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A vida na era da perplexidade[1]

por Sérgio de Gouvêa Franco[2]

 

Poderíamos dizer que vivemos na era da perplexidade[3]. Há uma família de acontecimentos que nos deixam em uma verdadeira perplexidade na contemporaneidade. Não queremos tocar hoje apenas o tema da perplexidade. Queremos ver se conseguimos entender um pouco a condição histórica atual, em que se acentuam a experiência do vazio, da fragmentação e da incapacidade de conviver com o outro. Queremos tangenciar temas relativos à psicopatologia que se expressam nas relações sociais contemporâneas. Sempre estamos falando como psicanalistas, ainda que possamos estar olhando para o cenário mais amplo. Não temos a pretensão de um enfoque sociológico sobre o tema do fascismo ou neofascismo, por exemplo.

Claro que o inquietante faz parte da experiência humana, desde sempre. Freud escreve sobre isto em texto de 1919 intitulado, em alemão, Das Unheimliche, que poderia ser traduzido para o português por aquilo que não é familiar. O mal-estar está na civilização, faz parte da própria condição humana. A referência é o texto O mal-estar na civilização, escrito em 1929 e publicado em 1930. As condições e expressões do mal-estar, precisamos dizer, são históricas. Queremos exatamente examinar as condições recentes que dão contorno ao mal-estar. A eleição de Trump para presidente dos EUA em 2016 – e sua reeleição em 2024 –  nos colocou em alerta, como sinal importante de que certos valores estão em xeque na chamada civilização ocidental, inclusive a democracia. Na era da perplexidade contemporânea, a inquieta condição humana tem cara de desorientação e melancolia. Se fazemos alguma referência à cena política norte-americana, a referência pretende ajudar a pensar o que acontece entre nós. O bolsonarismo brasileiro, em grande medida, é uma repetição do trumpismo norte-americano.

Perspectiva histórica

Talvez seja possível dizer que o século XIX se encerrou com inspiração e energia, em ambiente apoiado em avanços tecnológicos e industriais importantes que mudaram o cenário no mundo ocidental e transformaram profundamente as funções sociais. Mas ao término da Primeira Guerra Mundial, o otimismo que se apoiava nas revoluções do século XIX começou a se esfarelar. Escritores e artistas passam a descrever o esfacelamento de certos ideais humanos e o desmoronamento de uma visão romântica do que poderíamos chamar de um self heroico. A Segunda Guerra Mundial aprofundou a crise e foi cada vez mais difícil dar sentido às perdas: o uso da bomba nuclear teve efeitos devastadores. O movimento existencialista exatamente pretendeu capturar a radical perplexidade diante da vida. Vale a pena?

Ao final do século XX, milhões pareceram estar em uma transformação, nem sempre reconhecida, nem sempre consciente, rumo a um estado de melancolia. O luto mal resolvido poderia estar conduzindo ao desespero, à desorientação e à revolta. Chegamos ao nosso século XXI com uma demanda, no ar, por uma solução para esta desorientação geral. Do self humanista só restaram vestígios. A intensa aceleração tecnológica constitui novas maneiras de pensar, ser e se relacionar.

Um dos possíveis efeitos desta perda de sentido é o senso de que a vida fica okay desde que não se façam perguntas demais. O consumo e a ostentação de riqueza e poder são, para muita gente, o único sentido possível. No campo religioso observa-se o avanço do fundamentalismo, com um retorno a um Deus medieval e raivoso. Formas mais amadurecidas de espiritualidade ficam afastadas, substituídas por uma fé cega coligada a um descrédito ao pensamento crítico e científico.

Um elemento que merece consideração e destaque é que estamos grandemente guiados pelas chamadas forças de mercado. Poderosas forças financeiras controlam muita coisa: há uma dúvida acerca da possibilidade de alguma mediação sobre a própria existência. Um senso de impotência pode estar fortemente presente, colado a sentimentos intensos de perda, sem reparação. Ficam criadas as condições para um funcionamento psíquico e social de forte negação e mesmo de engajamento em processos de vingança. O uso intenso de ansiolíticos e antidepressivos pode ser visto não apenas como uma questão pessoal, mas como um indicativo do que está acontecendo em nossa sociedade. Estamos testemunhando uma verdadeira epidemia de sofrimento mental e uma catastrófica incapacidade de lidar com a crise.

 

Se tomarmos a eleição de Trump nos EUA em 2016 como um marco – um marco apenas didático e um tanto arbitrário –, veremos depois dessa eleição um aprofundamento da ansiedade, depressão e desorientação, não apenas nos EUA, mas em toda a dita civilização ocidental. A reflexão sobre esta condição psicológica não se propõe como um substituto da reflexão geopolítica, dos estudos econômicos e dos estudos propriamente políticos. A negação da compreensão psicodinâmica, no entanto, pode ser uma perda de um recurso importante que nos ajuda a compreender o que está acontecendo. Se quisermos ser ousados, os estudos dos fundamentos psicodinâmicos do social podem sustentar alguma esperança de elaboração e saída deste sofrimento que vivemos em tempos tão sombrios.

Profissionais da área da saúde mental têm sido compreensivamente hesitantes em oferecer juízos clínicos sobre figuras políticas proeminentes. Talvez haja circunstâncias, no entanto, em que este princípio deva ser relativizado, pois não se trata tanto de fazer um diagnóstico acerca de indivíduos e, sim, uma análise dos processos sociais em curso. Embora não se deva chamar um político específico de paranoico, talvez seja correto falar em um processo paranoico em curso em nossa civilização. Poderíamos dizer que posições extremadas na política contemporânea podem estar baseadas em um estado mental ativamente perturbado.

Quando Trump anunciou que os mexicanos e centro-americanos, amontoados nas fronteiras norte-americanas, eram criminosos e predadores sexuais, ele teria projetado suas próprias perturbações sexuais e criminosas nos latino-americanos. Quando ele se propôs a construir um muro, ele projetou um muro psicológico na arena política. O muro psicológico é muito anterior a qualquer muro de concreto ou aço; há muito ele já tinha construído, dentro de si, um muro psíquico que o protegia de perceber suas responsabilidades em suas transgressões. As derivações para a política brasileira ficam aí para serem feitas e para serem explicitadas.

Selves fraturados

A devastação das duas Guerras trouxe à tona sentimentos complexos – muitas pessoas, levando em conta a devastação de seus países e de suas próprias vidas, podem ter passado a um sentimento de revolta frente às idealizações perdidas. Uma das consequências que queremos assinalar é que pode ser que este ambiente tenha contribuído para acentuada cisão da personalidade. Talvez não seja uma coincidência que, desde meados do século passado, se passou a falar tanto de personalidades limítrofes. Ainda que se possa criticar um excesso deste diagnóstico, a cisão parece real, não apenas no campo pessoal, mas também social. O diagnóstico de personalidade limítrofe dá mostras desta cisão, que pode ser pensada como um efeito dos grandes desenvolvimentos sociais das últimas décadas do século XX e início do século XXI.

Para o indivíduo, a divisão consolidada não funciona bem; o sujeito está em constante conflito; os movimentos tornam-se ambíguos em relação aos objetos. Na escala de uma nação, podemos pensar como os EUA têm mantido uma política externa e posições culturais arrogantes que têm sido muito ofensivas para muitos povos. A experiência de 11 de setembro foi de genuína perplexidade para norte-americanos: “Por que tanta gente nos odeia?” Parece que não podem compreender a correlação da história do imperialismo americano no pós-guerra e o resultante antiamericanismo em boa parte do planeta.

Quando nós nos voltamos à situação brasileira, podemos perguntar: será que sabemos dizer o que acontece entre nós? Compreendemos a escravidão, os abusos dos povos originários, os abusos contra a mulher? Entendemos os efeitos do regime de 1964? Ou perdemos o contato com a realidade de modo intenso e estamos marcados por um viver dissociado?

Ainda que a vida continue nas universidades, nas redações dos jornais e nas muitas ONGs espalhadas pelo planeta, há um perceptivo declínio do interesse em temas humanísticos e nas artes. O que se assiste é a um declínio do mundo interior. A medicação psiquiátrica pode estar ajudando muitos a se afastarem dos temas mais sensíveis e se voltarem a uma vida totalmente prática. A subjetividade para onde vai: o humano ficou pós-humano, o humano ficou não humano?

Joyce McDougall falou em pacientes normopáticos há décadas. O termo, e outros equivalentes, dá conta de reconhecer as multidões que se escondem do mundo interior em uma vida de conforto material e recreação; neste contexto, a globalização acentua o processo. Winnicott já tinha mostrado que além das personalidades que se retiram, que se tornam esquizoides, há um crescente número que se lança e se ancora na realidade objetivamente percebida. Há uma fuga da realidade, como destacou Freud, mas há também, de modo intenso nas últimas décadas, uma fuga para a realidade, com sensível perda do contato com o mundo subjetivo. Os normopatas têm uma vida anormalmente normal. Há uma inclinação, no mundo contemporâneo, para se tornar também um objeto em mundo objetivo, um mundo das máquinas e da tecnologia.

Estamos dizendo que, em um ambiente que carece de sentido e se melancoliza, há uma reação anormalmente normal. Os eventos trágicos ficam esquecidos, negados; toda vulnerabilidade parece estar afastada: do supermercado ao pet shop, ninguém suporta sofrer, as redes sociais atestam isto. Há entusiasmo, que pode ser chamado de mecânico, que emerge no mundo dos aplicativos e no ambiente da chamada classe média. Podemos dizer que este mundo do normopata é um mundo com perda de habilidades humanas essenciais. Dizemos que há um empobrecimento do ego, acompanhado de uma menor ou maior experiência de depressão, específica ou difusa. Alguns se viram para o álcool, para o uso de medicação psiquiátrica, para os excessos vários, como a pandemia da COVID-19 atestou e amplificou.

Personalidades limítrofes, dissociadas e normopáticas compõem um quadro de uma sociedade com perda radical da vida interior: prevalece a dificuldade de se perceber o valor e o sentido do esforço cotidiano. Personalidades voltadas para a objetividade se tornam indiferentes ao sofrimento humano ao seu redor. Há uma deterioração importante das funções mentais e da capacidade empática: o mundo subjetivo ficou mais pobre. Infelizmente temos sido devastadoramente governados por pessoas assim no Brasil; a triste experiência segue em várias partes do planeta.

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[1] Este texto corresponde a fala em Mesa Redonda no 1º Congresso da Relapso: Tempos de violência e extremismos. Interrogações e perspectivas no Instituto de Psicologia da USP, no dia 12 de março de 2026.

[2] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde é coordenador do GT Pensamento e clínica não mecânicos de Christopher Bollas. Doutor pela Unicamp e pós-doutor em Psicologia clínica pela PUC-SP, é atual presidente da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental (AUPPF).

[3]  O texto se inspira no livro Meaning and melancholia – Life in the age of bewilderment, de Christopher Bollas.

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