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Sobre Capturas do sofrimento. Corpo, alimentação e ideais na clínica psicanalítica, de Maria Helena Fernandes

por Maria Elisa Pessoa Labaki[1]

 

Bom dia a todos e todas. Em primeiro lugar, quero agradecer a Lena pelo convite para participar deste lançamento do seu 4º livro, Capturas do sofrimento. Corpo, alimentação e ideais na clínica psicanalítica, ao lado do querido amigo Rubens Volich.

Vou começar meus comentários tentando transmitir a grande honra e imensa alegria de estar hoje participando com você, e com todos aqui presentes, do lançamento desta nova obra sua. Este momento se revelou uma oportunidade de exprimir o meu carinho, o meu respeito e a minha admiração por você, amiga, mulher, psicanalista, autora, mãe, companheira, professora, supervisora. Logo que comecei a imaginar essa fala sobre o livro, lembrei de uma cena com a Lena que me acompanha, meio silenciosamente como um fundo, mas que nunca perdeu força dentro de mim. Num certo verão nas férias, a gente se encontrou na beira do mar e Lena me contou que dividia seu dia entre a praia e o livro que escrevia naquela ocasião – se não me engano, Transtornos alimentares, publicado em 2006 na coleção Clínica psicanalítica coordenada por Flávio Ferraz. Era janeiro, fazia bastante calor e a praia estava bem cheia e animada. Mar cristalino, sol a pino e vento soprando eram condições que não a impediam de trabalhar nas férias; ao contrário, estava dando meio período de si à praia, meio período à escrivaninha – dois objetos entre tantos investimentos de interesse. Entendi mais de perto o sentido oculto em seu texto “A mulher elástico” (Fernandes, 2006) – no que concerne à “elasticidade de sua (da mulher) organização libidinal e, consequentemente, a diversidade de suas possibilidades identitárias” (p. 30) – e vi, nos ecos que a leitura deste texto produziu, o quanto para mim você representa, além de fonte de inspiração, uma fonte de introjeção, bem à moda talhada por Ferenczi.

No momento em que eu passava em revista esta lembrança, percebi que eu estava inclinada a escrever um texto diferente daquele que eu havia planejado para esta celebração. Eu havia lido este novo livro, estudado alguns capítulos, sobretudo aqueles ainda desconhecidos para mim, e pretendia tecer uma apreciação sobre ele. Porém, vi que algo mais forte que vinha de dentro sussurrava no meu ouvido interno e me impelia a produzir um escrito mais pessoal que relatasse alguns momentos de nossa amizade e de encontros no campo de nossa parceria profissional. Decidi, assim, levar em consideração, escutando esse sopro que meu ouvido canalizou do coração.

Estávamos em 1986 e de cara surge o corredor do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Escola Paulista de Medicina (UNIFESP). Um corredor meio cinza, mas cheio de vida, por onde rolavam muitas coisas, como jogar conversa fora, trocas clínicas, combinados institucionais, fofocas e paqueras. Eu iniciava meu aprimoramento em Psicologia da Saúde e me sentia lá atônita, meio perdida. Que trânsito! Quanta gente! Lena, que era uma colega veterana do aprimoramento, recentemente alçada à posição de supervisora clínica no setor de Interconsulta, a mais nova deles, mostrou-se uma interlocutora preciosa. Minha transferência a essa colega supervisora, alimentada por sua desenvoltura relacional e pela paixão que ela nutria pela clínica psicanalítica praticada no hospital, certamente influiu na escolha, que eu viria a fazer alguns anos mais tarde, de assumir um estágio no setor de Interconsultas, por meio do qual me dediquei a escutar o sofrimento dos pacientes com AIDS, bem como dos profissionais impotentes que os tratavam naquela época de eclosão da pandemia. Movimento transferencial que percebo se dar também entre os jovens analistas que com ela têm ou tiveram a chance de estudar, nos espaços do Instituto Sedes Sapientiae, onde ela trabalha com a transmissão da psicanálise. De 1998 a 2013, no âmbito do curso de Psicossomática Psicanalítica e atualmente no curso de Psicanálise, onde está desde 2013.

Daí em diante, a fita das memórias não parou mais de se desenrolar. No início de 1991, Lena me convidou para substituí-la num curso que ministrava na antiga editora Casa do Psicólogo, na rua Alves Guimarães. Um curso intitulado “Psicologia nas instituições de saúde”. Lena estava à beira de realizar um de seus sonhos: estava indo estudar psicanálise na França e moraria em Paris. Precisava por isso encontrar um professor que a substituísse. Lembro-me de nosso encontro para conversarmos sobre o conteúdo do curso e do catatau de textos que ela me entregou em mãos, presos por uma grossa espiral preta. Era bem pesado e seria minha primeira experiência como professora numa área à qual eu vinha me dedicando! Me vi um tanto trêmula e aflita diante de uma dupla tarefa: por um lado, aceitar assumir um novo desafio profissional, que certamente seria bom para minha trajetória, e por outro não decepcionar minha amiga que, generosamente e na confiança, me convidava a este novo trabalho. Nascia ali um percurso profissional que segue seu rumo ainda hoje e que encontrou na Lena uma companheira e interlocutora constante e sem igual.

A outra lembrança data do início de 2001, época da defesa da minha dissertação de mestrado, quando eu a procurei para me ajudar a pensar no texto de apresentação a ser lido por mim na abertura dos trabalhos da defesa. Nunca vou esquecer a orientação que me deu para que eu recortasse todas as hipóteses contidas no texto da dissertação e as colocasse em destaque na apresentação do trabalho. Ela disse: “É nas hipóteses que o pensamento do autor ganha visibilidade e é através delas que as engrenagens do raciocínio por inferências se fazem conhecer por quem lê”. Os textos da Lena são exatamente assim. Realçam pari passu a lógica que rege e organiza seu pensamento e o leitor sente-se por isso guiado e acompanhado. Ela expõe os pontos de partida e as premissas que fundamentam suas proposições, bem como os elos que organizam os desdobramentos que, por fim, desembocam em outras e mais amplas hipóteses. Talento este que se propaga nas atividades do exercício da transmissão em psicanálise, seja no curso, nas conferências que profere ou nos artigos e ensaios que escreve.

Para encerrar este momento de relembrar, pesco no baú dos meus guardados o período entre 2002 e 2013, em que Lena e eu fomos parceiras no curso de Psicossomática Psicanalítica do Sedes, dando aula e supervisão junto com Rubens Volich e outros colegas presentes neste lançamento. Foi naquela ocasião que me dei conta do quão potente é sua capacidade de comunicação. Pernambucanos são mesmo talentosos na oratória e Lena não é exceção. Escutar Lena falar é como ouvir uma toada com todas as letras, palavras e versos, sem abreviação e num continuum, porque Lena fala como se estivesse escrevendo. A clareza e a articulação de seu pensamento pouco espaço dão a tropeços e interrupções. Seu raciocínio flui. Quando está expondo uma ideia, Lena nunca corre com a emissão da fala, mas imprime um ritmo pausado e constante, sugerindo colocar a escanteio interferências indesejáveis que possam se insinuar e atrapalhar seu fluxo. O tom é positivo e seu conteúdo, em geral, propositivo. Lena não desperdiça o verbo, mas quando decide emitir uma ideia ou opinião que possa acrescentar, não economiza também. Sem contar esse sotaque delicioso, essa sua prosódia meio xote e xaxado que, maleável, até se abriu para uma notinha que fosse da dura poesia concreta de tuas esquinas.  Afinal, São Paulo está em seu coração já há tantas décadas, não?

Uma prosinha agora sobre o livro. Ele é composto por oito artigos escritos ao longo de duas décadas, relacionados ao tema do corpo e da alimentação enquanto domínios que fazem valer os excessos e as tiranias dos ideais do sujeito contemporâneo. Estão inseridos no campo de pesquisa que abrange a articulação das três dimensões metapsicológicas do corpo a destinos psicopatológicos e a manejos clínicos e transferenciais específicos. Embora tenham sido publicados anteriormente em revistas, livros e coletâneas, a reunião deles em uma unidade organizada favorece ao leitor conhecer mais amplamente o pensamento psicanalítico de Maria Helena em sua plena potência. Juntos e na sequência em que foram dispostos, os artigos e ensaios não só se complementam, mas compõem sobretudo uma série contínua. Não são artigos estanques, mas inter-relacionados e articulados a um pensamento comum.

O primeiro capítulo vai apresentar um estudo sobre a construção do projeto metapsicológico freudiano, uma espécie de making of, por meio da correspondência trocada por Freud com Abraham e Lou Andreas-Salomé, buscando enfatizar as especificidades clínicas e metodológicas presentes no discurso freudiano. O capítulo dois abarca a problemática do corpo e da hipocondria, desenvolvida em sua tese de doutoramento, acompanhada pelo estudo, no capítulo três, da prevalência das formas corporais de sofrimento na atualidade. O capítulo quatro explora as especificidades das abordagens psicanalíticas do corpo, bem como seu lugar central na construção teórica freudiana, seguindo Freud no desenvolvimento de suas formulações. Já nos capítulos cinco e seis, Maria Helena põe em destaque algumas hipóteses, desenvolvidas em seu livro Transtornos alimentares, sobre anorexia e bulimia na clínica psicanalítica, especialmente no que concerne à relação do sujeito com seu corpo, sua imagem corporal e com a figura materna. E, para terminar, nos dois últimos capítulos encontramos elementos que articulam psicopatologia e cultura. No capítulo sete, o corpo, seus ideais e sua relação com a alimentação e, no oito, a questão do mal-estar feminino em sua relação com o corpo e com a maternidade.

Mas, a meu ver, é sobretudo na introdução do livro, na forma de um texto inédito, que Maria Helena oferece aos oito artigos o aporte libidinal para o amálgama pluridimensional que anima sua produção psicanalítica, escrita e oral. Estou me referindo a um relato historicizado de sua trajetória, uma espécie de biografia profissional contada por ela em primeira pessoa nesta introdução ao livro, na qual ela revela, além das cenas mais conhecidas, os ensaios e os bastidores que contam a história de suas buscas e realizações. Nela, ressalta suas escolhas e algumas conquistas profissionais. As construções que guiaram suas práticas clínicas e a rede de amizades e afetos que, à despeito do tempo e da distância, mantiveram-se conservadas durante sua estadia na França. Os interlocutores e professores, entre franceses e brasileiros, com quem ela escolheu ter aula e que a escolheram também. Entre eles, Pierre Fédida, que orientou seu mestrado e doutorado, André Green, Joyce McDougall, Daniel Widlocher, Jacques Derrida, Jean Laplanche, Monique Schneider, Maurice Dayan, Danielle Brun, Renato Mezan; os autores do IPSO como Pierre Marty, Michael Fain, Rosine Debray, Marilia Aisenstein; além de Joel Birman e Paul-Laurent Assoun, esses dois últimos com os quais discutiu individualmente o andamento de seu doutorado. Um time de estrelas que habitava a cena estudantil parisiense com suas bibliotecas, seus cafés esfumaçados, o vinho nacional, a sopa de cebola nos invernos em meio a muita conversa, a dissertação, a tese e duas gestações. Havia ali uma equação composta, ou uma série complementar, na qual à história pessoal somou-se uma história compartilhada que, por seu turno, resultou em uma biografia profissional. Nesta introdução, podemos ver a comunidade de pares e interlocutores, argamassas para a construção onde Maria Helena dá morada a seu pensamento psicanalítico. Fica claro que ela se sentiu bem acompanhada e que foi boa companhia também nos círculos sociais e profissionais que frequentou e que ajudou a sustentar.

Se, de um lado, o percurso formativo da Lena está pavimentado sobre relações mais verticais com alguns dos mestres de primeira grandeza do campo psicanalítico, seja no exterior ou no Brasil; de outro, seu estilo amigo, atravessado por uma inclinação genuinamente horizontal, em sua forma de estar no mundo e de trabalhar junto, me lembrou a noção de “comunidade de destino” (p. 91) colocada por Ferenczi (1932) em seu Diário clínico, na passagem em que reenquadra sua proposta de analisar a criança que existe no adulto, a partir da renúncia do analista à sua posição de autoridade, dada por sua consciência de partilhar do mesmo destino ao qual está submetido seu paciente. Neste sentido, os professores, colegas e amigos do Brasil são apontados por ela como parte fundacional de sua “trajetória partilhada” (Fernandes, 2025, p. 9). São muitos os nomes: Laurinda de Souza, Ana Maria Sigal, Lucía Fuks, Flávio Ferraz, Helena Tassara, Silvia Alonso, Decio Gurfinkel, Maria Cristina Ocariz, Janete Frochtengarten, Anna Maria Amaral, Maria Auxiliadora Arantes, Aline Camargo, Marta Rezende Cardoso, Marcia de Mello Franco, Daniel Delouya, Luis Antônio Nogueira Martins e outros não menos presentes.

Para ilustrar, cito um trecho do artigo de Jô Gondar (2017), intitulado “Ferenczi, pensador político”, em que ela recupera, com suas próprias palavras, a noção das ciências sociais trazida por Alfredo Bosi (1995). Opondo-se à ideia de comunidade de origem, sustentada nos laços de sangue, a comunidade de destino “refere-se ao fato de que um grupo de pessoas pode reunir-se, sem lideranças ou certezas prévias, para discutir ou construir seu próprio destino” (p. 219).

Assim, finalizo este meu comentário afetivo sobre minha amiga citando uma das frases com as quais a autora encerra o capítulo de introdução a seu livro: “Se escolhi transformar cada leitor em cúmplice das minhas lembranças e porta-voz da minha gratidão foi por acreditar que a presença de todos, que fiz questão de nomear aqui, alimentou a minha caminhada” (Fernandes, 2025, p. 42).

 

Referências

Ferenczi, Ferenczi. Diário clínico, São Paulo, Martins Fontes, 1990.
Fernandes, Maria Helena. A mulher-elástico. Viver: mente &cérebro, 161:28-33, 2006.
Fernandes, Maria Helena. Capturas do sofrimento. Corpo, alimentação e ideais na clínica psicanalítica. São Paulo, Blucher, 2025.
Reis, Eliana Schueler & Gondar, Jô. Com Ferenczi. Clínica, subjetivação, política. Rio de Janeiro, 7 letras, 2017.

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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde é professora no Curso de Psicanálise.

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