Questões raciais: avanços e desafios na psicanálise
por Isildinha B. Nogueira[1]
Fomos convidadas, eu, Isildinha Baptista Nogueira e Helena Lima,[2] para esse debate, a convite de Ana Spieler, do Freud Museum London, em 26 de novembro de 2024.
Inicialmente, falamos de nossas experiências de formação e vida com relação ao tema. Helena é membro fundadora da COPSIMO – Comunidade Psicanalítica de Moçambique; portanto, bem familiarizada com as questões raciais.
Além de dizer um pouco do meu percurso de formação na França, com brancos que puderam me enxergar, para além do meu corpo negro, e escutar que havia em mim um desejo de ser uma analista.
Na Europa, tive a experiência de apresentar um texto ainda muito incipiente; era a minha primeira experiência de falar para psicanalistas, à época experientes e renomados. O ano era 1986, em um encontro latino-americano de psicanálise em Paris, Le psychanalyste sous la terreur[3], estimulada pelo Félix Guattari, que, por acaso, nos dias que antecederam esse encontro, havia me perguntado por que pensar a negritude através da psicanálise, e não sociologicamente, politicamente; minha resposta foi: Guattari, a psicanálise não serve para pensar os seres humanos, a história, os tempos… A resposta do Guattari foi: sim, serve; então eu sou a humanidade.
Meu texto tinha um ar de denúncia sobre como era ser negra em São Paulo, longe do que hoje consegui elaborar como psicanalista: uma metapsicologia do sujeito negro, que nos permite fazer uma escuta do atravessamento do racismo. Era naquele tempo que começava a fazer a minha formação em psicanálise. A resposta de Françoise Dolto a meu texto foi: “Nós, analistas franceses, não temos que comentar seu texto, ele sangra, ele é você, e a psicanálise lhe deve isso.” Para minha surpresa, Jurandir Freire Costa, que na ocasião estava presente, no ano passado, 2025, numa mesa de homenagem a Neusa Santos Souza, trouxe à lembrança a fala da Dolto para mim e, em seguida, disse: “Neusa Santos Souza foi silenciada”.
Tivemos por aqui psicanalistas que pensaram a questão do negro: Virgínia Bicudo, Leila Gonzalez e Neusa Souza, cujos trabalhos não tiveram muito eco à época em que foram lançados.
A resistência do meio psicanalítico a essa especificidade foi grande; ignoravam a questão, havia pouco empenho em fazer estudos que nos auxiliassem a escutar o sujeito negro.
Particularmente, à medida que a minha formação ia acontecendo, não encontrava, na psicanálise, referências que pudessem pensar uma metapsicologia do sujeito negro.
Quando li Pele negra, máscaras brancas, de Frantz Fanon, senti minha humanidade resgatada; para além de uma análise social, existencial do racismo antinegro, ele identificou as distorções nos discursos dos brancos sobre o negro, que tiravam sua humanidade.
Fanon nos devolveu nossa humanidade; não era psicanalista e nunca foi psicanalisado, mas era um leitor arguto de Freud; me inspirou a seguir pensando o sujeito negro, não com viés psicanalítico, com a psicanálise; ainda que possa soar pretensioso, quero seguir me aprofundando nessa metapsicologia do sujeito negro.
Nos últimos tempos, temos tido uma abertura maior para pensarmos analiticamente a negritude.
Thamy Ayouch diz que o Brasil tem a vanguarda dessa questão; aqui seguimos pesquisando, e a nova geração de pesquisadores negros, em várias áreas do conhecimento, tem avançado muito.
As escolas de formação em Psicanálise se abriram, vêm criando condições para formação de analistas negros, num espaço de inclusão e manutenção desses analistas.
Muito avançamos da perspectiva sociológica, antropológica e política, mas é preciso uma formação que atenda à escuta clínica do sujeito negro.
Digo, e insisto em dizer, dos riscos de confundirmos clínica e militância.
Clínica não é militância, militância não é clínica; no espaço da militância, espaço precioso de luta pela nossa cidadania e políticas públicas, que possa devolver ao negro seus direitos como cidadão, com acesso e direito à educação, saúde, moradia e trabalho; aqui cabe palavra de ordem, bandeira política para reivindicar esses direitos.
A clínica psicanalítica está focada na escuta do inconsciente, baseada na ética do desejo e da transferência, e da singularidade do sujeito, utilizando a fala, sonhos e associações livres para fazer emergir desejos, angústias e conflitos psíquicos.
Quando fiz a defesa da minha tese, fui aconselhada a não colocar o título que originalmente pensei: “A cor do inconsciente: Significações do corpo negro”; a justificativa era: o inconsciente não tem cor; assim, fui persuadida, para defender o conteúdo em que acreditava. Trinta e um anos depois, na ocasião da publicação do livro, pude colocar o título que acredito que diz do que defendo no livro: o inconsciente tem cor.
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[1] Psicanalista, professora no Curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[2] Helena Lima é psicanalista, aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[3] Organizado por Heitor O’Dwyer de Macedo, psicanalista brasileiro radicado na França desde 1968, esse encontro foi publicado em 1988 sob o mesmo título. Um exemplar do livro se encontra na Biblioteca Madre Cristina (N.E.).