Mesa Anna Freud, a teoria tem seus prazeres[1]: fala de abertura
por Fernanda Almeida[2]

Foto de Sílvia Nogueira de Carvalho
É com profunda alegria, e também ciente da enorme responsabilidade, que aceitei coordenar esta mesa. Foi nesse mesmo auditório, em 2019, que escutei pela primeira vez Elizabeth Ann Danto. Lembro-me do impacto da “descoberta” a respeito da dimensão pública que a psicanálise assumiu no contexto do pós-guerra na Viena Vermelha. Daí até compreender os complexos processos das disputas que resultaram em um certo apagamento e/ou silenciamento, não levou muito tempo para que essa dimensão se tornasse clara. Foi pela leitura de As clínicas públicas de psicanálise que tivemos notícias consolidadas desse capítulo político da psicanálise.
Desde então, seu livro As clínicas públicas de psicanálise: psicanálise e justiça social tornou-se uma referência (não só para mim), mas para muitos psicanalistas e pessoas interessadas neste tema. Hoje celebramos o seu retorno ao nosso auditório.
Quero começar agradecendo ao público presente, à Editora Perspectiva, aqui representada por Sérgio Kon, ao Instituto Sedes Sapientiae e ao Conselho de Direção do Departamento de Psicanálise, aqui representado pela articuladora de eventos Ana Carolina, por tornarem possível este encontro.
Agradeço também, de modo muito especial, à comissão organizadora: Christiana Cunha Freire, Noemi Moritz Kon e Tide Setubal que me confiou a honra de estar aqui esta noite, conduzindo uma conversa que é, ao mesmo tempo, celebração e provocação, e que, nos termos do encontro deste último final de semana (o XIII Congresso FLAPPSIP), é um assombro.
Acolhimento a Elizabeth Ann Danto
É com enorme alegria que recebemos Elizabeth Ann Danto, pesquisadora que há anos, por meio de seus trabalhos, devolve à psicanálise o seu caráter público, social e emancipatório.
Sua obra As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social já havia nos lembrado que as clínicas públicas de psicanálise nasceram como um projeto de transformação coletiva. Uma prática de liberdade.
Agora, com Anna Freud: a teoria tem seus prazeres, Danto nos convida a reencontrar a infância como território ético, sensível e político.
Ela recoloca no centro do pensamento psicanalítico uma questão essencial: o que significa proteger a potência de uma criança num mundo em ruínas?
Agradecimento aos colegas de mesa
Quero também agradecer a presença dos companheiros e amigos Emiliano de Camargo David e Rafael Alves Lima, que compõem conosco esta travessia de ideias, construções, resistências e afetos. Emiliano, com sua reflexão sobre a saúde mental pública, sobre os impactos do racismo na subjetividade e sobre as relações raciais nos brinda com uma concepção clínica centrada na escuta racializada. A originalidade de sua produção teórica nos instiga, orienta e inspira. Os conceitos de desnorteado e antimanicolonial, a meu ver, estão no mesmo esteio ético-político que mobilizou Anna Freud em seu tempo, e que Danto nos apresenta hoje. Rafael, com suas pesquisas sobre psicanálise e ditadura, reafirma a dimensão política da psicanálise, denunciando o apoliticismo como uma espécie de formação de compromisso. A ambivalência se revela seja na recusa ao arbítrio por um lado, seja no recalcamento e/ou silenciamento do horror em momentos de profunda adaptação.
Estou certa de que vocês trarão para esta mesa o olhar de quem entende que toda teoria crítica, resgate histórico e insurgência são também formas de compromisso com o mundo e, portanto, com a emancipação humana.
A atualidade da obra
E é justamente sobre esse compromisso que o pensamento de Anna Freud segue tão urgente. Quando olhamos para o mundo hoje, é impossível não sentir o peso da infância ameaçada.
Na Faixa de Gaza, mais de cinco mil crianças sofrem com desnutrição aguda; dezenas de milhares foram mortas ou feridas desde o início do conflito. Segundo o UNICEF, em maio de 2025, mais de 5.119 crianças entre seis meses e cinco anos foram admitidas para tratamento de desnutrição aguda na Faixa de Gaza; dessas, 636 apresentavam desnutrição severa (a forma mais letal). “Horrores inimagináveis” foi o termo utilizado na declaração do diretor regional do UNICEF para o Oriente Médio ao se referir às mais de 50 mil crianças supostamente mortas ou feridas na Faixa de Gaza.
Na Ucrânia, 70% das crianças vivem sem acesso a serviços básicos. Milhões cresceram entre sirenes, fome e perda. Essas são infâncias que Anna Freud teria olhado nos olhos. Não para descrevê-las como vítimas, mas para perguntar: como seguimos garantindo a urgência de transformar a construção social da infância?
E aqui, no Brasil, a pergunta também nos atravessa.
Quase metade das crianças brasileiras vive em situação de pobreza. Só na cidade de São Paulo, 3700 estão em situação de rua (dados do CENSORUA). No Rio de Janeiro, apenas no último ano, mais de vinte crianças foram baleadas (muitas delas mortas) vítimas de uma guerra que se naturalizou nos territórios populares. Esses números nos dizem que a infância continua sendo o campo onde se revela, com mais crueza, o fracasso das políticas mediadas apenas por interesses econômicos e o limite da nossa capacidade de indignação.
O legado de Anna Freud
É por isso que ler Anna Freud, hoje, é mais do que um exercício de resgate histórico – é também uma busca por um referencial ético para a escuta clínica com crianças. Ela acreditava que o que precisava mudar não era apenas o modo de tratar as crianças, mas a própria construção social da infância. Anna Freud viveu duas guerras e pôde fazer da psicanálise infantil um campo de invenção e não de adaptação.
Essa alternância entre pensar e agir, entre escutar e transformar, talvez seja também o convite que o livro nos faz hoje.
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[1] Vídeo do evento disponível em: https://youtu.be/KRhinpX-V5w?si=fSdQ63dSGh-KCuZi
[2] Psicanalista e assistente social, aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde integra a equipe editorial deste boletim online e a Comissão de Reparação e Ações Afirmativas. Professora no curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma.