sobre essas novas formulações e novas experiências clínicas. Essas consequências me parecem ter bastante semelhança com o que considero processo analítico.

 

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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora e supervisora no Curso de Psicanálise.

[2] N. E.: O leitor encontra um registro do “Espaço Clínico 2025 – Evento do Curso de Psicanálise” na edição 76 deste boletim online, de setembro de 2025. Por Paula Francisquetti: https://sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/boletimonline/2025/09/08/espaco-clinico-2025-evento-do-curso-de-psicanalise/

[3] N. E.: O leitor encontra uma reflexão acerca deste evento na seção Notícias do Departamento da presente edição do boletim online. Por Marília Campos Oliveira e Telles.

[4] N. E.: A respeito deste evento, ver “Roda conversa sobre as Cartas a um velho terapeuta no Sedes”, por Fabiana Gomes, na edição 76 deste boletim online: https://sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/boletimonline/2025/09/08/roda-conversa-sobre-as-cartas-a-um-velho-terapeuta-no-sedes/

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