Interfaces da nutrição e da psicanálise na clínica das problemáticas alimentares
por Camila Junqueira[1]
Em 21 de Fevereiro de 2025, as professoras do curso de extensão A abordagem psicanalítica das problemáticas alimentares reuniram quatro convidadas muito especiais: Daniella Saad, Natália Vignoli, Danielle Fontes e Renata Monteiro, para discutir as Interfaces entre a Nutrição e a Psicanálise. As quatro convidadas são nutricionistas e ex-alunas do curso, têm formação em psicanálise e atualmente fazem parte da Rede de Estudo e Escuta Psicanalítica das Problemáticas Alimentares – @reep_pa.
O curso nasceu no seio de um grupo de trabalho do Departamento de Psicanálise, o Projeto de pesquisa e clínica psicanalítica das problemáticas alimentares, que acontece no Departamento de Psicanálise desde o ano 2000, e é ministrado por:Camila Junqueira, Débora Felgueiras, Liliane Mendonça, Mabel Casakin, Maria Castanheira, Renata Gaspar e Rose Rossetti, todas membros do Departamento de Psicanálise deste Instituto, e esse ano, se juntam a nós, Juliana Farah, também membro do Departamento de Psicanálise e Renata Monteiro, da Universidade de Brasília.
O atendimento dos casos sempre foi o eixo fundamental no nosso trabalho. Nós recebíamos pacientes por procura espontânea e casos encaminhados pelos ambulatórios médicos que existem em São Paulo: Proata, Ambulim e Protad. Casos que depois de uma primeira abordagem médica, com internação por vezes, tinham indicação de psicoterapia de longo prazo. Mas sempre sentíamos uma grande dificuldade em discutir os casos em equipe, pois grande parte dos profissionais era composta por médicos, nutricionistas e psicólogos que trabalhavam a partir da abordagem comportamental e desconheciam as bases do pensamento psicanalítico, e a importância do inconsciente para mudanças mais consistentes do comportamento alimentar. E foi com o objetivo de apresentarmos a abordagem psicanalítica das problemáticas alimentares para profissionais da área da saúde que demos início ao curso em 2019. Esse ano o curso irá ganhar um segundo módulo de aulas, com ênfase no trabalho interdisciplinar e multiprofissional.
Comportamentos alimentares disfuncionais, a anorexia, a bulimia, e a compulsão alimentar, entre outros, às vezes menos evidentes, como ´beliscadores´, compensadores, comedores emocionais etc., podem levar à perda ou ao ganho de gordura corporal. A nós, psicanalistas, cabe compreender os determinantes inconscientes desses comportamentos que levam o sujeito a repeti-los, ainda que lhe tragam sofrimentos. À análise cabe implicar o sujeito com seu sintoma e ajudá-lo a compreender o que tem de gozo, o que tem de mensagem e o que tem de falta de capacidade simbólica em sua montagem sintomática. Sem esclarecer o que há na ‘base do iceberg’, os sujeitos dificilmente vão poder realizar mudanças consistentes em seus comportamentos alimentares.
Contudo, estudando os comportamentos alimentares, que muitas vezes encontram traços de fixações na fase oral, vemos que suas bases são de difícil acesso. A introdução alimentar, e muito de suas marcas mnêmicas, fazem parte daquilo que René Roussillon tem denominado de arcaico, e que deve ser diferenciado do infantil, pois foi instalado antes da linguagem ter sido bem estabelecida e carrega quase tão somente marcas mnêmicas sensoriais. Essa é umas das razões pelas quais as problemáticas alimentares nos impõem, frequentemente, uma abordagem interdisciplinar, em que o trabalho com abordagem nutricional transcende os casos em que há uma urgência orgânica (mais comumente em anorexias e bulimias) nos quais, a Nutrição garantirá a vida do paciente enquanto a análise opera. A abordagem alimentar e nutricional encontrará um vasto campo de trabalho nas diferentes sintomáticas alimentares, no qual a atenção nutricional poderá ser catalisadora de insights, de lembranças e de emoções que podem ser articuladas no processo analítico e nutricional.
Para estimular o debate acerca das interfaces entre o trabalho analítico e nutricional, fiz algumas perguntas para as convidadas:
Camila Junqueira: Quais os limites da Nutrição ou quando eu encaminho para o psicanalista?
Daniella Ribeiro Saad: A formação do nutricionista é realizada em cinco anos e possui base generalista. Isso quer dizer que é fundamentada no estudo da relação intrínseca entre o sujeito, o ambiente e a alimentação. Essa perspectiva amplia o escopo de atuação do nutricionista para além da prescrição dietética, convocando-o a reconhecer as múltiplas dimensões — biológicas, sociais, culturais, históricas e psíquicas — que compõem o ato de se alimentar. No entanto, mesmo sendo um profissional capacitado para escutar e intervir de forma integral no cuidado alimentar, é fundamental reconhecer que, no âmbito das problemáticas alimentares, o trabalho em rede, de forma multiprofissional e interdisciplinar, pode potencializar o tratamento e favorecer a recuperação da saúde das pessoas que apresentam sofrimentos relacionados ao corpo e à alimentação.
A prática clínica em Nutrição frequentemente confronta o profissional com manifestações de sofrimento que se apresentam de maneira intensa e que demandam a escuta acurada de diversos profissionais envolvidos no cuidado em saúde. Sintomas como restrições alimentares severas, compulsões, uso da comida como estratégia de regulação emocional, negação persistente do estado nutricional e distorções da imagem corporal podem apontar para uma dinâmica subjetiva que exige um manejo específico, próprio do campo da saúde mental. Nestes casos, a escuta do nutricionista é fundamental e deve ser acompanhada do discernimento de que tais manifestações são, muitas vezes, expressões de um sofrimento psíquico que não se resolve apenas pela via da reeducação alimentar ou da intervenção nutricional isolada. É necessário que a equipe trabalhe conjuntamente para a recuperação da saúde daquele que a procura ou que vem encaminhado por alguém da rede de apoio social, como familiares, amigos ou professores.
A escuta qualificada pode auxiliar no encaminhamento e no compartilhamento do cuidado entre profissionais da rede, uma vez que a relação com a comida ocupa uma função que extrapola as dimensões nutricionais e comunica, como toda linguagem, mecanismos de defesa que expressam excessos, vazios e outros sintomas psíquicos. Tal como ocorre nas problemáticas alimentares, nas quais o corpo e a alimentação são utilizados como palco de conflitos inconscientes, muitas vezes profundos e inacessíveis por outras vias. Nesses contextos, o sintoma alimentar deve ser escutado em sua singularidade, e o acompanhamento psicanalítico pode oferecer ao sujeito um espaço para elaborar os sentidos inconscientes de seu sofrimento.
Reconhecer os limites profissionais não representa uma fragilidade de cada profissão, mas uma demonstração de maturidade ética e técnica. O cuidado integral preconizado pelas Diretrizes Curriculares do Curso de Nutrição propõe uma atuação interprofissional e interdisciplinar, com respeito às especificidades de cada campo. Ao encaminhar o paciente a um colega psicanalista ou outro profissional da rede de cuidados especializada no atendimento a pessoas com transtornos alimentares, o nutricionista reafirma sua função como parte de uma rede de cuidado que visa a promover a saúde de forma complexa, crítica e humanizada, possibilitando ao paciente construir seu caminho de saúde e de alteridade.
Por fim, vale destacar que o encaminhamento não significa afastamento ou ruptura do vínculo, mas, ao contrário, pode fortalecer o cuidado compartilhado. O diálogo entre nutricionista, psicanalista e demais profissionais, quando possível e autorizado pelo paciente, favorece uma compreensão ampliada do quadro clínico e sustenta um projeto terapêutico mais consistente. Nesse sentido, reconhecer quando encaminhar é parte constitutiva da ética do cuidado em Nutrição: um cuidado que escuta, reconhece seus limites e aposta na construção conjunta de caminhos possíveis para o sujeito.
Camila Junqueira: Quais os limites da Psicanálise ou quando eu encaminho para o nutricionista?
Natália Vignoli: Há algum tempo o conceito de saúde tem sido associado com um valor moral, responsabilidade única e exclusiva do indivíduo, em uma lógica que acompanha a política neoliberal e meritocrata. Fábio Herrmann e Marion Minerbo, em seu artigo “Creme e Castigo”, de 1998, discorrem de maneira brilhante sobre como a moral na sociedade passou do sexo para a comida e, acredito que nesta mesma lógica, a saúde entra como moeda social de quem é mais ou menos digno de respeito na sociedade, afinal, “querer é poder”.
Saddi, no artigo “Mentalidade de dieta, controle social do corpo e clima contemporâneo”, em 2020, passa pela história do corpo e traz à tona o conceito de “corpo máquina”. Segundo a psicanalista:
“Contamos calorias, controlamos inputs e outputs, calculamos massa magra, gorda etc. Nos exercitamos sob a égide de parâmetros científicos para obtermos resultados” p. 218.
É impossível não associar esses aspectos à maneira pela qual a comida é hoje entendida pela maior parte da sociedade. As pessoas não se alimentam mais de comida, mas sim de nutrientes. Existe uma desconexão profunda relacionada à cultura bem como os rituais que muitas vezes identificam famílias, culturas e povos – a comida fazia parte disso.
Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a definição de alimento se dá como:
“Toda substância que se ingere no estado natural, semi-elaborado ou elaborado, destinada ao consumo humano, incluindo bebidas e substâncias utilizadas em sua elaboração, preparo ou tratamento”.
Neste sentido podemos pensar que desde uma pedra de gelo, de um suplemento de vitaminas, até uma macarronada podem ser considerados alimentos, estando todos eles em pé de igualdade em relação ao seu significado. Contudo, ao dizermos “macarronada”, “kafta”, “sushi” e “bacalhoada”, por exemplo, entramos em uma cadeia significante cujas palavras carregam consigo outros significados, individuais, subjetivos e culturais, por exemplo: posso pensar em macarronada e isso ter o significado na minha experiência, de “domingos em família, descendência italiana, avó e pai”.
A comida é isso, traz consigo toda a sua associação cultural e vivência subjetiva cuja definição de “alimento” não é capaz de dar conta. A doutora em psicologia e psicanalista, pesquisadora da temática de Problemáticas Alimentares Camila Junqueira, em sua ilustre participação no programa “Café Filosófico” na data de 6 de maio de 2025 (https://www.youtube.com/watch?v=T8pelK-fOfQ), explanou de maneira brilhante sobre o enfraquecimento das instituições (como família, cultura e grupos) e o seu impacto na maneira como nos alimentamos. Comer está perdendo o sentido “civilizatório” e passando para uma mera equação de déficit ou superávit calórico, como se um sujeito funcionasse como um ornamento contábil.
Diferente do “corpo máquina”, estar em sociedade e inseridos na cultura, através da cadeia significante, nos faz dar sentido ao nosso ato de comer. Comemos porque estamos felizes, tristes, com fome, pois estamos em grupo ou mesmo porque não temos o que fazer. Ainda assim, inseridos na linguagem, é possível trabalhar sobre essas maneiras através das quais a comida aparece, associando-as a marcas mnêmicas, impressas desde a mais tenra idade, sob a esperança do reencontro da primeira ilusão de completude e satisfação, impossível de ser novamente alcançada.
Segundo a professora doutora Marle Alvarenga, uma das fundadoras do Instituto de Nutrição Comportamental e nutricionista referência nos estudos sobre Comportamento Alimentar:
“A comida tem funções simbólicas tão importantes quanto às funções nutricionais. As necessidades nutricionais devem ser atingidas juntamente com as necessidades culturais e simbólicas. Obter os nutrientes sem atender às necessidades culturais e simbólicas não é saudável. Somente a comida pode atender a estas duas necessidades”.
Tratar o corpo de maneira mecanizada, o ato de alimentar-se como uma mera equação e a saúde como um simples resultado dessas ações, têm colaborado para que os indivíduos se desconectem cada vez mais da sua cultura, dos seus sinais internos de fome, saciedade, da identificação de suas preferências alimentares, dos seus sentimentos e, invariavelmente, da sua história e cultura, levando-os a um grande adoecimento psíquico, à falta de identidade e a uma profunda angústia em que ninguém mais consegue falar de si ou sobre si sem o auxílio de nomeações externas, muitas vezes advindas de agentes da saúde posicionados no discurso do mestre, na ilusão de que podem inferir sobre o sujeito de forma mais certeira do que ele mesmo.
Camila Junqueira: Dani, quando você, formada em nutrição, decidiu estudar psicanálise?
Danielle Fontes: Nessa pergunta tem muito de mim mesma… eu só me lembrava daquela música do João Nogueira, O poder da criação. Ele dizia:
“Não, ninguém faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação”
Ninguém faz psicanálise só porque prefere.
Me formei como nutricionista em 2008, e minha vontade de estudar os alimentos, claramente veio por uma falta que tinha na minha casa. Falta de ‘comida de verdade’, tínhamos um excesso de industrializados junto com um estigma de gordofobia muito forte pela minha mãe. Sempre digo isso, ela me ajudou a escolher a minha profissão. Quando fiz nutrição me encantei pela parte química, e física dos alimentos, como isso poderia modular nosso organismo, nossas células. Mas foi quando eu comecei a atender aglomerado de células, digo: humanos, fui entendendo que esse conjunto de células e órgãos não respondia da maneira que queríamos, como no laboratório.
Em 2013/2014 minha mãe teve um câncer de intestino e eu, por sintomas de intestino irritável, comecei a fazer uma terapia de psicanálise. Eu ainda não sabia o que era inconsciente, não tinha ideia. Mas depois de 5 anos a dor física do corpo foi embora, e eu entendi o que era inconsciente na minha pele.
Atendendo como nutri, eu comecei a perceber que muitos pacientes não queriam me contar o que eles tinham almoçado ontem. Eu perguntava sobre a alimentação, mas eles só me contavam sobre a separação com o marido, sobre a frustração do trabalho, ou ainda, sobre o desejo de ser mais bonito ou mais magro. Comprei minha primeira caixinha de lenços. E deixava o paciente falar e chorar.
Naquele momento, eu entendi também que não se muda um comportamento só porque queremos. Muitas vezes, nem sabemos que temos aquele comportamento. Então nos casos dos pacientes com exagero alimentar, ou beliscadores, ou compulsivos. Nem sempre eles conheciam ou sabiam como começava ou porque tinham aquele comportamento. Eu já percebia que o paciente me dizia algo inclusive quando ele não dizia nada. A minha clínica se modificou tanto nesse período, eu não conseguia aplicar o mesmo protocolo em todos …
No dia 12 de novembro de 2017 tive uma aula com o psicanalista Daniel Roizman com o tema Psicanálise lacaniana: signo, significado e significantes – Recorte no comer linguagem. Onde ele falava bastante sobre o livro dele A obesidade não-toda, ou quando a gordura fala.
Nessa mesma época, atendi um caso marcante nessa mudança de pensamento clínico. Uma adolescente com um quadro de ortorexia que não conseguia comer nada que não fosse, por ela, considerado saudável. Ao ponto de desmaiar em viagens com amigas. Tinha muita dificuldade de se expressar, e eu a chamei para sentar-se no sofá (ao invés da mesa de consultório tradicional) e começamos a conversar de outras coisas, aos poucos, e que não fosse sobre a comida… e foi então que decidi estudar psicanálise!
Em 2022 eu entrei na formação do CEP e logo encontrei a Camila num vídeo de divulgação sobre o curso de Problemáticas alimentares. E então, em 2023 fiz o curso de Problemáticas alimentares e me apaixonei ainda mais pela psicanálise, tinha encontrado a minha clínica. As aulas começaram a fazer sentido.
Foi assim, a clínica foi buscar a teoria.
Nos últimos 2 anos, com as supervisões e grupos de estudos, com a formação finalizada com o projeto da REEPPA, também venho aprendendo a distinguir mais onde começa uma e termina a outra atividade que faço. Claro que eu sou a mistura disso, mas na minha clínica respeitamos o lado de cada profissional.
Como nutri, posso dizer que estudar psicanálise mudou como eu escuto, como eu ajo com o paciente e como posso intervir na relação com a comida. Como psicanalista em formação, posso dizer que amei ter entrado na psicanálise através da linguagem da alimentação e da comida afetiva.
Camila Junqueira: Renata, conta para a gente como tem sido o trabalho de supervisão psicanalítica com as nutricionistas que atuam com pacientes com transtornos alimentares?
Renata Monteiro: O trabalho de supervisão psicanalítica com nutricionistas que atuam com problemáticas alimentares tem se consolidado como um espaço formativo potente, contribuindo para a construção de uma clínica crítica e qualificada diante da complexidade que envolve o cuidado nutricional nesse campo. Esse processo, ancorado na escuta psicanalítica, permite que as nutricionistas ampliem sua compreensão sobre os sentidos subjetivos do comer, integrando os aspectos psíquicos, culturais e relacionais da alimentação aos saberes técnico-científicos da área. A proposta se alinha de modo profundo aos princípios que orientam o perfil do nutricionista egresso, conforme definido nas Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Nutrição, especialmente no que tange à valorização da interdisciplinaridade, da ética, da escuta humanizada e da compreensão ampliada dos determinantes da saúde.
A supervisão, nessa abordagem, é sustentada pelo tripé da formação psicanalítica: análise pessoal, estudo teórico e supervisão clínica. Ela se propõe a oferecer um espaço de elaboração das experiências clínicas vividas pelas nutricionistas, promovendo não apenas a discussão de condutas, mas principalmente a reflexão sobre os efeitos transferenciais, sobre as escutas silenciadas e sobre os lugares ocupados na cena terapêutica. Com isso, o foco desloca-se da lógica normativo-prescritiva para uma ética do sujeito, que reconhece o sintoma alimentar como uma construção singular e, muitas vezes, como a única forma encontrada pelo sujeito para manejar angústias primitivas, afetos inomináveis e experiências de desamparo.
Essa perspectiva sustenta que o alimento, para além de seu valor nutricional, inscreve-se no campo do simbólico — podendo representar afeto, defesa, vazio, excesso, substituto ou linguagem. A compreensão do transtorno alimentar enquanto manifestação de um sofrimento psíquico profundo implica, portanto, uma escuta que não busca corrigir, mas acolher, interpretar e sustentar o sujeito em sua travessia. Nesse contexto, a supervisão psicanalítica fortalece o papel das nutricionistas como profissionais capazes de operar com a alteridade, com os afetos despertados no encontro com o outro e com os próprios limites e angústias mobilizados nesse encontro.
Além disso, nossa supervisão resgata a potência da formação crítica e emancipatória, como defendido nas Diretrizes Curriculares do Curso de Nutrição, oferecendo ferramentas para que as nutricionistas se posicionem eticamente frente aos discursos normativos da cultura da dieta, da medicalização do cuidado e da padronização dos corpos. A supervisão psicanalítica contribui significativamente para ampliar o olhar do profissional, ao considerar que o comportamento alimentar não se reduz a uma soma de nutrientes ou a um conjunto de hábitos, mas é expressão de conflitos psíquicos, históricos e sociais. Ela favorece a compreensão de que, muitas vezes, a alimentação é o meio que o sujeito encontra para lidar com angústias profundas, sendo o sintoma alimentar a melhor estratégia que encontrou para sobreviver subjetivamente.
Assim sendo, a supervisão psicanalítica com nutricionistas que atuam nas problemáticas alimentares tem possibilitado a construção de um cuidado mais humanizado, implicado e ético, em consonância com as diretrizes de formação que visam não apenas à prescrição dietética e à recuperação nutricional, mas a uma escuta do sujeito em sua complexidade. Trata-se, portanto, de um dispositivo que transforma a prática profissional ao promover um reposicionamento do profissional frente ao sofrimento, a relação com o alimento e ao corpo daqueles que nos procuram na clínica das problemáticas alimentares.
Nesse sentido, ao reconhecer o nutricionista como mais um intérprete de sentido, como membro de uma equipe multidisciplinar qualificada para a atenção às problemáticas alimentares e não apenas como prescritor de condutas, a supervisão, amparada pelo tripé psicanalítico, resgata a dimensão ética do cuidado. Isso se torna ainda mais relevante diante de um cenário marcado pela medicalização da saúde, pela cultura da dieta e pelo discurso da performance corporal, que reduzem a subjetividade a padrões normativos e produzem sofrimento psíquico. A supervisão propõe, então, um deslocamento: do controle para o acolhimento; da normatização para a singularidade; da fala sobre o corpo para a escuta do sujeito.
Por fim, ao promover o reconhecimento da transferência e do inconsciente na prática clínica, a supervisão amplia a capacidade do nutricionista de construir vínculos mais consistentes e de sustentar uma escuta comprometida com a alteridade. Assim, contribui diretamente para a prática de profissionais mais reflexivos, críticos e éticos, como propõe o perfil do egresso do curso de Nutrição, favorecendo práticas emancipatórias, interdisciplinares e transformadoras no campo da saúde e da alimentação.
* * *
Camila Junqueira, psicóloga, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Sedes, doutora e pós-doutora pelo IPUSP, professora e coordenadora do curso de extensão: A abordagem psicanalítica das problemáticas alimentares, supervisora clínica e coordenadora da REEPPA.
Daniella Ribeiro Saad, nutricionista pela Universidade Federal de Viçosa-UFV, aprimorada no Programa de Transtornos Alimentares AMBULIM do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP, e ex-aluna do nosso curso de Problemáticas Alimentares, fez formação psicanalítica pelo Centro de Estudos Psicanalíticos – CEP, formação em Observação de bebês pelo método Esther Bick no Instituto de Psicologia-IPSI-PoA e é filiada ao Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicottiana – IBPW. Membro da REEPPA, atende em consultório particular na Vila Mariana em São Paulo.
Natália Vignoli, nutricionista, com mestrado na área, pós-graduada em nutrição funcional pelo Instituto Valéria Pascoal, pós-graduada em nutrição materno infantil, aprimorada no Programa de TA do Ambulim do IPQ-HC-FMUSP, com formação em comer intuitivo, membro do grupo Endangered Bodies, do grupo Corpo e cultura e da REEPPA. Psicanalista com formação pelo CEP, atua em escolas e em consultório particular com jovens e adultos em Perdizes/Pompeia.
Danielle Fontes, nutricionista, mestre pela FMUSP, com especialização em terapia nutricional pelo GANEP, e fitoterapia funcional pelo Instituto VP, e em cuidados integrativos pela UNIFESP. Psicanalista com formação pelo CEP. Membro da REEPPA e atende em consultório particular em Perdizes/Pompéia.
Renata Monteiro, nutricionista, psicóloga e psicanalista. É mestre em Nutrição Humana e doutora em Psicologia Social pela UNB. Pós-doutora pela Escola de Nutrição da UFBA. Com especialização em Educação em Saúde (UnB) e em Políticas Públicas (UNICAMP). Professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Ciências da Saúde da UnB. Coordenadora do Núcleo de Estudos Psicanalíticos das Sintomáticas Corporais, Alimentares e Vulnerabilidades do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da UnB. Supervisora clínica na Rede de Estudo e Escuta Psicanalítica das Problemáticas Alimentares (REEPPA).
__________
[1] Psicóloga, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora e pós-doutora pelo IPUSP, professora e coordenadora do curso de extensão A abordagem psicanalítica das problemáticas alimentares, supervisora clínica e coordenadora da REEPPA.