Sobre Os desafios da tradução em psicanálise
por Marina Bialer[1]
O evento Os desafios da tradução em psicanálise, realizado no dia 22 de agosto de 2026 pelo Departamento de Psicanálise, foi organizado por Marina Bialer, Paulo Sérgio de Souza Jr. e Renata Cromberg, tendo no horizonte a ideia de que a tradução é parte indissociável dos percursos pelos quais a psicanálise se transmite e circula entre nós[2].
Começo com uma pequena nota pessoal. No início do evento eu comentava com Renata que lembrava de reconhecê-la no vídeo Traduzir Freud – realizado pelo Departamento há mais de 16 anos – em que se discutia com o tradutor Paulo César de Souza diversas questões tradutórias[3]. Dizia para ela como era curioso pensar que nos encontrávamos lá – no mesmo auditório – mais de década depois, diante de novas versões da obra freudiana, para dar outro giro sobre a temática, contando com a presença de três importantes tradutores contemporâneos da obra freudiana – André Carone e Ernani Chaves, que foram os palestrantes da primeira mesa-redonda cujo tema era os desafios de traduzir Freud, e Paulo Sérgio de Souza Jr. que palestrou na mesa seguinte, que tinha por tema a tradução de Ferenczi, mas que também teceu comentários sobre como pensava a tradução no que concerne mais especificamente à obra freudiana.
Agora que já temos a obra completa de Freud traduzida, agora que temos outras tantas versões de seus textos já feitas ou em andamento, considero que um dos pontos ricos do debate foi justamente destacar o trabalho do tradutor e o trabalho do leitor diante da obra freudiana. Qual lugar deve ocupar a tradução na formação do psicanalista? Esta é uma questão que podemos levantar a partir dos comentários da psicanalista e tradutora Claudia Berliner, que exercia a função de comentadora das duas mesas-redondas. A importância de um letramento tradutório necessário para a relação do psicanalista com os textos psicanalíticos assinala uma riqueza que todo psicanalista poderia obter nesta escuta do texto, mas também derivado para a escuta de seus analisandos.
Para além do crivo que muitas vezes se faz de diferentes traduções em psicanálise pelo viés de suas incompletudes e erros tradutórios, várias falas assinalaram quanto o ato de traduzir se aproxima da tarefa do psicanalista[4] e sua relação com o estrangeiro, não somente quando passa de uma língua à outra.
Brincando com a Análise terminável e interminável freudiana, Ernani Chaves nos apresentou a ideia de tradução terminável e interminável quando falava dessa riqueza da linguagem e de diferentes leituras. Nesse sentido, ele comentava como havia optado por terminologias distintas daquelas feitas por Paulo Sérgio de Souza Jr., salientando o valor dessas diferentes leituras existentes no trabalho tradutório – versões publicadas na edição das Obras incompletas pela Editora Autêntica e na edição da Pequena biblioteca invulgar pela Editora Blucher. Na fala dos palestrantes circulou, inclusive, a ideia de que no diálogo entre tradutores da obra freudiana havia momentos em que um tradutor pensava em uma primeira palavra para a tradução, depois escutava de outro tradutor uma outra opção, e por fim decidia por uma terceira opção inédita – que surgia deste (des)encontro de interpretações. Para falar destas diversas interpretações e decifrações em jogo no trabalho tradutório, também vale comentar como André Carone, por seu turno, assinalou a riqueza das metáforas na obra freudiana e a importância do trabalho tradutório nessa decifração de significados, citando vários exemplos ilustrativos dentre os quais menciono sua discussão sobre o bloco mágico freudiano.
É interessante como essas diferentes perspectivas foram dialogando com o público do evento, que compartilhava como estávamos em um campo em que não se tratava de que nós psicanalistas brasileiros precisamos de tradutores porque (ainda) não falamos alemão ou húngaro – para nos atermos às línguas de escrita de Freud e Ferenczi. Em sua fala, Paulo Sérgio comentava como muitas vezes o tradutor é pensado como um obstáculo à leitura, como se o tradutor devesse desaparecer do texto que traduz, devendo se tornar uma figura invisível. Ao contrário, o que circulou no transcorrer do evento foi justamente a relevância da marca do tradutor na obra traduzida como parte intrínseca do traduzir e de todo texto traduzido. Voltando ao supracitado exemplo: seria este o campo do surgimento do inaudito, do (des)encontro de interpretações que produz um ineditismo tradutório, assim como da riqueza da coexistência de diferentes traduções e possíveis aberturas para escuta de outros textos derivados da versão original.
Em sua fala intitulada Ler, traduzir, reler, retraduzir…uma tarefa terminável e interminável, Ernani nos falou justamente de como todo tradutor tem que se haver com o que alicerça seu desejo de traduzir, assim como com o luto necessário ao tradutor, a tarefa de se haver com não ser possível fazer “A tradução” única, definitiva, retrato perfeito e sem restos da versão original. Já Paulo Sérgio comentou como em Ferenczi nem sempre é possível dizer qual é o idioma original, se o alemão ou o húngaro, além da presença do latim na sua formação escolar.
Do lugar de tradutor, Paulo Sérgio salientava seu esforço para se manter fiel ao estilo do autor que traduz, citando no caso de Ferenczi todos os desafios de preservar o estilo mais coloquial do autor, acolher as nuanças de sua expressão quando escrevia em alemão ou húngaro, mas também saber retratar os momentos em que seu escrito expressa um formalismo germânico. Já Sérgio Gomes, do lugar de editor da obra ferencziana e palestrante da segunda mesa do evento, também falou desse desafio de preservar o que designou por escrita poética ferencziana e da importância da paixão do editor para sustentar o trabalho editorial respeitando ao máximo a palavra do autor e a palavra do tradutor. Em vários momentos escutamos dos palestrantes a questão das línguas dos traduzidos: Freud e Ferenczi entre línguas e a psicanálise entre línguas.
Estamos falando de pontos extremamente importantes quando pensamos a transmissão da psicanálise. Quando Paulo Sérgio discutia como o brasileiro foi apresentado incialmente a um Ferenczi traduzido a partir da edição francesa, por sua vez traduzida do húngaro, ele comentava como foi predominante a marca de sua oralidade e proximidade do cotidiano, da linguagem do dia a dia. Todavia, o que o tradutor salienta é que por essa entrada na obra ferencziana, por essa versão de Ferenczi, o leitor não tinha acesso a outras marcas do estilo ferencziano presentes quando ele se expressava no alemão típico da época ou quando recorria aos maneirismos acadêmicos. Igualmente, o tradutor enfatizou como, nessa primeira versão de Ferenczi, o leitor não encontrava a tensão entre o vocabulário germânico que marcou Ferenczi e toda a primeira geração de psicanalistas e as invenções que o próprio Ferenczi inscrevia em seus textos, o que Paulo Sérgio designa por “um modo de escrita mais impetuoso e experimental, fazendo da linguagem a sua grande colega de bancada no laboratório psicanalítico do seu tempo”.
Estes são apenas alguns recortes/comentários sobre o evento que convido o leitor deste texto a assistir na íntegra no canal Youtube do Departamento. Já às voltas com o fim do texto, gostaria ainda de mencionar o deslocamento do padrão-ouro para se estudar Freud que era a língua inglesa, a tradução em língua inglesa da obra freudiana. Não sendo o inglês a língua materna de Freud e do círculo vienense dos primeiros psicanalistas (que naqueles primórdios redigia seus textos predominantemente em alemão), é interessante notar como acompanhamos historicamente a transição do inglês como padrão-ouro de língua de transmissão da psicanálise, para uma abertura em que se observa um movimento editorial de publicação sem o intermédio do inglês. Notamos isso no evento quando percebemos que embora se tenha mencionado de passagem a tradução inglesa de Freud, grande parte dos debates tradutórios giraram sobre outras línguas, as línguas originais em que escreviam os psicanalistas traduzidos.
Gostaria de assinalar outro ponto que surgiu nesse debate dos desafios tradutórios: a dimensão política da tradução e seus efeitos na transmissão da psicanálise. Este eixo foi explicitado por Renata Cromberg e gostaria de fazer um apontamento crucial para pensarmos esta questão do entrelaçamento entre tradução e transmissão. Ao retomar o caso Dora, Ernani chamou a atenção para uma escolha tradutória: “A histérica sofre de reminiscências”. Isto que chegou até nós e que circula amplamente na nossa forma de falar da histeria e do feminino. Todavia, o tradutor nos surpreendeu demonstrando como a tradução mais justa seria “O histérico sofre de reminiscências”, problematizando a questão do feminino na obra freudiana e vieses produzidos por escolhas tradutórias e seus efeitos não negligenciáveis na transmissão da psicanálise.
Fica o convite para todos poderem se deliciar com esta rica troca precipitada pela presença destes quatro tradutores que tanto contribuíram para o campo psicanalítico, pela presença de um editor psicanalista que se engajou na transmissão da psicanálise, e por todo o público que tanto contribuiu com questões instigantes. Evento que não teria sido possível sem o apoio administrativo de Claudia Dametta e sem a participação ativa da psicanalista Cristina Petry – articuladora da Área de Eventos no Conselho de Direção – que foi indispensável para que toda essa inestimável troca de ideias ocorresse com tanto vigor.


__________
[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em nome da Comissão Organizadora do evento.
[2] A gravação deste evento está disponível em: https://youtu.be/-kuDKqjmfz0?si=gSDsYwXwUlSGipFT
[3] Traduzir Freud, com Paulo César de Souza. Vídeo disponível em: https://youtu.be/TFfAPy_eQzc?si=9Nl2EYN4mj_zyEEf. Traduzir Freud: encontro com Paulo César de Souza foi matéria de autoria de Vera Maier Dayan e Nelson da Silva Jr., publicada no Boletim online 12, abril de 2010, disponível aqui: https://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/index.php?apg=b_visor&pub=12&ordem=4&origem=abertas&itema=25
[4] Vale a leitura de resenha recentemente publicada pelo palestrante do evento André Carone na revista Percurso. Texto de André Carone “A tradução no meio do caminho”, Percurso (76): 145-148. Atualmente apenas disponível na versão impressa da revista.