O romance da origem
por Déborah de Paula Souza[1]
Escrever sobre o fim do mundo pede atenção aos sinais pois as sirenes de alerta já estão ligadas. Mas escrever sobre o início exige uma imaginação radical e é ela quem conduz o romance Os imortais, da autora brasiliense Paulinny Tort, lançado pela editora Fósforo no início de 2026. Resenhas e críticas anunciam que este é um livro “para se ler com espanto”. Assim me aconteceu.
Enquanto os bons vinhos trazem no rótulo a sua “denominação de origem controlada”, o romance Os imortais tem origem descontrolada, justamente a nossa. A história se passa no paleolítico, muito anterior ao cultivo do solo ou domesticação de animais. Estamos entre as ravinas, cavernas e vulcões. O livro fala de nós antes de nós.
O deslocamento de um clã de neandertais e seu encontro com o clã de homo sapiens dispara a história. Já estava tudo lá: a disputa violenta por território, abrigo e alimento, a hostilidade com o estrangeiro. Desde os primórdios, as guerras estão destinadas ao fracasso, quem vence também estará derrotado, prevê a narradora. A obra não se detém só nas batalhas, se estende ao convívio, à necessidade de cooperação, à guiança dos mais sábios, à proteção dos filhotes.
A percepção de pertencimento à natureza é aguda, a sobrevivência depende da coleta de grãos e da caça de animais. “A fome é um transe”, a sede uma tortura, a descoberta de um riacho antecede sua visão: são os pés que sabem da trilha amaciada pela proximidade da água; os tipos de insetos, pássaros ou pedrinhas informam sobre o território, é preciso farejar e consultar nuvens.
Os personagens: o Homem, a Mulher, a Velha, a ama de leite, os caçadores, os fazedores (das ferramentas de pedras e ossos), a menina, a pequenina etc. Seriam nomes universais? Há também algo perturbador na composição de “pequeno” – um macho de suposta coragem e baixa estatura. Sim, alguns nomes são grafados com maiúscula, outros não. O pequeno é minúsculo.
A menina sapiens que acaba vivendo com o bando de neandertais é a protagonista. Desde que a bebê surge berrando na história, fica difícil desgrudar os olhos dela. Assombro maior traz o Homem, o guia neandertal, o responsável por apontar o caminho, o que se atreve a pensar o que ainda era impensável, “aquele que anda tomado pelo sublime”. Um xamanismo incipiente se insinua, com sonhos e outras comunicações entre espécies.
Eis aí um ponto de magia permanente do livro: sua linguagem fricciona palavras com gestos, vocalizações, chamamentos e o arreganhar dos dentes. A leitura nos coloca dentro do ritual.
Eles já conheciam o Fogo, também este um personagem mítico, ligado às superstições de velhas curandeiras e de cozinheiras, que oferecem o tutano dos ossos às crianças e aos doentes, ou sopa de caracóis no período mais famélico. A lida com javalis e outras feras indicam que o que está em jogo numa caçada é maior do que podemos pressentir, sendo os cavalos selvagens os representantes da beleza mais perigosa, registrada nos desenhos rupestres.
Quase tudo é relatado num presente absoluto, em terceira pessoa. Não é possível definir exatamente o próximo passo nessa extensão sem conjecturas: o que pensavam, afinal, a mulher e o homem primevos? O quanto é possível adivinhá-los? Não se sabe a priori, resta seguir o fio da história. O livro não parte de tratados científicos, a autora admite que estudou o suficiente para não cometer erros óbvios, mas os rastros das escavações pré-históricas não bastam para definir os contornos da subjetividade e do pensamento de nossos ancestrais. A coreógrafa Pina Bausch declarava que, antes do movimento, o que a interessava era o impulso, aquilo que fazia mover. Quais são os primeiros passos dessa dança que nos trouxe até aqui? Sob que céu e em que terreno tão antigo ela se sustentou?
A autora aposta que sentir é um modo de conhecimento e permite-se conviver com os hominídeos que inventou. Paulinny levou cinco anos para escrever Os imortais, ela considera pouco tempo (lembra que Flaubert passou dez com sua Madame Bovary): “É preciso ficar pelo tempo que for necessário. (…). Quanto mais, melhor. Esse é o modo que permite achar os sons, porque nos coloca em contato com uma voz mais secreta, mais íntima”.
No cenário da natureza selvagem e no abrigo das cavernas, os acontecimentos se desdobram. Não é o caso citá-los aqui, e não apenas pelo risco do spoiler. É que a linguagem seria traída. Então reproduzo um trecho da visão da Mulher:
“É um campo de cabelos brancos que brotam em tufos da terra, e são cabelos humanos, ondulando para cima como algas dentro de um rio. A Mulher atravessa esse campo. Chega a uma escarpa onde os mortos, bem despertos, estão sentados (…). Agora pode ver. São linhas e mais linhas de mortos, as suas avós, as avós de suas avós, dispostas até a primeira mulher, até o primeiro homem. Mas, assim que pensa nisso, os mortos se diluem e desaparecem, transformados em fina névoa. Ela desprega as pálpebras, esfrega o rosto, dissolvendo o Sonho. Está escuro ainda.” (…).
A minha fantasia é que autora sonhou esse sonho, começou a escrever no escuro e o dia amanheceu muitas vezes até que o livro encontrasse seus viventes, sua respiração e suas línguas. O início de cada capítulo, grafado com sílabas e sinais, é uma invocação das musas (tal qual a Eneida, do poeta Virgílio). Alguns já classificaram a obra como uma epopeia. Para o escritor Caetano Galindo, autor da apresentação da capa, trata-se de “um pequeno milagre”. Graças ao poder de escavar fundo nossas raízes, a autora tocou simultaneamente o contemporâneo e o atemporal.
O desejo de escrever um artigo sobre este livro para este Boletim de psicanalistas tem a ver com o prazer da leitura e também pela companhia que ele pode fazer ao trabalho clínico, com sua imaginação criadora, seu faro e seu interesse pela infância da linguagem.
A autora e suas referências
Paulinny Tort nasceu em 1979, em Brasília, cresceu numa casa só de mulheres, onde havia pouco dinheiro e muitos livros. É jornalista e mestre em comunicação, diz que nunca teve a objetividade necessária para atuar como repórter. Trabalhou mais na rádio e na promoção de eventos e programas literários. Interessada em ciências naturais, cursou por dois anos a faculdade de biologia e fez estágio de campo, como pesquisadora de macacos-prego, junto à professora Patrícia Izar, primatóloga especialista em comportamento animal.
Estreou como escritora em 2016 com o romance Allegro ma non troppo, semifinalista do Prêmio Oceanos. Com Erva Brava, seu primeiro livro de contos, foi finalista do Jabuti em 2022 e levou o Prêmio APCA.
Nas entrevistas de divulgação de Os imortais, a autora é generosa ao falar de suas referências culturais, embora muito reticente ao comentar a própria obra. Entre suas sofisticadas leituras estão Shakespeare, Freud (ela cita Totem e tabu), Sêneca, todos os gregos clássicos que remetem às origens e ao contato com os mortos, os compêndios de linguagem, com destaque para Steven Pinker, e o contemporâneo Escute as feras, da antropóloga Nastassja Martin, que evoca a floresta e o bestial (já resenhado no Boletim).
Como o ritmo dos Imortais é peculiar, a autora também costuma ser questionada por suas referências de silêncio: música minimalista e antigos filmes japoneses, bem como seu gosto por ficar próxima da natureza. Quando está na cidade, presta atenção às plantas e ao nosso convívio com outras espécies: “A gente passa no mercado pelas caixas de ovos com a maior naturalidade, mas se for parar para pensar é uma loucura.” O mesmo vale para os caminhões que carregam bois e galinhas, a mortandade de árvores, a ideia permanente da superioridade humana, devorando tudo. Mas esse tipo de observação só pude notar ao procurar artigos e entrevistas com Paulinny Tort.
Quanto ao romance, a escritora recusa-se a fornecer chaves de interpretação. Seu desejo é contar uma história que possa ser desfrutada pelos leitores. Ela não tem interesse em explicar nada. “No fim das contas, cada um vê o que deseja e o que pode ver”. Sem ilusões sobre o poder da comunicação, reconhece a distância entre “o que se quer dizer e o que é dito. E ainda tem o receptor, que desvia a mensagem de sua intenção original”. Encara a escrita ficcional como um roteiro para a imaginação. Silêncios, brechas e buracos favorecem o circuito.
Boa parte dessas informações achei na rede, em podcast, artigos e numa boa entrevista, “A faroleira na escuridão”, conduzida pelo escritor Rogério Pereira e publicada na revista de literatura Rascunho. Ali a autora se define como uma “faroleira”. Acende a luz no alto da torre, indica aos navegantes a presença da terra, mas não controla a carga, a tripulação nem o destino das embarcações. Com seu livro, estamos no mar aberto.
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste boletim online.