Racismo e antirracismo: mobilização e diálogo
Pela Comissão de Reparação e Ações Afirmativas do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae[1]
Em novembro de 2025, a Comissão de Reparação e Ações Afirmativas do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae foi convidada por um grupo de analistas em formação no Curso de Psicanálise a participar de duas rodas de conversa que se dariam entre colegas e professores do Curso de Psicanálise e que contariam também com a presença de membros da Diretoria do Instituto.
Esse convite — feito em meio a uma grande mobilização, motivada por uma situação de racismo ocorrida em um grupo de supervisão, uma situação grave no processo de formação e transmissão — foi por nós muito bem recebido. Lidávamos, então, com um novo arranjo, que representava o oposto da banalização e do silenciamento de situações de violência como essa, invisibilizadas historicamente. Concretizava-se uma oportunidade de acolher coletivamente a denúncia e a dor, processá-las grupalmente e buscar a criação de novos dispositivos de enfrentamento ao racismo na instituição. Uma convocação que segue em consonância com um dos pilares de trabalho e intervenção da Comissão de Reparação, o Aquilombamento Afetivo, uma roda que pode favorecer que o crime de racismo, tantas vezes negado, tenha ocasião de aparecer e de ser trabalhado coletivamente. A conversa pode, assim, contribuir para nossa transformação.
Podemos tomar esse acontecimento como mais um ponto de inflexão do projeto antirracista no Departamento de Psicanálise e no Instituto Sedes Sapientiae.
Consideramos que esse movimento acarretou, sem dúvida, uma grande inovação. Por iniciativa de estudantes, concretizou-se um diálogo aberto que extrapolou os limites de um curso, articulando-o à Comissão de Reparação e à Direção do Instituto. Um dispositivo mais orgânico. Vimos, assim, surgir um movimento ampliado de responsabilização e de busca ativa por letramento racial, um movimento criativo e consistente para sensibilizar, elaborar e, com isso, transformar nossa comunidade. Esse movimento está em profunda sintonia com o propósito da Comissão de Reparação e Ações Afirmativas do Departamento de Psicanálise, instaurada entre nós no início de 2022. E nos anima ver que a proposta de letramento antirracista surge agora provinda de vários e diferentes lugares de nosso instituto, o que só reafirma a relevância do compromisso, da função e do valor do trabalho ético político de uma comissão como essa entre nós.
Nas rodas, das quais participaram a grande maioria dos analistas em formação e dos professores do Curso de Psicanálise, se tornou evidente um verdadeiro anseio por conversa e elaboração das diversas situações de mal-estar relatadas com coragem, nessa manifestação de efervescência e indignação que marcou os encontros. Foram abordadas circunstâncias diversas de conflito, experiências que revelavam tanto o racismo como questões de gênero entre nós. Diversas pessoas participantes apontaram, de forma insistente, a importância de criarmos protocolos e dispositivos capazes de enfrentar situações de racismo extremamente perturbadoras e geradoras de sofrimento para quem as vivencia.
Sabemos que a possibilidade de permanência das pessoas negras e indígenas está diretamente ligada à nossa capacidade de oferecer hospitalidade para quem chega. Diante desse momento que, pensamos, inaugura um novo ciclo em nossas ações antirracistas, temos pela frente o compromisso de enfrentar o racismo estrutural, institucional e pessoal que atravessa nosso cotidiano. Um grande desafio, o de elaborarmos juntos protocolos e dispositivos antirracistas de responsabilização e reparação individual e coletiva.
É importante não esquecer a lição que essas rodas inaugurais trazem: o valor do diálogo aberto entre diferentes instâncias e protagonistas diversos, lembrando sempre que é a ética psicanalítica que nos impulsiona a criar e ocupar diversos espaços de escuta, de formação coletiva ampliada, atentos à alteridade, buscando garantir o cuidado e o respeito entre todos nós.
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[1] Integrantes da Comissão de Reparação e ações afirmativas 2024-2025: Adriana Elisabeth Dias, Ana Lucia Panachão, Anne Egídio, Christiana Martins R. C. Freire, Cristina Barczinski, Cristina Lopergolo, Daniela Danesi Magalhães, Daniela de Andrade Athuil, Dedé Ribeiro, Denise Cardelini, Fernanda Araújo de Almeida, Gabriel Basilio, Heidi Tabacof, Juliana Farah, Maria Aparecida Miranda, Maria Cristina Petry Barros Martinha, Maria do Carmo Vidigal Meyer Dittmar (Lila), Maria Marta Azzolini, Marisa Correa da Silva, Noemi Moritz Kon, Paula Francisquetti, Pedro Robles, Selma Tavares, Silvio Hotimsky, Solange Maria Santos Oliveira, Tide Setubal e Valdira Penedo.
Em 2026 saíram: Ana Lucia Panachão, Heidi Tabacof e Tide Setúbal.
Entraram: Letícia Cerqueira, Mariana Alves, Renata Arouca e Renata Santos