Às poetisas tristes
por Rubia Delorenzo[1]
“A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!”[2]
A dor do mundo, amores desfeitos, a morte no mar. Quanto sofrimento infundido,
revestiu um coração.
A dor por vibrações e ondas abala toda a paisagem
Toda a geografia se altera
Treme a terra
O chão estala, se abre em fendas
Ausências, crateras
Deslizam para o fundo, pó grosso e pedras
Vertigem
Dor nascida do rechaço, onde o primeiro amor oscila
A linguagem estende seus braços,
rodeia esse nada
Bordeja o abismo.
Tenta.
Quer banhar o que encontrar à sua volta.
Sobretudo esses bolsões vazios,
antigos açudes, agora evaporados.
Quer batizar com seu signo esse lugar deserto onde chora a melancolia.
“Escrever me defende do fluxo”
“Palavras, palavras para estancar o dilúvio”[3]
Palavras para cessar essa mágoa que se engole misturada, na boca ávida de peito,
à poção envenenada de dor.
Sangria incessante, hemorragia abundante
Ferimento aberto.
Trânsito difícil, visceral, quase orgânico que busca na escrita sua função de
barragem.
Setembro 2025
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste boletim online.
[2] Florbela Espanca – Fotobiografia
[3] Os diários de Sylvia Plath 1950-1962