Pulsão de morte e mal-estar no patriarcado[1]
por Mara Caffé[2]
Gostaria de refletir sobre o texto Além do princípio do prazer (Freud, 1920) em diálogo com o Mal de arquivo – uma impressão freudiana (Derrida, 1995) tendo, como foco, as relações entre pulsão de morte e formas do mal-estar ligadas ao patriarcado no Ocidente. Com efeito, Freud analisou profundamente as dimensões subjetivas e sociais do sistema patriarcal. Elaborou, de um lado, as formas clássicas do pai edipiano das novelas familiares, do pai ancestral da horda e do Deus-pai religioso — todos eles em seu périplo civilizatório, cujos poderes se assentam na culpabilidade e na obediência — e, de outro, esboçou a figura diversa do pai falho e insuficiente, menos explicitada em sua obra, que se manifesta na crise da dominação masculina no contexto da primeira guerra mundial.
Entretanto, no decurso dessas formulações, Freud sustentou posições teórico-clínicas tanto subversivas quanto conservadoras, o que nos convida a uma leitura crítica de sua obra, desentranhando dela a dimensão política que a atravessa. Comecemos pela senda do mal-estar.
No primeiro tempo dos seus escritos, Freud dedicou-se ao desvendamento das formas do mal-estar centradas no recalque das pulsões sexuais, conforme, por exemplo, A moral sexual “civilizada” e a doença nervosa dos tempos modernos (1908). Contudo, em Além do princípio do prazer (1920), o autor estabeleceu um outro paradigma do mal-estar, referido agora à pulsão de morte. Vemos, então, a compulsão à repetição, os sonhos traumáticos de guerra e as neuroses de destino como sintomas distintos daqueles constituídos pela ação do recalque, estando fora do alcance do princípio do prazer. Estas novas figuras do mal-estar emergiram na obra freudiana precisamente no marco social e político da primeira guerra mundial, situação em que o pacto civilizatório se mostrava profundamente ameaçado frente aos requintes estatais de violência e destruição. A época que consagrou o modelo do Estado à serviço do bem-estar social assistia, agora, à sua transformação em uma gigantesca máquina de guerra, convocando e armando seus homens para a matança e a crueldade em grande escala. Nesse cenário de colapso civilizatório, Freud reconheceu um registro da falência simbólica. Veremos, mais adiante, como isto se articula, dentre outras coisas, à crise do poder do pai, visto sob a ótica do patriarcado.
Adentremos, pois, em Além do princípio do prazer (1920). Este texto ocupa uma posição estratégica na obra de Freud, provocando um abalo sísmico no que fora estabelecido até ali, carregando a força de um disjuntor teórico. Tal revolução imprimiu rearranjos na obra, trazendo para o perímetro da psicanálise textos como o Projeto, de 1895 e Afasias, de 1891, bem como revisões conceituais importantes. Ocasionou, também, descontinuidades teóricas, rupturas, pontas soltas, desenvolvimentos heterogêneos, definindo paradoxos e posições inconciliáveis. O disjuntor teórico de Além do princípio do prazer tem nome, trata-se da pulsão de morte, “a primeira pulsão”, no dizer de Freud, apresentada em seus efeitos de silêncio, apagamento e destruição, como força destituída de sentidos semânticos, pura potência indeterminada, em oposição à pulsão de vida, esta última inscrita no psiquismo a partir dos representantes-representação e afeto, e que visa à constituição e conservação de unidades e vínculos cada vez maiores. Neste caso, a articulação da pulsão ao campo psíquico das representações estabelece os circuitos pulsionais, montagens eróticas que sustentam e relançam a vida. Por sua vez, a pulsão de morte se apresenta como força não articulada ao campo representacional, como impacto traumático.
As formas do mal-estar centradas na pulsão de morte não seguem, portanto, a lógica simbólica representacional, ou seja, não se acham ao alcance das modalidades de inscrição psíquica, sejam traços, impressões, signos de percepção, representações-coisa, representações-palavra etc. Instalam-se no interior do sujeito, porém externas ao aparelho psíquico e às leis que o regulam. Acham-se sempre alhures, sem localização precisa, sem forma ou conteúdo determinado. A compulsão à repetição vista nos sonhos traumáticos, nas brincadeiras de criança e nas transferências em análise, por exemplo, são indícios de uma operação que visa a capturar e domesticar os efeitos mudos, invisíveis e mortíferos desta força silenciosa, inquietante e sinistra, a pulsão de morte, ainda que ela nos seja tão intrínseca quanto a própria vida. Desse modo, as formas do mal-estar centradas na pulsão de morte não respondem a um centro simbólico ordenador, sendo na realidade uma expressão da sua ausência, insuficiência ou falência. Guardemos este ponto.
Derrida e o mal de arquivo
Derrida, em seu livro Mal de arquivo (1995), propõe uma reflexão bastante original a respeito da pulsão de morte. Referida aos seus estudos anteriores acerca do aparelho psíquico freudiano como um aparelho de escrita, aberta aos processos da diferença e do diferir, Derrida traz agora a noção de arquivo, pensada no diálogo com o texto Além do princípio do prazer. Trata-se, uma vez mais, da escritura freudiana, afirmada na crítica aos pressupostos da metafísica ocidental da presença, da origem e do logo/fono/falocentrismo.
As concepções clássicas da História definem o arquivo como conjunto de documentos que registram e conservam a verdade material dos fatos, de modo fixo e imutável, constituindo um registro do passado sem rasuras e esquecimentos. Segundo Derrida, a psicanálise provocou, a seu modo, uma desconstrução desta noção clássica de arquivo, postulando o seu caráter intrinsecamente ficcional e sintomático. Isto se deu a partir da concepção freudiana do aparelho psíquico como um aparelho de arquivamentos, constituído “por marcas e traços, disseminados em diferentes espaços psíquicos… agenciados por diversas operações, tais como posteridade, recalque e repressão…” (Birman, 2008, p. 117)
Com o surgimento da noção de pulsão de morte, esta concepção freudiana se radicaliza ainda mais, admitindo um outro elemento constitutivo do arquivo que trabalha justamente o apagamento das marcas e traços, apagamento este distinto das operações do recalcamento, o que Derrida nomeou como mal de arquivo. O apagamento silencioso de traços e impressões abre espaço para novas inscrições e renovações, projetando o arquivo para o tempo presente e futuro, ou seja, para o vir a ser. Entretanto, não há continuidade linear ou previsibilidade entre estes registros temporais, uma vez que o apagamento silencioso não retém de outro modo os conteúdos apagados, tal como se vê na ação do recalcamento. Esta nova dimensão do arquivo não responde pela memória ou rememoração. Derrida conclui que o arquivo “não se reduz jamais à mneme ou à anamnesis… Bem ao contrário: o arquivo [se constitui no] … lugar da falta originária e estrutural da chamada memória… O arquivo é hipomnésico.” (Derrida, 1995, p. 22). É justamente isto o que permite as produções da ficção e do fantasmático, constituindo-se o arquivo como verdade histórica e não como verdade material, distinção mencionada por Freud em Mal-estar da civilização (1930).[3]
Além disso, Derrida ressalta a dimensão política do arquivo e dos processos de arquivamento. Postula que todo arquivo se constitui num lugar, ou seja, num suporte, e é interpretado e guardado por um arconte, ou seja, uma autoridade que o comanda. A esse respeito, o filósofo discute o princípio patriarcal no comando dos arquivos da história, mostrando que Freud empreendeu a sua desconstrução radical tanto quanto o reproduziu no âmbito da teoria psicanalítica e das relações institucionais com os seus colaboradores.
Concluindo, a pulsão de morte (ou o mal de arquivo, na denominação derridiana) não opera no campo da memória, da rememoração e do monumento. Como pura força, desligada de sentidos semânticos, destituída de qualquer inscrição psíquica, a pulsão de morte instala, na primeira teoria do aparelho psíquico de Freud, um espaço / tempo e um funcionamento inéditos, expandindo o campo do indeterminado, do diferir e do devir, alojando as experiências do acontecimento e da transgressão conforme pensadas por Foucault (1963). De acordo com esse autor, a modernidade ocidental se caracteriza pela queda da autoridade absoluta de Deus e do rei, abrindo aos homens o campo dos acontecimentos e transgressões, os quais se dão na suspensão e na ausência da lei, e não contra a lei (ao contrário de Freud, que pensa a transgressão como aquilo que se opõe à lei).
Foucault postula que as normalizações do poder disciplinar e do biopoder visam a conter a experiência da transgressão e do acontecimento, uma vez que estas não se reportam a um campo regulado pela lei (da castração, se nos referirmos à psicanálise) não constituindo, a princípio, nem reforço nem resistência aos jogos de poder instituídos. Nesse sentido, tais experiências podem gerar tanto a destruição observada, por exemplo, nas guerras e nos genocídios, quanto as sublimações/subversões vistas na arte e nas novas formas do viver.
As categorias do pai em Freud: da hegemonia civilizatória à insuficiência
A reflexão sobre a ausência ou falência simbólica nos leva a considerar, por sua vez, as questões do pai e do patriarcado. Nessa direção, Joel Birman (2006; 2008) propõe que Além do princípio do prazer pode ser lido como portador de uma crítica implícita à categoria do pai, cuja hegemonia simbólica e civilizatória se vê abalada pela crise moderna do patriarcado. Trata-se de uma hipótese interpretativa segundo a qual o novo paradigma ali instaurado — a pulsão de morte — aponta para a desestabilização do lugar do pai simbólico garantidor da cultura, desvelando outras formas de mal-estar social que já não se articulam ao domínio pleno da autoridade paterna. Tal formulação não é apresentada explicitamente por Freud, mas decorre de uma leitura que se pretende atenta às dimensões políticas de sua obra.
Embora a hipótese de Birman tenha contornos próprios, é possível reconhecer pontos de convergência com outros(as) psicanalistas que, por diferentes caminhos, abordaram criticamente as bases patriarcais da psicanálise e as transformações da função paterna na cultura. Podemos citar, por exemplo, Michel Tort, pela crítica à idealização da função paterna na obra de Freud e pela compreensão do declínio do pai como construção histórica; René Kaës, pela releitura freudiana das formações do laço social e pela análise da crise da filiação e das formas de autoridade, e Jean Laplanche, pelo deslocamento da centralidade edipiana. Todos eles consideram o duplo movimento presente em Freud, ao mesmo tempo crítico e reafirmador das estruturas patriarcais.
Além disso, levando em conta suas enormes diferenças, temos também Luce Irigaray, Maria Rita Kehl, Márcia Aran e Regina Neri, pela crítica à lógica fálica e à ordem patriarcal na teoria psicanalítica e pela concepção do feminino como operador crítico das transformações da cultura e das formas de subjetivação. Ao incorporar a questão racial a esse debate, destacam-se Cida Bento e Priscilla Santos Souza, que ampliam essa crítica à psicanálise tradicional, expondo seus fundamentos patriarcais e eurocentrados e propondo uma leitura decolonial e racializada da subjetividade.
Esses(as) autores(as), entre muitos(as) outros(as), de origens e trajetórias tão diferentes, se reúnem aqui sob a perspectiva de um pensamento crítico às bases patriarcais da psicanálise, trilhando caminhos e chegando a pontos contrastantes. O escopo do presente texto é o de pensar um possível exercício dessa crítica em relação à noção freudiana de pulsão de morte. Ou seja, indagar em que medida essa noção pode responder à crise das figurações do pai em um momento histórico marcado pelo declínio moderno do poder masculino na cultura ocidental.
Por fim, outra convergência com a hipótese de Birman pode ser observada no trabalho de André Green a respeito da pulsão de morte, que ele relaciona à desorganização da função simbólica. Entretanto, Green não se detém propriamente na questão do patriarcado, direção assumida por Birman.
Voltando a Freud, em uma breve recapitulação de sua obra, o pai aparece tanto nas novelas familiares quanto na constelação das relações sociais e políticas. Em Totem e tabu (1913), por exemplo, temos a morte do pai da horda primeva em consequência da revolta dos filhos, episódio que pode ser associado à passagem da sociedade absolutista e autocrática à sociedade fraternal e democrática: a primeira centrada na figura religiosa de Deus e na figura política do rei, derivações do pai onipotente, e a segunda fundada no poder democrático da comunidade, assentado na autoridade simbólica do pai morto. Neste momento, em 1913, Freud descreve a superação dos homens da condição de horda para a condição de massa, dando início à civilização humana ou, numa leitura mais datada, à época histórica da modernidade, regida pelos ideais humanistas de fraternidade e igualdade.
Em Psicologia de grupo e análise do ego (1921), Freud reflete sobre como se dá a regulação da massa pelo líder, este último espelhado na figura do pai, sendo a igreja e o exército as duas instituições em foco. Em O futuro de uma ilusão (1920), o autor se detém no fenômeno da ilusão religiosa, com Deus pai celestial na salvação dos filhos desamparados. Além disso, sob os ângulos mais variados, Freud recorreu, frequentemente, ao mito grego de Édipo e à tragédia de Hamlet, ligando a formação das instâncias ideais e normativas às narrativas do parricídio e à culpa decorrente. Trata-se, sempre, da jornada do pai autocrático ao pai protetor. A fundação da civilização humana é, neste ângulo, uma atribuição do poder masculino, paternal e patriarcal, sendo a ordem simbólica essencialmente falocêntrica.
Entretanto, Freud apresentou, também, ainda que de modo menos evidente, outros desenvolvimentos a respeito da categoria do pai, agora visto na chave da insuficiência, desconstruindo[4] a versão anterior, o que poderia estar no fundamento do texto Além do princípio do prazer (1920). Este novo plano teórico revolucionário não se coloca de modo homogêneo e linear nos textos pós-1920. Trata-se, melhor dizendo, de uma revolução intermitente, que divide a cena com outros paradigmas. Em linhas gerais, no registro anterior, a sociedade se veria regulada pela interdição de matar, elemento fundante para os laços sociais, estando o pai no centro ordenador deste processo. É o que vemos em Totem e tabu (1913). No novo registro, e a partir do contexto da primeira guerra mundial, Freud observa que a interdição de matar não se mantém na situação da guerra, sendo que o próprio Estado recruta seus homens para a matança, a violência e a crueldade. Os dispositivos da culpa não são, portanto, reguladores definitivos do laço social. Freud postula a existência da pulsão de morte e um de seus derivados, a pulsão de destruição. Sob este viés, no texto Psicologia de grupo e análise do ego (1921), constata que o homem não seria um animal de massa, mas um animal de horda, ao contrário do que postulara em Totem e tabu (1913), não sendo possível domesticar e disciplinar a pulsão, havendo sempre o embate entre Eros e Tânatos, evidenciando-se assim o trabalho subterrâneo e disruptivo da pulsão de morte. Em decorrência, Freud formula o narcisismo das pequenas diferenças, revelando uma dificuldade insuperável dos homens no confronto com a diferença, sendo este o pomo de uma discórdia fundamental que tensiona a convivência social frente à pluralidade de raça, etnia, religião etc.
Neste novo paradigma, não há plena regulação simbólica civilizatória, função esta atribuída por Freud (e muitos outros), conforme já vimos, ao poder patriarcal. Ou seja, as instâncias mediadoras possibilitadas pela castração simbólica ou pelo nome do pai, no dizer de Lacan, não recobrem toda a extensão da vida subjetiva e social, sendo este o fundamento para a afirmação de que o homem é um ser de horda. Haverá sempre um resíduo pulsional desligado das inscrições psíquicas, refratário, portanto, aos governos e disciplinamentos. Esta força indomável constitui um risco permanente à civilização humana (aliás, quantas vezes já não soçobramos?!), de tal modo que a civilização não é uma construção dada de uma vez por todas, devendo ser refundada a cada geração.
Estamos lançados, irremediavelmente, à erotização de nossas relações e de nós mesmos como forma de recarregarmos a vida, não havendo pai que nos proteja e nos substitua nesta responsabilidade. Cai a garantia suprema do pai ou da função paterna como agente civilizatório, entronado pelo poder patriarcal, cuja soberania é exercida a partir da submissão e exclusão da mulher ou, no dizer de Freud, no rechaço ao feminino. Neste sentido, o rechaço ao feminino e a inveja do pênis, sua contraface, seriam sintomas do patriarcado, e não elementos de uma condição universal intrínseca à civilização. Do mesmo modo, as figuras paternas do patriarcado seriam fantasias a serem analisadas e não reproduzidas teórica e clinicamente, como construções eternas e essenciais à cultura. Na situação humana desvelada no texto freudiano de 1920, em que o pai falha em sua cobertura simbólica protetora, que destinos civilizatórios e ética se anunciam para a humanidade? Segundo Judith Butler (2009), apenas a identificação recíproca à condição de seres precários que todos somos poderia produzir uma ética e uma política da fraternidade, na direção da solidariedade e da amizade.
Concluindo, nesta perspectiva de uma leitura política, a pulsão de morte aparece na teorização freudiana a partir do reconhecimento – e como um postulado – da queda do pai em sua hegemonia simbólica civilizatória, detentor da razão e do poder político masculinista. Entretanto, a senda aberta no referido texto não cessa de se fechar e reinscrever muitas vezes na obra freudiana, o que denota justamente o mal de arquivo postulado por Derrida. Voltemos a ele.
A questão do patriarcado em Mal de arquivo
Neste ensaio, Derrida comenta a prevalência do pai na obra freudiana e na instituição da psicanálise. Toma o livro do historiador Yerushalmi, Freud’s Moses, judaism terminable and interminable (1991), em que este reflete sobre a relação entre psicanálise, judaísmo e judeidade. Destacarei, aqui, a longa reflexão de Derrida sobre o modo como Yerushalmi termina o seu livro. Em um monólogo fictício dirigido a Freud, Yerushalmi refere-se a uma mensagem escrita por Anna Freud, em 1977, na ocasião da inauguração de uma cátedra que levaria o nome do seu pai na Universidade Hebraica de Jerusalém. Impedida de comparecer ao evento, Anna escreve uma mensagem, onde “declara, entre outras coisas, que a acusação segundo a qual a psicanálise é uma ‘ciência judia’, ‘na circunstância presente seria um título de glória’.” (Derrida, 1995, p. 59) A esse respeito, por sua vez, Freud fora discreto, uma vez que não lhe interessava que a psicanálise estivesse associada fortemente ao judaísmo, o que poderia dificultar a sua expansão. Derrida, então, se mostra estarrecido com a seguinte colocação de Yerushalmi, no encerramento do monólogo fictício: “Quando sua filha fez chegar esta mensagem ao Congresso de Jerusalém, era em seu nome que ela se exprimia? Eu lhe peço, prezado professor, diga-me, prometo guardar o segredo.” (op. cit., p. 60) Derrida observa que, deste modo, o historiador pergunta se esta carta escrita por Anna está assinada por ela, enfim, se a “filha de Freud falava no nome dela: como se duvidasse de que uma filha, sobretudo a filha de Freud, pudesse falar em seu próprio nome.. [e mais!]… como se, secretamente… [Freud] desejasse que ela sempre tivesse falado em nome de seu pai, em nome do pai”. (op. cit., p. 59)
As consequências que Derrida tira disto são contundentes: se por um lado, Freud mostrou como ninguém a formação das subjetividades constituídas no sistema paternal e patriarcal, revelando a autoridade arcôntica dos pais e seus derivados na manutenção e reprodução do patriarcado, por outro lado, “tanto na vida como na obra, tanto nas suas teses teóricas como na compulsão de sua estratégia institucionalizante, Freud repetiu a lógica patriarcal. Declarou, no ‘Homem dos ratos’, especialmente, que o direito patriarcal (Vaterrecht) marcava o progresso civilizador da razão. E o enfatizou, na promessa patriarcal, ali onde todos os seus herdeiros, os psicanalistas de todos os países, se uniram como um só homem para segui-lo e fazer subir as apostas.” (op. cit., p. 123) E, de tal modo, que se pode perguntar se seus filhos e seguidores podem falar em nome próprio. Se Anna Freud pode falar em nome próprio. “Ou se sua filha foi alguma vez na vida (Zoé) algo mais que um fantasma ou um espectro, uma Gradiva rediviva, uma Gradiva-Zoé-Bertgang de passagem pelo número 19 da Bergasse.” (op. cit., p. 123)
Derrida conclui que, na pergunta final de Yerushalmi, “sobe-se a aposta” na figura do pai como arconte, guardião e autoridade do arquivo da psicanálise, relançando, neste aspecto, o gesto patriarcal do próprio Freud, atualizado agora no silenciamento de sua filha Anna, que não falaria senão em nome do pai. Tudo se passa como se a produção teórica e clínica subversiva de Freud, estipulando as condições para uma crítica contumaz ao sistema patriarcal, revelando os dispositivos de subjetivação inerentes a este sistema, fosse ela mesma tomada pelo mal de arquivo, desaparecendo no momento de emergir.
Mas o impressionante é que, de algum modo, o ensaio de Derrida realiza, em ato, este mesmo desfecho, sendo tomado pelo mal de arquivo, desaparecendo com o protagonismo da mulher no lugar mesmo em que denuncia o seu sequestro. A questão de se a psicanálise é judia ou uma ciência judia coloca em circulação justamente esta palavra – judia, não apenas referida à psicanálise, mas também à Anna Freud. Com a precisão que lhe é característica, Derrida denuncia o ato do historiador na anulação do lugar de fala de Anna, mas logo depois disso retoma o termo judia para endereçá-lo aos temas do judaísmo e da judeidade. Retornam os homens arcontes. Anna Freud segue sem fala, tanto ela quanto outras mulheres nomeadas no ensaio de Derrida, como Antígona, Sabina Spielrein (outra judia…), Lou Andreas-Salomé, Zoé (da Gradiva), a mãe freudiana tida como certa… Elas estão no texto, mas sem poder de enunciação. Do outro lado, vemos uma série de homens arcontes, guardiões e autoridades dos arquivos, nomeadamente, o pai de Freud (Jacob Freud), denominado o arquipatriarca da psicanálise, e também o avô de Freud (dito arquiarquipatriarca), Moisés, Yerushalmi, Ernest Jones, Karl Marx, Édipo, Walter Benjamin, Hamlet, Cristo e o próprio Derrida. As mulheres citadas, ainda que figurem no texto, não entram efetivamente na conversa. Vemos, assim, que a abertura de um arquivo, o que significa torná-lo público, não é algo que se faça pelo ato voluntário de um pensamento. Derrida tem quase tudo, mas neste quase que lhe falta, reproduz o silenciamento das mulheres empreendido pelo patriarcalismo. O que parece possibilitar a abertura de um arquivo é um conjunto de forças em jogo no campo social e político maior. O filósofo explica e duplica o mal de arquivo, “sobe o lance”, conforme ele mesmo diz.
Linhas de abertura
Gostaria de encerrar com algumas linhas de abertura. Sabemos que a crise do patriarcado produz não apenas formas determinadas do mal-estar, mas também o florescimento de subjetividades e coletividades menos afeitas à sua lógica. É o que nos indica, por exemplo:
– o destaque do termo “parentalidade” em lugar dos termos “função paterna” e “função materna”, inclusive e especialmente no discurso jurídico, acolhendo outras composições familiares e distribuições de gênero que não reproduzem o poder patriarcal e o modelo tradicional do cuidado com as crianças. É o que vemos, por exemplo, em Parentalidade (2020), organizado por Daniela Teperman, Thais Garrafa e Vera Iaconelli.
– o crescente reconhecimento e valorização do feminino, bem como as denúncias à violência e ao rechaço social das mulheres, conquistas iniciadas pelos movimentos políticos feministas. Abrem-se, assim, arquivos sobre as histórias da mulher, conforme denotam, por exemplo: Silvia Federici, em Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva (2017 [2004]), contrapondo as narrativas patriarcais de caça às bruxas / mulheres ao relato pouco conhecido do seu papel social revolucionário, desde as comunas medievais; Judith Butler, em O clamor de Antígona (2014), que se contrapõe aos estudos psicanalíticos sobre o Édipo, bem como Lélia Gonzalez, em Racismo e sexismo na cultura brasileira (1984) e Ângela Davis, em Mulheres, raça e classe (1981), revelando, ambas, as condições distintas de mulheres brancas e negras, analisando os conflitos de classe, raça e etnia no Brasil e nos Estados Unidos, respectivamente. Aqui, cabe lembrar também os movimentos e teorias do chamado feminismo decolonial, conforme apresentados, por exemplo, no livro Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais (2020), organizado por Heloisa Buarque de Hollanda.
– a emergência e tematização do gênero nas pautas sociais e políticas e nos diversos saberes, a partir dos movimentos LGBTQIA+, bem como dos estudos queer e decoloniais. É o que vemos, por exemplo, com Paul B. Preciado, em Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando (2023), Letícia Nascimento, em Transfeminismo (2023) e Rita Laura Segato, em La critica de la colonialidad em ocho ensayos (2013).
– a ampliação das temáticas da horizontalidade e do comum em lugar da verticalidade, da soberania, da servidão voluntária e do culto ao UM, possibilitando a experiência da fraternidade fora do registro tradicional da rivalidade pelo amor do pai. Como exemplos, temos Joel Birman, em Arquivos do mal-estar e da resistência (2006) e Jorge Alemán, em O retorno do político e da política (2022) e Soledad: Común (2023).
Referências bibliográficas
– Alemán, J. (2022) – O retorno do político e da política. LavraPalavra, 16 de junho de 2022.
___________ (2023) – Soledad: Común. Edição revisada com prólogo de Massimo Recalcati. Barcelona: Ned ediciones.
– Birman, J. (2006). Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
___________ (2008). Arquivo e mal de arquivo: uma leitura de Derrida sobre Freud. Natureza Humana – revista internacional de Filosofia e Psicanálise, 10 (1): pgs. 105 a 128.
– Borges, J. L. (1998). Funes, o memorioso (1942). In: Obras Completas de Jorge Luis Borges. São Paulo: Globo, V. I.
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– Preciado, P. B. (2023) – Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando. Rio de Janeiro: Zahar.
Segato, R. L. (2013) – La critica de la colonialidad em ocho ensayos. Buenos Aires: Prometeo Libros.
– Teperman, D., Garrafa, T. e Iaconelli, V. (orgs). (2020). Parentalidade. (Coleção Parentalidade & Psicanálise). Belo Horizonte: Autêntica.
__________
[1] Esse texto se baseia em uma videoconferência realizada no Ciclo de conferências – Leituras da Psicanálise, promovido pelo IPEP – Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise, em outubro de 2020. Na ocasião, psicanalistas foram convidados(as) a comentar o texto Mais além do princípio do prazer, de Freud (1920).
[2] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora e supervisora no curso de Psicanálise; participante da rede de psicanalistas atentos(as) às questões raciais no Instituto AMMA – Psique e Negritude; doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e autora dos livros Psicanálise e Direito: a escuta analítica e a função normativa jurídica e Crítica à normalização da psicanálise.
[3] O conto “Funes, o memorioso”, de Jorge Luis Borges, nos oferece uma alegoria da produção da memória e da rememoração privadas do trabalho da hypomnese.
[4] A desconstrução, no sentido dado por Derrida, não equivale à destruição. Trata-se de uma estratégia de análise que produz a decomposição de um dado conceito ou pensamento, numa direção crítica aos pressupostos da metafísica ocidental. Nesta perspectiva, Freud teria desconstruído algumas bases da concepção patriarcal do pai, concepção que, paradoxalmente, mantém-se na obra ao lado de outras bem diversas e até mesmo opostas.