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jornal de membros, alunos, ex-alunos e amigos de psicanálise

Festa estranha, com gente esquisita[1]

por Carolina Moriyama[2]

 

No último mês de maio tivemos o prazer e a alegria de realizar o debate da Revista Percurso 75 – o segundo número da revista dedicado à comemoração dos 40 anos do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. E o que essas duas edições da revista e os seus respectivos debates nos mostraram é que temos inúmeros motivos para celebrar. O Departamento chega em sua quarta década cheio de vida, bonito e profundo, demonstrando seus vários eixos e suas múltiplas vozes, misturando experiência e novidade, tradição e diversidade, e sustentando com maturidade inúmeras tensões e questionamentos. O que entrevemos nesses artigos, depoimentos, entrevistas, debates e leituras é a potência da criatividade de seus membros que, em sua mais exuberante complexidade, têm sido capazes de conjugar as marcas perenes de seus fundamentos e de sua história com a abertura para a aventura do estranho, do presente e do futuro.

Em meio a um cenário mais amplo no qual algoritmos, líderes inescrupulosos e bilionários parecem nos transformar em fantoches homogeneizados, ensimesmados e robotizados, em um tempo em que claramente se observa uma crescente impossibilidade de debate – marcado pela manipulação da realidade e banimento constante do outro, visto como potência inimiga – o Departamento completa 40 anos de criação e resistência, encarnando de forma muito singular os poderes profundos da Psicanálise, da fala genuína de um si mesmo desperto, e da escuta em posição ética de abertura ao outro.

Vivemos um tempo intrigante, que convida a pensar nas condições que sustentam ou impedem essa possível alteridade. Na conceituação hegeliana de tragédia, da qual provavelmente Antígona é sua representante mais acabada, observamos afirmações radicais de princípios absolutamente legítimos que se chocam sem qualquer possibilidade de conversa e de alteração. São diálogos surdos entre o novo e o antigo, os vivos e os mortos, os homens e os deuses, o indivíduo e o Estado, o feminino e o masculino, pretos e brancos. E é dessa surdez, advinda da radicalidade do incomunicável, que nasce o sentido que outorgamos à tragédia. Já o que pretendemos em um ambiente democrático, rico, que visa ser capaz de comportar o singular, é desenvolvermos a possibilidade de gestarmos, a partir da hospitalidade, o conflito e a tensão – para que eles possam, bem-vindos, serem vividos, processados e elaborados. Nesse contexto, vemos os opostos trabalhando, divergindo e convergindo, sem a necessidade de uma coincidência forçada e vazia que decorreria da renúncia dos fundamentos da diferença, nem de uma complementariedade que levaria a uma ideia de completude estéril, nem de uma trágica afirmação da incomunicabilidade dessas essências – autoproclamadas como dogmas enclausurantes.

Durante o debate testemunhamos esses pares de opostos trabalhando consistentemente. Conversa transmutante entre as mais velhas e as mais novas, a tradição e a inovação, as teorias e as práticas, os inegociáveis e suas elasticidades, o mais íntimo privado e o mais público político, entre o feminino e o masculino, brancos e negros. E ficamos todos reanimados pela alegria que emanou da verdadeira conversa. Uma troca viva na qual a realidade, ao invés de negada e manipulada, readquire o poder de nos interrogar, nos deslocar e nos abrir para aquilo que nos espanta.

O artigo de Ana Maria Sigal, sobre os inegociáveis da psicanálise, promoveu durante o debate um centro gravitacional ao redor do qual muitos temas e indagações puderam circular. Foi um efeito interessante. Pudemos nos propor questões enigmáticas sobre as qualidades idiossincráticas dessa fonte singular – chamada Psicanálise – da qual nos sentimos todos bebedores. Ao mesmo tempo que pudemos acompanhar, ao longo da discussão, uma série de movimentos diaspóricos e transformativos dessa mesma Psicanálise, que se mostra, quando tensionada, capaz de trânsito, troca, mutação, amadurecimento e reinvenção.

O debate cresceu acompanhado, em diversos momentos, das leituras do excelente artigo de Silvia Alonso, bem como pelos ecos de sua instigante entrevista. Cofundadora do Departamento e da Revista Percurso, figura central nos momentos constitutivos e mutativos dessa instituição, sua presença generosa no debate e a extensão e a profundidade dos temas tratados em seu artigo nos mostraram algumas facetas da episteme psicanalítica – que pode tanto se encastelar em postulados normatizadores quanto se abrir, ser fecundada e crescer a partir de novos interrogantes que aparecem no campo.

Nesse horizonte vital sustentado pelo movimento de alternância entre o fechamento e a abertura, o concêntrico e o excêntrico, de sístole e diástole, rumo ao centro e para a periferia, circularam durante o debate outras escutas, outras vozes e novas ideias. Pudemos nos juntar (na diástole) compondo os territórios fraternos da amizade, da comunalidade e da partilha, ressoando as múltiplas falas de reafirmação da singularidade do campo da psicanálise: o inconsciente, a pulsão, a sexualidade infantil, a transferência, a abstinência e o método psicanalítico. Pudemos nos separar na sístole, rumo à sempre renovada vocação da psicanálise: ouvir dos humanos a voz do que nos é estranho, o inconsciente. E poder ouvir os humanos – essencialmente aqueles cujas repetidas experiências de humilhação flertaram com a possibilidade de arremessá-los para fora do humano: os bebês, as crianças, os negros, os loucos, todas as pessoas com saídas singulares e não binárias na tríade sexo-gênero-desejo, as mulheres, os velhos, os estrangeiros, os banidos, os outros.

Nesse espaço pudemos escutar as vozes de todas essas magníficas mulheres, porta-vozes de si mesmas e desses tantos outros residentes de territórios não hegemônicos nos quais se move a psicanálise. Que emocionante ouvirmos Renata Cromberg fazendo circular a dedicação ímpar e pioneira de Sabina Spielrein, Maria Helena Fernandes nos convidando a escutar, com imensa abertura, a mulher, o tempo, a dor, o envelhecimento e a potência do enamoramento, de perder o medo do amor. Que radical o convite simultaneamente feito e atendido por Maria Aparecida Miranda em seu artigo sobre a beleza negra e a subjetividade das meninas, em que nos conta dessa travessia feita por inteiro, de corpo e alma, adentrando as histórias de vida de meninas negras.

Ainda sobre as questões do racismo, Adriana Dias e Ana Raquel Ribeiro comentaram sobre as dores e alegrias envolvidas na feitura do belíssimo texto A branquitude atravessada pelo canto de Ossanha. Capazes de sustentar o próprio movimento de abertura promovido pelo assombro diante do racismo e da branquitude, elas dedicaram-se profundamente a trabalhar a questão: o que somos capazes de escutar? Havendo-se com as questões da branquitude em si mesmas, e da percepção de que a falta de letramento racial nos impede de escutar as dores do racismo, elas exploraram as transformações que esse atravessamento convocou: na escuta, na vida e no corpo. Viagem sem volta!

Seguindo dentro do tema, tivemos ainda o prazer de escutar as considerações valiosíssimas de Solange Oliveira, cujo trabalho se propôs a analisar o impacto do racismo na vida e na análise de um sujeito negro, mostrando como o racismo, ao invés de um episódio traumático isolado, deve ser entendido como um processo secular e cumulativo, adoecendo o sujeito sem que ele encontre representações psíquicas para o que viveu. Além disso, Solange também trouxe um debate interessante a respeito de uma suposta neutralidade do analista – que poderia se converter em silenciamento político, ético e em violência simbólica – ao desconsiderar as violências sofridas pelo paciente.

Por fim, gostaria de lembrar as falas de Ana Claudia Patitucci e Paulo Jeronymo Pessoa de Carvalho, que nos mostraram o quanto a tentativa de institucionalização da psicanálise é avessa aos fundamentos da psicanálise, e o quanto a luta do Movimento Articulação contra a regulamentação do campo se funda no compromisso ético de não escorregar para o lugar de quem define “o que é psicanálise”.

Sei que esse texto ficará indubitavelmente aquém do clima que vivemos no debate. Assistir e participar dos debates da Revista é sempre uma experiência muito enriquecedora. Estar diante dos autores, poder indagá-los, interpelá-los a partir daquilo que a sua escrita nos suscitou, é um privilégio difícil de precisar. Trata-se de reacender as palavras para que elas não queimem em vão, reanimar as letras e sermos reanimados por elas, vendo reviver o laço que às vezes se amortece entre a palavra, o pensamento e as pessoas. Trata-se de falarmos de um lugar com muitas pessoas, um lugar que tem alma, um lugar que tem revista (!), um lugar onde ainda há debate. Celebremos!!

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[1] Este título se refere a uma passagem da música Eduardo e Mônica do compositor Renato Russo. Eduardo é adolescente, ainda identificado com o mundo infantil, e faz esse comentário sobre a festa em que conhece Mônica, uma mulher. Ele é então convidado à alteridade pelo enamoramento. Ele começa a sair do seu mundinho, mas está atordoado. Ele diz: “Festa estranha, com gente esquisita”. Celebremos o assombro e a abertura que pode nos tornar capazes de fazer amizade e festejar com os nossos outros.

[2] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante do Conselho editorial da revista Percurso.

 

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