Por uma psicanálise das travessias
Oggy Nzazi Barbosa Zizo[1]
Laurie Laufer nos ensinou que a psicanálise não é um espelho, mas um abismo —
um lugar onde o sujeito cai, e ao cair, se inventa.
Ela diz que o inconsciente é o território da subversão,
aquele em que o corpo e a palavra se desencontram,
e é nesse desencontro que nasce o desejo.
Nós, pessoas trans, sabemos disso com o corpo.
Sabemos que viver é escutar o que o mundo não quer ouvir,
é reinventar o nome, o gesto, o gênero e o fôlego.
Somos a própria elaboração do que a psicanálise propõe:
a travessia de um significante a outro,
a aposta no sujeito que fala, mesmo quando o Outro cala.
Mas como sustentar uma psicanálise viva
se nossos corpos ainda são barrados à sua porta?
Como falar de escuta se a formação continua a reproduzir silêncios?
As cotas trans no Sedes Sapientiae não são benevolência —
são ética.
São o reconhecimento de que a escuta precisa de todas as vozes
para continuar sendo escuta.
Laurie Laufer fala da “subversão do gênero”
como gesto clínico e político,
como resistência à captura,
como furo na lógica binária que sustenta a exclusão.
Ela nos convida a pensar uma psicanálise que não tema o devir,
que se deixe atravessar pelo desejo que escapa à norma.
Essa é a psicanálise que queremos habitar —
aquela que não cura a diferença, mas a acolhe como potência.
Cotas trans são o dispositivo simbólico dessa escuta.
Elas afirmam que o inconsciente não tem gênero,
mas que a história tem, e que a formação psicanalítica precisa reconhecê-lo.
Garantir nosso acesso é devolver à psicanálise o que ela tem de mais verdadeiro:
a coragem de ouvir o impossível.
Que o Sedes continue sendo casa de pensamento,
mas que também se torne casa de corpos,
de presenças, de palavras que ainda não foram ditas.
Porque cada corpo trans que atravessa uma instituição
abre nela uma nova possibilidade de escuta —
e, talvez, um novo modo de amar o inconsciente.
São Paulo, 30 de Outubro de 2025
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[1] Participante do grupo Generidades.