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Encontro do quarto ano do curso de Psicanálise sobre o Departamento e perspectiva de formação continuada

por Cleide Monteiro e Moisés Rodrigues[1]

 

 

A proposta de uma reunião, próxima ao final do ano letivo, com os alunos(as) do 4º ano do curso de Psicanálise, que realizamos há anos, tem o propósito de apresentar a perspectiva de formação continuada que o Departamento de Psicanálise proporciona através da Área de Formação Contínua, que contempla os grupos de trabalho/estudo.

Neste ano, iniciamos o processo levando à turma a proposta da criação conjunta da pauta com temas que gostariam de ver contemplados e, assim, elaboramos a agenda do encontro com 4 tempos:

  1. Apresentação do Departamento de Psicanálise com uma fala de Fátima Vicente sobre a história e as oportunidades atualmente oferecidas;
  2. Apresentação de dois Grupos de Trabalho com vagas disponíveis e ações específicas e colaborativas: Faces do traumático, apresentado por Camila Munhoz e Angelina Cabral e Famílias no século XXI, apresentado por Adriana Dias e Ana Raquel Ribeiro;
  3. Compartilhamento da listagem atualizada de Grupos de Trabalho com vagas abertas neste momento;
  4. Conversa aberta.

 

A seguir apresentamos o relato de uma professora e de um aluno sobre a reunião e, ao final, de forma resumida, os encaminhamentos da reunião.

Começamos com o relato do Bruno Spadoni:

“Quando saí de casa para ir à última reunião do curso de Psicanálise, ainda não tinha me dado conta que a última reunião indicava um encerramento. A reunião estava cheia. Vi alguns colegas que não via há tempos, por não fazermos seminários no mesmo dia e horário. Questões de terça ou quinta, próprias do curso. Colegas do mesmo ano de curso, mas que conheci nas reuniões anuais ou em algum bar e encontros que fizemos para a nossa integração durante esses 4 anos. Vi novos rostos também. Duas duplas de psicanalistas que vieram à reunião para contar como é a vida depois que o curso acaba. Elas contaram sobre seus percursos dentro do Departamento de Psicanálise. Inspiração pra mim que sou aspirante a membro do Departamento. Elas apresentaram os grupos de trabalho Famílias no século XXI e Faces do traumático. E o que me chamou a atenção é que os grupos de trabalho trabalham mesmo, para além de elaborações teóricas, há intervenções e projetos junto a grupos da sociedade civil. O tom de encerramento foi ficando maior dentro de mim, como eu quero trabalhar quando o curso acabar? Falamos sobre o processo para ser membro no Departamento de Psicanálise, o pertencimento institucional e os vínculos que continuam. Colegas levantaram a discussão sobre a psicanálise leiga e quais são garantias que um psicanalista tem, visto que não há uma formalização de nossa atividade na sociedade. A palavra circulou. Questões, atravessamentos, afetações. Vi um grupo. Na última reunião do curso percebi em mim a vontade de continuar explorando outros espaços dentro do Departamento de Psicanálise. Espaços que parecem ser tão heterogêneos quanto minha turma é. Vi que o que se encerra é um ciclo. Minha formação não termina. Apesar da falta ser inevitável, o convívio com a turma e a frequência no Sedes. Novos espaços se abrem para encontros e reencontros. Sinto autonomia. E ao sair da reunião, voltamos ao bar onde íamos no começo do curso. Ali me vi tão diferente. Fui me dando conta que há novos espaços para serem explorados dentro de mim também.”

E seguimos com o relato da Fatima Vicente:

“A reunião com a turma deste quarto ano me trouxe uma questão inesperada.

Repentinamente, me dei conta de uma dimensão própria ao término desse trajeto para eles, que nunca se havia presentificado para mim.

Trata-se de uma ansiedade que compreendi relacionada à possibilidade de não encontrarem um lugar de exercício da psicanálise em que sejam reconhecidos como psicanalistas legítimos.

A questão veio sob a roupagem da falta de garantias para psicanalistas que não são psicólogos (as), pois isso os(as) impede de fornecer Notas Fiscais ou Recibos que garantam ao cliente o reembolso pelos Planos de Saúde, reembolso que é, com frequência, colocado como imprescindível para o começo do tratamento.

A saída que lhes pareceria viável seria a “regulamentação da profissão de psicanalista”, assunto que se encontrava sob discussão no Congresso brasileiro por aqueles dias.

Eles nos interpelaram quanto às nossas posições…

Até aí, minha surpresa.

O que veio depois trazer mais uma camada do inesperado e, junto com isso, um cair em si que me sobreveio.

Pois, ao “escutar mal” uma interrogação de um dos alunos sobre o assunto, me ponho a explanar sobre o histórico da criação do Movimento Articulação e nosso compromisso com a não-regulamentação da Psicanálise.

Ao me dar conta do lugar equivocado dessa minha fala, fiquei desconcertada!

Levei um tempo para perceber quão radical passa a ser, pelo menos para mim, a disposição a ouvir esses jovens colegas em formação, alunos do Curso, para poder me atualizar quanto aos assuntos que os afligem.

Principalmente, porque em causa está o futuro de cada um e cada um deles, e o da Psicanálise, uma vez que serão eles que levarão adiante o que lhes tivermos podido transmitir.

Como abrir espaços que favoreçam a escuta e a fala dessas novas questões?

Eu não sei, apenas acredito que poderemos saber/fazer isso juntos. E que seja em breve!”

E, finalmente, foram lançados dois desafios de elaboração de GTs no Departamento, o primeiro formulado por Rafael R. Martins, que propôs “um GT onde pudéssemos pensar a psicanálise de forma historicizada e territorializada, atravessada por marcadores sociais da diferença, como raça, classe, gênero, orientação sexual, território e geração. Mesmo reconhecendo que já existem GTs que se debruçam sobre essas questões, como o A Cor do Mal-Estar e o Generidades, sinto falta de um espaço que se proponha a ser mais interseccional. Acredito que, além da participação nos GTs já existentes, a criação desse novo grupo possa contribuir para a oxigenação do Departamento e para a vitalidade da psicanálise.”

A seguir, Luiza Godoy coloca: “a questão da análise leiga se coloca enquanto uma demanda importante deste grupo pela sua composição, mas não só, entendemos que importa a nós como um todo. A radicalidade vem, no entanto, da presença de muitos analistas não médicos(as) ou psicólogos(as) nessa turma que se forma, assim, as questões que se colocam são da ordem de uma discussão que é também bastante concreta para nós: quais as condições de trabalho para esses(as) analistas, qual o amparo?”

Paula Martinelli formula a segunda proposta: “para isso, sugiro um GT que participe ativamente nesse âmbito de especificidade e na representação de nossa instituição em discussões como as do Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas. Se o Sedes acolhe analistas não médicos(as) ou psicólogos(as) na condição de alunos(as) e de membros, eles precisam ser considerados e representados nos debates que os concernem diretamente.”

Ficam, assim, delineadas importantes sugestões que brotaram de questões que são de todos nós.

 

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[1] Psicanalistas, membros do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professores no Curso de Psicanálise.

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