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O que eu faço com a agressividade do outro?[1]

por Camila Flaborea[2]

 

Foi preciso ir ao centro da terra para poder ver. A terra dá, a terra quer. O que eu faço com a agressividade do outro, o que eu faço com a minha agressividade? O que eu faço com o desejo do outro, o que eu faço com o meu desejar?

Cito Carlinhos Brown: “É o tambor que faz o santo baixar”. Tum-tum tum-tum tum-tum. Bateria, ritmo, coração, sangue, sexo, vida, morte, luta, vida, convocação.

Corpos tristes são facilmente domáveis, dóceis. Paralisia, luta, força, músculo, língua, pulso. Tum-tum-tum-tum-tum.

Lágrimas nos olhos. Não quero olhar, preciso olhar, eu quero olhar: (A)brigar.

Perdi a bússola. Perdi o norte. Cadê eu? Deslocada, chamada. Olha e vê. Mulher pequena, mulher gigante.

Finalmente, um alívio: a dança em movimentos contínuos, respiro um pouco aliviada. Também posso, também cabe. Também podemos. Tum-tum-tum-tum. Achar um contínuo no ritmo, no tempo, no contratempo, uma linha, uma curva de rio, algum refúgio. Estou refugando?

Mundo enfermo, enfermaria nossa. Cadê cuidado? Cadê cura? Nos querem tristes, ou mortas. Cadê brecha?

Gesto parado no ar. Gesto expressivo, não-calado. Tem brecha, tum-tum-tum-tum, tem vida, tô viva. Cansada, moída. Ainda tenho o que dar? Ainda consigo lutar? Como lutar? Empatia: substantivo feminino.

Vem, Oyá. Põe teu vento em movimento, não nos deixeis estagnar, nem agora nem na hora de nossa morte, amém. Quando uma de nós morre, morremos todas um pouco. Vem, búfala, nos empresta sua força. A terra dá, você dá – por favor, dê. Sozinha, não posso. Não podemos. E se ela dá, ela quer.  “O que a vida quer da gente é coragem”.

Às vezes, fico cansada de ter coragem, não queria precisar.

No centro da terra, o útero. A fonte. A marca da histérica. Cansada. Me deixa falar, nos deixem falar. O que quer uma mulher? Ora, direis, ouvir estrelas é requinte de quem não precisa lutar para estar viva. Será? Nossas meninas, mulheres, velhas podem sonhar em ouvir estrelas? Lá, no centro da terra, Anna Luiza Marques nos diz que a força que nos sustenta é coletiva. Coração bate em bloco, uma luta e outra descansa, e depois troca. E depois junta, e depois paralisa, e depois recomeça. Recomeçamos, recomecemos.

Tum-tum-tum-tum. “Armada com as armas de Jorge”, ela canta. Ela é pequena e imensa. Ela é forte e suave. Mulher e búfala. É ela, e somos nós. Obrigada, Anninha, por nos convocar e reconvocar. Obrigada aos coletivos reunidos neste momento em luta por nós.

Os bichos escrotos saíram dos esgotos. Nos querem tristes e mansas. Lá, no teatro do centro da terra, nessa caixa mágica que é o teatro, na terceira margem do rio, brota uma nova insurgência. Que ela transborde e ocupe todo o leito e todas as margens. Na mitologia yorubá, Iansã e Oxum são grandes amigas. Às mulheres múltiplas, guerreiras e doces, à mãe terra, uma reverência. Respeito, cuidado, nunca posse. Corpo-manifesto é político. Luta, suavidade, vida e alegria. Sexo e poesia. Sim, queremos tudo. E isso é apenas o básico[3].

 

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[1] O título do espetáculo O que eu faço com a agressividade do outro foi aqui transformado em pergunta disparadora das reflexões da autora. Este solo de Anna Luiza Marques (@annaluizamarques), com curadoria de dança de Diogo Granato (@diogogranato), aconteceu em São Paulo, no Teatro do Centro da Terra, nos dias 19, 20, 26 e 27 de março de 2026. Também é de Anna Luiza Marques a produção, a pesquisa e o desenho de som. A trilha sonora foi gravada por Lucas Pereira (@lucasb.pereira).

[2] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, interlocutora do grupo Comunidade de destino e professora no curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma.

[3] Essas palavras contêm palavras de outras mulheres, numa tentativa de elaboração da força do espetáculo que compartilhamos e da dureza dos dias que temos vivido. Obrigada às dançantes Andrea, Beth, Bia, Clara, Naira, Silvia e Teté. Obrigada à Cláudia Mello por ser quem guia esses passos. “Dancem, dancem, se não estaremos perdidas.” (Pina Bausch).

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