Notícias do trânsito[1]: um GT em constante transformação
Grupo Famílias no Século XXI comemora dez anos de existência e reflete sobre seu percurso, buscando mais diversidade através de novos integrantes

por Rachel Botelho[2]
Uma década se passou desde a primeira vez em que o grupo de trabalho Famílias no século XXI, do Departamento de Psicanálise, se reuniu para estudar e debater as transformações em curso nas configurações familiares e seus impactos na constituição da subjetividade. Se o projeto inicial já carregava uma boa dose de ambição, foi só-depois, com a distância propiciada pela passagem dos anos, que se desvelou todo seu alcance. A partir do questionamento de uma suposta universalidade da família, o grupo se viu convocado também a repensar a própria psicanálise – historicamente branca, europeia e heteronormativa.
Marcado pela aposta no trabalho coletivo e na condução conjunta do percurso de pesquisa, o grupo vem se renovando e se mantém atraente não só para formandos e analistas do Departamento interessados nessa temática mas também para externos, como eu, para quem o Famílias foi uma porta de entrada instigante e acolhedora na instituição.
O reconhecimento público desse trabalho ficou patente no congresso da FLAPPSIP[3] realizado em outubro passado, em Lima, no Peru, quando a psicanalista Celia Klouri, idealizadora do grupo, foi indicada para representar o Departamento em uma das mesas plenárias. Além de Celia, que apresentou nossa trajetória a uma plateia de analistas de diversos países latino-americanos, Isabella Borghesi Dal Molin, Ana Raquel Ribeiro e Adriana Elisabeth Dias, as duas últimas encarregadas atualmente da interlocução interna do Famílias, também apresentaram textos no congresso.
A motivação para criar o grupo partiu da escuta clínica de angústias suscitadas por novos arranjos familiares, formas de convívio e conflitos trazidos pelos vínculos afetivos. De início, onze colegas do Departamento de Psicanálise[4] se debruçaram sobre esta temática, apoiadas em diferentes autores da Psicanálise e em diálogo com os saberes da Educação e do Direito.
Nos primeiros anos, o trabalho girou principalmente em torno das questões de gênero e seus impactos nas famílias. Através de Thamy Ayouch o grupo teve contato com a ideia de multiplicidade psicossexual, que amplia as configurações da sexualidade para além do binarismo homo/heterossexual; com Daniela Teperman, que aponta como o neologismo “parentalidade” tende a substituir o termo “família”, avançou na compreensão dos efeitos da separação entre conjugalidade e parentalidade; com Vera Iaconelli, que usa a expressão “funções constituintes da subjetividade”, em vez de função paterna/materna, o grupo reiterou a convicção de que não existe um parentesco, um gênero e uma orientação sexual necessários ou superiores para a constituição do sujeito.
O impacto das leituras e discussões do Famílias no século XXI na escuta clínica de cada uma não impediu, no entanto, que suas integrantes fossem tomadas por um assombro quando, apenas em 2020, puderam problematizar os profundos efeitos do racismo na constituição e na dinâmica das famílias.
O grupo se dedicou, em seguida, ao letramento racial, que levou à organização de um evento no Instituto Sedes[5] para promover uma troca entre psicanalistas e profissionais da Antropologia e do Direito. Na ocasião, a ideia de família universal frente à interseccionalidade dos marcadores sociais não só de gênero, mas também de classe e de raça, foi fortemente questionada.
Acompanhando as novas críticas dirigidas à psicanálise nos últimos anos[6], sustentado pelo aprendizado coletivo, o grupo se viu diante da tarefa incontornável de repensar os pilares do nosso campo. Historicamente europeia, branca, patriarcal, nuclear, monogâmica, binária e heteronormativa, a psicanálise tradicional precisa estar à altura de nossa época, marcada pela multiplicidade de arranjos amorosos, sexuais e familiares.
Atualmente com 15 integrantes e com algumas vagas abertas, o GT vem buscando maior representatividade enquanto se debruça sobre a interseccionalidade na psicanálise a fim de debater como marcadores de raça, gênero, classe social, sexualidade e território se cruzam, moldando a subjetividade de nossa época.
Como bem disse Celia na apresentação da FLAPPSIP, o futuro da psicanálise e o futuro das famílias não estão dissociados: precisam ser reinventados continuamente. “É inadmissível ficarmos numa posição pretensamente neutra, purista, tradicional, fechada a novos saberes, sem repensar nossa prática clínica e teórica.”
Acreditamos que o diálogo com a Filosofia, a Sociologia, os estudos de gênero, de raça e da branquitude, pós e decoloniais é o caminho para que a psicanálise continue viva, relevante e capaz de escutar a singularidade de cada sujeito e a complexidade das famílias no século XXI.
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[1] O título escolhido é uma homenagem ao livro de Cadão Volpato (ed. Seja Breve), em que o autor reflete sobre o impacto da transição de gênero do filho nele e na relação de ambos.
[2] Jornalista e psicanalista, integrante do GT Famílias no século XXI desde janeiro de 2025, é candidata à admissão no Departamento de Psicanálise.
[3] Federação Latino-americana de Associações de Psicoterapia Psicanalítica e Psicanálise.
[4] Além de Celia Klouri, formaram o GT Ana Maria Leal, Andrea Nosek, Ariane Leal Montoro, Maria Cristina Petry, Maria Zilda Armond Di Giorgi, Marília Campos Oliveira e Telles, Marise Bertollozi Bastos, Sandra Grisi, Tera Leopoldi e Therezinha Gomes.
[5] Evento “Famílias brasileiras subindo a rampa – cada uma delas existe e é importante para nós”, realizado em 5 de agosto de 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=r12YSmPI1mo&t=6237s
[6] Uma das críticas mais virulentas (e polêmicas) foi feita por Paul B. Preciado em um discurso proferido na Escola da Causa Freudiana em Paris, em 2019, quando o filósofo espanhol acusou nosso campo de sustentar o binarismo de gênero e o patriarcado e de patologizar corpos trans.