Sobre aquilo que se transmite
Em memória de René Kaës
por Juliana Farah[1]
René Kaës nos deixou no dia 1º de fevereiro de 2026, às vésperas de seu 90º aniversário. Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente, mas seu trabalho tem sido tão presente em minha vida nos últimos 10 anos que é difícil não ter uma sensação de proximidade. Uma semana antes de sua morte, colegas do NESME[2] estavam terminando de organizar um grande encontro online em sua homenagem, para celebrarmos seus 90 anos. Psicanalistas de diferentes lugares do mundo haviam escrito textos, gravado depoimentos, reunido lembranças de suas experiências com ele. Quando finalmente nos encontramos, já tinham se passado 20 dias de sua morte. Sustentamos, então, um encontro atravessado por sua ausência e, ao mesmo tempo, intensamente marcado por sua presença. Vozes do Brasil, da França, do Uruguai e da Argentina se entrelaçaram, testemunhando não apenas a importância de sua obra, mas os efeitos vivos de sua transmissão na vida profissional e pessoal de cada um.
No mesmo período, recebi o convite da equipe deste Boletim para elaborar um texto em sua memória, que aceitei prontamente. Não imaginei que essa tarefa seria tão desafiadora. Ao longo do processo, tive vários sonhos. Em um deles, eu estava às voltas com a escrita do texto quando minha filha, de 4 anos, me disse que estava com saudades do vovô – meu pai – falecido há quase dois anos. Ela lembrava de uma brincadeira que ele fazia com ela: um som que ele emitia quando ela apertava seu nariz, o que gerava nela uma gargalhada. Ainda no sonho, pensei que este poderia ser o início do texto.
A morte de Kaës me fez acessar aspectos do luto de meu pai e, simultaneamente, reafirmou seu lugar de pai na minha forma de ser psicanalista, tanto em minha clínica, quanto na transmissão da psicanálise, sempre atravessada pelo trabalho com os vínculos. Fui me dando conta de que não estava sendo capaz de fazer um texto poético, que era o que realmente queria deixar para ele(s). “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo”, como lindamente nomeou Adélia Prado, poetisa brasileira que completou 90 anos em dezembro.
Como falar da obra de Kaës? Como fazer um recorte – que, sem dúvidas, passa por minha subjetividade – sem ser injusta e, ao mesmo tempo, sem deixar de lado essas articulações entre vida pessoal e profissional? Talvez precise iniciar dizendo que sou grata. Grata por ter encontrado em sua produção nomeações, conceitos, aprofundamentos e contornos para uma clínica psicanalítica sensível.
A trajetória de René Kaës se constrói, desde o início, na intersecção entre o sujeito e o grupo. Sua formação, marcada pelo diálogo entre psicologia, filosofia e sociologia, já indicava um interesse pelas experiências coletivas que atravessam a vida psíquica. Nos anos 1960, ao se engajar na psicanálise e em sua própria análise, Kaës se depara com uma separação significativa entre o campo intrapsíquico e o campo intersubjetivo, então dominante no interior da psicanálise. É a partir da crítica a essa separação que ele, em interlocução com Didier Anzieu e no âmbito do CEFFRAP[3], passa a construir uma metapsicologia dos conjuntos plurissubjetivos, elaborando dispositivos clínicos e conceitos que permitem pensar o sujeito do inconsciente também como sujeito do vínculo.
Ao longo de mais de cinco décadas, René Kaës desenvolveu noções fundamentais para a psicanálise contemporânea, como o aparelho psíquico grupal, a concepção de múltiplos espaços da realidade psíquica — o do sujeito, o dos vínculos e o do grupo —, além dos conceitos de alianças inconscientes, transmissão psíquica entre gerações e polifonia do sonho. Nascido em 1936, na região da Lorena, no leste da França, e primogênito de uma família numerosa, Kaës situava, retrospectivamente, as raízes de seu interesse pelos grupos nas experiências precoces de rivalidade, aliança e pertencimento vividas no complexo fraterno. Definindo-se como um “ser das fronteiras”, marcado por atravessamentos culturais, históricos e políticos — desde a infância durante a guerra até o engajamento, na juventude, em movimentos sociais e universitários —, sua trajetória traz uma obra que sustenta, desde o início, a articulação entre sujeito e coletivo. Sua formação multidisciplinar, assim como sua longa experiência clínica, tanto na cura individual quanto nos dispositivos de grupo e nas instituições, contribuíram para a construção de um pensamento que afirma que o inconsciente se constitui e se transforma nos laços. Com isso, sua teoria desloca a psicanálise de uma concepção centrada no mundo intrapsíquico do sujeito, permitindo compreender o sofrimento psíquico em sua inscrição nas relações intersubjetivas, institucionais e históricas.
Minha leitura de Kaës me convoca a sustentar seus desdobramentos no contexto atual da psicanálise. No Brasil contemporâneo, marcado por desigualdades profundas, pelo racismo estrutural e pela persistência da violência contra as mulheres, torna-se cada vez mais difícil — e talvez mesmo impossível — pensar o sofrimento psíquico dissociado das condições sociais e históricas que o produzem e o mantêm. A articulação entre intrapsíquico e intersubjetivo, tal como formulada por Kaës, nos oferece não apenas um instrumento teórico, mas uma exigência ética: a de não reduzir o sujeito a seu mundo interno, nem o social a um pano de fundo. Pensar a transmissão psíquica, nesse contexto, implica reconhecer que traumas, silenciamentos e pactos se inscrevem também nos vínculos e nas instituições, atravessando gerações e exigindo dispositivos clínicos capazes de acolher essa complexidade.
Talvez por isso eu tenha começado este texto por um sonho. Nele, minha filha fazia viver, à sua maneira, algo da presença de meu pai — não como lembrança fixa, mas como gesto transmitido, reinscrito no corpo e na relação. Hoje, ao retomar a obra de René Kaës, me parece que algo semelhante se coloca: não se trata apenas de recordar um autor, mas de reconhecer os modos pelos quais sua presença continua a se transmitir, transformada, nos vínculos que sustentamos, nos grupos que habitamos, nas instituições que construímos. Há algo que permanece em circulação — entre gerações, entre analistas, entre contextos — e que nos convoca, ao mesmo tempo, a cuidar do que herdamos e a responder, de forma implicada, ao mundo em que vivemos.
Encerro este texto com uma esperança: nos últimos anos a busca por grupos de estudos e cursos sobre psicanálise de grupo tem aumentado, assim como a busca por dispositivos grupais para o tratamento de sofrimentos psíquicos e sofrimentos originados no campo social. O trabalho de Kaës, até pouco tempo pouco difundido no Brasil, tem tido maior alcance e despertado interesse de psicanalistas, ampliando a discussão em nosso campo a respeito do menor valor dado aos textos sociais de Freud durante tantos anos e, consequentemente, aos desenvolvimentos posteriores propostos por psicanalistas que tomaram o grupo como dispositivo.
Referências
Kaës, R. (2015). Um porta-grupos para a psicanálise. Percurso, 28(55), 70–84. https://percurso.openjournalsolutions.com.br/index.php/ojs/article/view/289
KAËS, René. Site oficial. Disponível em: https://www.rene-kaes.com/portfolio
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, interlocutora do grupo de trabalho Psicanálise de grupo: teoria e prática.
[2] NESME – Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das Configurações Vinculares, instituição brasileira dedicada à formação, pesquisa e prática clínica com grupos, casais, famílias e instituições, tendo como eixo teórico a psicanálise vincular.
[3] CEFFRAP – Cercle d’études françaises pour la formation et la recherche: approche psychanalytique du groupe, du psychodrame, de l’institution.