Escritos de Lisboa
Exposição “Arte & moda” / Museu Gulbenkian / Lisboa: Impressões
por Rubia Delorenzo[1]
Pode ser um túnel.
Ou uma noite aberta.
Depende de quem olha.
Do temperamento e do olhar.
Pode ser visto com encantamento. Sem pudor.
Pode ser visto com ironia, na fagulha de um mau humor.
Pode ser também uma floresta fechada.
Mas vê-se na trilha, clareiras. Nichos, vãos, veredas. Aberturas de luz.
Se apresentam como uma aparição, essas silhuetas femininas humanas, mas aladas como pássaros.
A pele é pluma, pena, pavão.
No erótico tecido entre fios, bicos de seios se revelam, se desenham na forma curva do corpo.
Figuras híbridas
Caudas, longos rabos, barbatanas partidas.
Marítimos corpos.
Brilho de prata sobre escamas de luz na marola do mar.
Fantasia, ilusão, fábulas de mulher.
Outra vez, aves.
Bem finas, equilibradas em poses leves, a curvatura de pescoços longos, indicando direções.
Gestos sedutores imobilizados na arte acabada dos trajes.
No caminho, se atenuam os contornos, os perfis definidos, as ondas.
São os tecidos nobres, os brocados, os metalizados, os relevos firmes de textura mista, linhas finas com encorpadas, por onde passeia o olhar e a vontade de tocar.
Bordados consistentes no trançado, que enlaça contas de pedraria, filetes de couro mais o metal.
Na mulher pressentida, agulhas tecem, o tear trabalha, a lã quente da ovelha, cardada e tinta, se desfia, desenrola, se abraça, cobre os ombros, envelopa um corpo.
No final, há algo piscando luminoso na noite escura. Talvez uma clareira. Talvez um vitral sob a luz do luar.
Trajes modelados com prata, plástico, resinas. Fluorescências, neon.
Desaparecem os corpos humanos. O contorno alinhavado é puro brilho. Corpos siderais.
Na trilha destes pontos largos, provisórios, de delicado fio, encontra-se a memória dos tempos , dos costumes em mutação, seus disfarces, sua força de criação.
É o feitio da indumentária egípcia que inspira os primeiros modelos. Depois se seguem os séculos, com seus tules e veludos, recatos e decotes, espartilhos e armações.
Para dar um só exemplo, desta conexão entre a arte, o corpo e a moda, é linda a vestimenta austera inspirada na gola nobre de um Velásquez, branca, plissada, engomada.
Lisboa
maio/ junho 2026
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste Boletim online.





