boletim online

jornal de membros, alunos, ex-alunos e amigos de psicanálise

Eu quis ir a Cuba, ver a vida lá

por Verônica Melo[1]

A ideia de escrever este texto para o Boletim surgiu a partir de um relato que enviei a grupos de amigos deste Departamento, dando notícias da entrega das doações que fizeram a Cuba e aproveitando para lhes contar um pouco das impressões que colhi nessa viagem, em especial neste momento em que a Ilha atravessa uma forte crise e tensão por novas restrições e pelas ameaças de invasão por parte do governo estadunidense.

Campanhas de Solidariedade a Cuba circulavam nas redes: “Frei Betto faz um chamado urgente à solidariedade com o povo cubano diante do agravamento do bloqueio imposto pelos Estados Unidos, que já dura 64 anos.” A Revolução Cubana enfrenta uma grave crise energética e falta de medicamentos, impactando diretamente direitos essenciais como alimentação, saúde e educação — garantidos à população.

O teólogo e escritor vem convocando todas e todos a se somarem à campanha do MST, que busca arrecadar R$ 200 mil para enviar remédios e equipamentos cirúrgicos a Cuba. “Defender Cuba é defender nossa utopia, nossa esperança e a luta por um mundo sem opressores e oprimidos”, afirma.[2]

Na mesma época, outubro de 2025, recebi a divulgação de uma Caravana Solidária a Cuba.

Falar dessa Caravana é falar da Telma Araújo, a grande força por trás da organização e que, por ocasião dessa Caravana, recebeu um Reconhecimento do ICAP (Instituto Cubano de Amizade com os Povos) pelo seu trabalho de Solidariedade com Cuba.

Telma conheceu Cuba e Fidel lá no início dos anos 90 e, desde então, criou um laço fortíssimo com a Ilha e com os ideais humanitários da Revolução. De lá para cá, vem atuando em várias frentes: no Movimento de Solidariedade a Cuba, na Coordenação Nacional da Brigada Sul-Americana e na Associação Cultural José Martí de Minas Gerais (ACJM-MG), órgão não governamental cujo foco assume a relação com os povos e não com governos. Inclusive, em 2016, montou junto com o Thiago Ávila a cartilha que orienta os trabalhos das Brigadas. É brigadista ‘raiz’, participou da 1ª Brigada Sul-Americana de Trabalho Voluntário, no ano 2000. Anualmente, essas brigadas reúnem cerca de 100 ativistas que vão para a Ilha desenvolver trabalhos no campo, trocar experiências com organizações locais, conhecer pontos históricos, festejar e fortalecer nossos laços latinos. Como ela mesma diz, o objetivo é fazer as pessoas viverem a realidade de Cuba, sentindo o que significa essa ‘força de ajuda’. E um detalhe curioso: ela conta que essa dedicação vem da inspiração em um de seus ídolos, Chico Buarque — que, por coincidência, nesse mesmo dia em que escrevo está em Cuba, depois de 30 anos, convidado por Silvio Rodríguez.

Seu trabalho se vincula ao ICAP — Instituto Cubano de Amizade com os Povos, criado por Fidel nos primeiros anos após a vitória da revolução para fortalecer relações de solidariedade internacional e articulação entre os povos e movimentos sociais, sem interferência dos Estados. A estrutura é bem completa: a agência Amistur cuida do turismo político, social e de lazer, enquanto a Casa de la Amistad é o ponto de encontro para recepções e festas. Já a hospedagem acontece no Acampamento Julio Antonio Mella, que recebe brigadistas de diversos países, brasileiros, chilenos, argentinos, estadunidenses, canadenses, entre outros. No momento, está trabalhando para o Centenário do Comandante Fidel Castro Ruz, celebrado em 13 de agosto de 2026, que contará com uma nova Caravana.

A partir dessas chamadas, considerei a oportunidade de levar alguma ajuda a um país que segue resistindo e sustentando seus ideais humanistas e sua tradição solidária com outros povos, e levar meus filhos a conhecerem a Ilha. Em novembro a situação já estava crítica, mas ainda não havia a ameaça declarada em janeiro de 2026, de invasão da Ilha pelo governo neofascista de Trump. Desde então uma certa apreensão com a viagem se instalou. Será que é hora de irmos? Família e amigos preocupados…, mas fomos.

Embarcamos com nossas malas repletas de remédios, luzes de emergência, sabonetes, leite em pó, bombons…e, nossas apreensões.

No entanto, toda a viagem foi surpreendentemente tranquila, apesar de muito intensa e de variadas emoções.

Pelo fato de sermos uma Caravana Solidária não enfrentamos muitas dificuldades em função da prioridade estratégica que o governo cubano atribui ao turismo, em especial desse tipo. Tivemos à disposição um micro-ônibus que nos levava para todas as partes; lugares e cidades lindas, cheias de história e carinho de quem conosco interagiu e ainda a possibilidade de nos hospedarmos em lugares protegidos de apagões.

Na programação, conhecemos e experimentamos situações às quais não teríamos oportunidade fora dessa Caravana.

O hotel em que ficamos era muito bonito e confortável e, para minha grande surpresa, foi o mesmo em que fiquei quando lá estive em 1987! A piscina era o mar.

Sobre nossas doações, a entrega foi feita no ICAP, Instituto Cubano de Amizade com os Povos, que faz o repasse para as instituições do Estado, responsáveis pela distribuição à população, e nos recebeu ao som de música brasileira e uma análise sobre conjuntura atual.

Sobre a crise que atravessam, a situação para o povo cubano é dramática.

Em algumas conversas nas ruas pudemos perceber um grande desalento, por um sem-número de razões: universidade fechada, ensino básico e médio com funcionamento reduzido, muitos lugares e casas com duas horas de eletricidade disponível por dia, às vezes só de madrugada; transporte público quase inexistente, pessoas tendo que caminhar durante horas para chegar ao local de trabalho, muitos desses lugares funcionando por poucos dias da semana; a grande maioria dos hotéis fechados pela grande baixa do turismo; racionamento imenso de combustível, inclusive dificultando e comprometendo logísticas de transporte e distribuição dos carregamentos de produtos e doações que chegam de fora; um grande número de países pausou suas negociações com Cuba, bancos não realizam transações com o país, cancelamentos do programa Mais Médicos em diversos países (ao menos 9 nas últimas semanas)…e por aí vai.

Assim, ao chegarmos, nos deparamos com uma cidade com ruas esvaziadas e pouco movimento.

Como aqui no Brasil, há uma grande campanha e influência de empresas das redes sociais estadunidenses na manipulação da opinião interna —, uma das estratégias anticomunistas do Tio Sam — e que, como pudemos ver em documentos expostos no Museu da Denúncia, acaba sendo fonte de despesa do governo cubano, que se esforça para combater as Fake News e a desinformação. Com acesso livre às redes sociais, essas campanhas atingem, principalmente, os mais jovens, que são os que mais demonstram insatisfação e desejos contra revolucionários.

Tivemos um encontro com o embaixador do Brasil, que fez uma análise da conjuntura atual, que é mesmo alarmante. Cuba quer seguir as conversas com os EUA para tratar da situação, mas não recebe retornos favoráveis das autoridades estadunidenses.

A Ilha vive um sufocamento com o acirramento atroz do bloqueio, pode-se dizer, uma “Gaza sem bombas”.

Por tudo isso, muitas pessoas estão sem confiança de que a situação será resolvida, estão cansadas e já vivem os impactos em suas saúdes física e mental decorrentes da forte emigração de amigos e familiares. Uns 15% da população deixaram o país nos últimos anos e, dentre estes, a maior parte tem entre 15 e 55 anos.

Apesar disso, da persistência dessa crise, que os cubanos dizem ser a mais brutal que já viveram, e do decorrente sofrimento com as inúmeras restrições, existe um forte sentimento de resiliência em boa parcela da população, que se manifesta e segue resistindo e insistindo nos aspectos revolucionários de suas conquistas.

No Centro Fidel Castro, tivemos uma conversa com uma jovem historiadora, que nos falou da situação atual de uma forma muito forte, realista, profunda e corajosa. De encher os olhos d’água.

Fomos conhecer uma Policlínica, onde ouvimos um grande relato sobre as dificuldades que estão enfrentando para manter o mínimo de atendimento, utilizando os parcos recursos de que dispõem neste momento. Para uma Cuba cuja estrutura de saúde impressiona pela organização, especialmente no sistema primário — com seu modelo dos Consultórios de Médicos da Família — e pela formação rigorosa dos profissionais, que saem das universidades com uma visão humanista e solidária, foi uma tristeza ver o estado material do local, mas um alento ouvir relatos de sentidos tão potentes, dignos e esperançosos.

Na quinta-feira, dia 2 de abril, presenciamos uma manifestação pelo Malecón dos que pedem pelo fim do bloqueio, defendendo sua Cuba, suas liberdades, sua cultura…emocionante! É bom destacar que esta manifestação foi marcada por grande presença de jovens.

Posso dizer que a apreensão toda que estava sentindo com a ida para a Ilha nesse momento tenso foi sendo substituída por bons encontros, boas histórias, comida boa, piña colada, mojitos… e muita emoção. Mas resta muita tristeza e angústia por testemunhar quão cruel se pode ser nesse mundo dos homens graúdos (e muito miúdos!).

A crise é braba! Mui braba e mui triste!

Mas, algumas “luzes” están!

No hotel onde estivemos e em todos os lugares que visitamos havia energia. Em alguns deles, por haver gerador. Painéis solares já podem ser vistos em diversos lugares, principalmente no interior.

E, nos últimos dias, com a chegada de carregamento de alimentos e remédios do Brasil, petróleo da Rússia e mais ajudas vindas de outros cantos, como México e Canadá — que então eu soube serem dois países que têm com a Ilha uma história de amizade e ajuda de longa data —, observamos um incremento na circulação de ônibus, motos e carros pelas ruas e o clima da cidade mudou bastante; diminuição dos cortes de energia, os caminhões de lixo voltando a circular e limpar a cidade e as ruas voltando a ser mais habitadas, vividas, vivas…

Havana segue sendo uma cidade muito linda e acolhedora.

Parte deste relato escrevi ainda no avião, quando retornava ao Brasil, como forma de ir decantando o vivido na viagem. E nas entrelinhas dos pensamentos, muitas questões sobrevinham. Pensava no país que acabara de deixar, com seus enormes desafios, pensava nos desafios que viveríamos aqui neste ano de eleição. Pensava no povo de Cuba, nas figuras fortes de “El Chê”, como eles dizem, Fidel, Martí.

Ecoava, nesses pensamentos, a tese de Freud em Psicologia das massas e análise do Eu, sobre a desorientação que sucede a perda do líder. Desde o dia 1 da vitória da Revolução Cubana, as sanções impostas e as centenas de ameaças de morte de que foi vítima Fidel agem como forças disruptivas, que desafiam a sustentação de uma liderança e, hoje, de um regime que sobreviva à ausência física de seus ícones. Ou, dito de outra forma, como o povo deixa de se identificar com a figura externa do líder para se identificar com o Ideal do Eu encarnado na soberania e no bem-estar social? E, ainda, como essa identificação poderia se manter enfrentando as mais duras privações? O acirramento do bloqueio, causando essa crise energética sem precedentes, asfixia o país e se materializa na angústia dos apagões intermináveis, na paralisia do transporte e no desespero da escassez de comida e medicamentos.

Uma questão ética se impõe a todos: o que fazemos com nossa humanidade? O que países, que contaram com a ajuda de Cuba em suas lutas de emancipação, que se beneficiaram com seus programas humanitários como o Mais Médicos podem fazer nesse momento como forma de retribuição e como aposta no humanismo internacional?

 

Para saber mais:

“Em 29 de janeiro de 2026, a Casa Branca anunciou que Donald Trump havia assinado uma ordem executiva para estabelecer um processo de imposição de tarifas a países que vendessem ou fornecessem petróleo a Cuba (whitehouse.gov). Em 9 de fevereiro, o governo cubano informou oficialmente que vinha adotando medidas para enfrentar a situação, associando-a ao recrudescimento do bloqueio e, em particular, às pressões para restringir o fornecimento de combustível à ilha — inclusive por meio de sanções secundárias e ameaças a navios e companhias marítimas (mep.gob.cu). Em março, o próprio governo dos Estados Unidos voltou a agir sobre o circuito petrolífero ao emitir uma nova licença da OFAC para operações com petróleo russo, em um contexto no qual Cuba seguia submetida ao estreitamento de suas vias de abastecimento energético (ofac.treasury.gov).

 

É justamente aí que reside a potência argumentativa do momento atual: ele torna imediatamente visível aquilo que, durante décadas, muitos insistiram em relativizar. Não porque o bloqueio produza sozinho toda a realidade cubana, mas porque atua como força material ativa no agravamento permanente de suas contradições, comprimindo as margens de ação do país e convertendo carências em estrangulamento. A deterioração do cotidiano cubano não pode ser compreendida à margem do bloqueio: ele opera como mecanismo permanente de compressão das condições materiais de reprodução da vida na ilha.” https://midianinja.org/opiniao/bloqueio-dos-eua-e-crise-energetica-em-cuba-evidencia-concreta-de-um-cerco-historico-de-mais-de-seis-decadas/

Entenda crise energética

“Cubanos que vivem em Havana relatam que o país vive o “pior momento” com as dificuldades enfrentadas pela população após o endurecimento do bloqueio energético imposto pelos EUA a partir do final de janeiro deste ano. O aumento dos apagões, a elevação dos preços de produtos básicos, a redução do transporte público e a redução da oferta da cesta básica alimentar subsidiada pelo Estado são alguns dos problemas que pioraram nas últimas semanas. A crise energética de Cuba é ainda mais grave nas províncias do interior da ilha de quase 11 milhões de habitantes, onde os apagões podem durar quase o dia todo.No último 29 de janeiro, o presidente norte-americano Donald Trump editou nova Ordem Executiva classificando Cuba como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança de Washington, citando, como justificativa, o alinhamento de Havana com Rússia, China e Irã.A decisão prevê a imposição de tarifas comerciais aos produtos de qualquer país que forneça ou venda petróleo a Cuba.O aperto do cerco econômico ao país é mais uma tentativa dos EUA de derrubar o governo liderado pelo Partido Comunista, que desafia a hegemonia política de Washington na América Latina há mais de seis décadas. O embargo dos EUA contra Cuba já dura 66 anos, com as primeiras medidas adotadas logo após a Revolução Cubana, de 1959.” https://iclnoticias.com.br/cuba-3-meses-combustivel-bloqueio-eua/

__________

[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

[2] Informações para doação (PIX): CNPJ: 11.586.301/0001-65 Instituto Cultiva (esta Campanha segue ativa)

uma palavra, um nome, uma frase e pressione ENTER para realizar sua busca.