Sobre o ingresso de novos membros no Departamento de Psicanálise
Da apresentação pública de Dedé Oliveira Ribeiro
por Gisele Senne de Morais[1]
No fim de tarde de 05 de setembro de 2025, nossa colega Maria Odete de Oliveira Ribeiro, Dedé, como prefere ser chamada, fez sua apresentação pública para o Departamento de Psicanálise. Em uma sala lotada e sob ambiente agradavelmente amistoso, Dedé relatou o caso O que se fala e o que se cala, sobre um jovem estudante com ideação suicida, contando-nos sobre um delicado manejo em que buscou se manter aberta e sensível em sua escuta.
Na apresentação, Dedé compartilhou uma questão, corrente na formação do analista, que esteve presente no delicado trabalho com o jovem: como não deixar que identificações entre analista e analisando atrapalhem o processo psicanalítico? Grande medo de errar, busca por palavras justas e por distância ideal estiveram presentes nos atendimentos ao longo do período relatado por Dedé. Essa cuidadosa procura por encontro entre a dupla analítica acabou por favorecer o estabelecimento de uma relação de confiança, inclusive com abertura para contrapontos a modelos onipotentemente idealizados de perfeição.
Dedé, em seu memorial, contou-nos que o caminho que a levou à psicanálise foi sua análise pessoal, bem como o desejo de compreender a alma humana, já presente desde o início de seus anos como professora de colégio. Já na psicanálise, fez o curso Conflito e Sintoma no Departamento, seguido do Curso de Psicanálise. Também fez Aprimoramento na Clínica Psicológica do Sedes.
Dedé participa do Coletivo Escuta Sedes desde sua fundação em 2018. Esse coletivo reúne psicanalistas do Departamento de Psicanálise e do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae em rodas de conversa. Pelo Departamento de Psicanálise, Dedé também faz parte do Grupo de Estudos e Trabalho A Cor do Mal-Estar, que estuda o tema do racismo sob o olhar da Psicanálise, propondo e realizando práticas antirracistas desde 2020. Dedé também integra a Comissão de Reparação do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, que atua no sentido de transformar práticas e procedimentos institucionais para combater o racismo e minimizar seus efeitos.
Seja bem-vinda, Dedé!!!
Apresentação pública de Pedro Cecci Robles
por Débora Felgueiras[2]
A Comissão de Admissão recebeu com alegria Pedro Cecci Robles como novo membro do Departamento de Psicanálise em 28 de novembro de 2025. A sala estava repleta de pessoas que vieram prestigiá-lo e ouvir o caso clínico O último segredo de Antônio Bento, caso bastante desafiador e comovente.
Trata-se do percurso analítico de um homem de oitenta anos que chega ao consultório dizendo que precisa “cuidar da reta final”.
Pedro Robles, o Peu, percorreu uma jornada bastante longa e diversa antes de tornar-se membro do Departamento. Graduado em Economia, trabalhou em uma grande indústria, mas apesar do reconhecimento e crescimento profissional, não encontrava sentido para além do financeiro.
A sua análise pessoal nesse período foi importante para decidir sair da indústria e seguir rumo ao Oriente Médio, realizar registros nas zonas de conflito por meio da fotografia. Se o economista burocrata, como ele denominou, estava morrendo, permanecia viva a visão da economia política em formulações que orientavam sua câmera.
Peu considera que exista uma íntima relação entre ser psicanalista e sua militância, que se conectam em torno de questões como o não dito, trauma, memória e desmentido.
Ao retornar do Oriente Médio, passou a trabalhar para o jornal Folha de São Paulo e a desenvolver projetos fotográficos e em vídeo, sempre relacionados à cobertura de Direitos Humanos. Entre eles o documentário Verdade 12.528, lançado na 37a Mostra internacional de Cinema de São Paulo de 2013.
Hoje, dedica-se à clínica, aos estudos de Sándor Ferenczi, tendo apresentado trabalho na última Conferência dedicada a este autor aqui em São Paulo. Atualmente prepara projeto de pesquisa para ingresso no mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujo tema é o atravessamento do racismo no corpo infantil.
Peu, seja bem-vindo ao Departamento de Psicanálise.
Apresentação pública de Glenda Beigler
por Lucia Helena Rodrigues Navarro[3]
Nossa colega, a psicanalista Glenda Beigler, fez sua apresentação pública de um caso clínico inédito, intitulado Entre a fantasia do corpo deficiente e a busca do corpo desejante, em 12 de dezembro de 2025. Uma apresentação delicada que possibilitou uma discussão instigante e calorosa.
No relato clínico, conta sobre uma analisanda que chega cindida; por um lado muito inteligente, por outro, desconectada de um corpo próprio. Impossibilitada de estabelecer relacionamentos afetivos, vive com a sensação constante de ser observada, refugiada em um corpo tomado como deficiente e inadequado. A análise revela, aos poucos, que a raiz do mal-estar está em uma dinâmica familiar violenta, que apareceu em sua narrativa, inicialmente, de modo idealizado. Sua busca constante pela aprovação dos pais e dificuldade de se separar dos mandatos maternos a aprisionam. A direção da análise é vislumbrada: processar a separação do supereu arcaico materno incorporado. Em uma transferência manejada com precisão é possível apontar para a analisanda que o desejo pode ser múltiplo e próprio. No processo analítico acompanhamos a emergência de um sujeito, ora acometido por somatizações, dores e ansiedades, ora se lançando em novas experiências estruturantes.
No seu percurso inicial, Glenda optou por realizar trabalhos em instituições com foco no atendimento de crianças e adolescentes. Como acompanhante terapêutica na Escola Viva e na Escola Estilo de Aprender, participou de projetos de inclusão escolar de crianças com diagnóstico de psicose, autismo e atraso cognitivo. No Instituto Fazendo História, realizou atendimento clínico de crianças, adolescentes e famílias em processo de adoção, com supervisão grupal de Daniele John. Relata em seu memorial que esse grupo debruçou-se sobre muitas questões, mas uma foi escolhida para um processamento escrito: a “demanda das pessoas envolvidas com os cuidados – o abrigo, as famílias adotantes etc. – de que as crianças deixassem seu passado para trás e começassem do zero a partir da entrada no abrigo ou da adoção”. A reflexão crítica do grupo para essa demanda resultou no artigo “Apagar o antes. Reflexões clínicas no contexto do atendimento”, publicado no livro Reflexões clínicas no contexto do acolhimento, da série Prática Clínica, da Editora Zagodoni.
Cursou no Departamento de Psicanálise, Conflito e Sintoma e Psicanálise. Participou de diversos grupos de trabalho do Departamento como aspirante, como o grupo Faces do Traumático, coordenado na época por Myriam Uchitel, onde atuou em um projeto, em parceria com a Unifesp, de atendimento clínico de grupo com pessoas que haviam perdido familiares e amigos para a COVID. Avaliou essa experiência como fantástica, pois pode acompanhar a potência do atendimento grupal no trabalho de luto. Mais uma vez a escrita é uma ferramenta utilizada para o processamento do trabalho realizado e a experiência é relatada em um artigo, com o título “Pandemia: Luto em famílias brasileiras”, publicado na revista Tavistok.
Atualmente, dando seguimento a seus interesses clínicos e teóricos participa do GT Investigações a partir de Laplanche e Silvia Bleichmar e do GT Comunidade de destino; no Instituto Sedes, participa do Núcleo Acesso, no projeto de atendimento de crianças e adolescentes separados de suas famílias.
Em paralelo aos trabalhos grupais e institucionais que muito preza, iniciou em 2013 o consultório particular com atendimentos de crianças, adolescentes e adultos, acompanhada pela supervisora Renata Guarido. Dando seguimento ao seu interesse clínico-teórico pelas questões da infância, da maternidade e do superego e ao seu gosto pelos processamentos por meio da escrita, recentemente, ingressou no mestrado na PUC-SP.
Bem-vinda, Glenda!
Comissão de admissão biênio 2024/2025, composta por:
Breno Herman Sniker
Débora Pereira do Rego Felgueiras
Gisele Senne de Moraes
Lucia Helena Navarro
Maria das Graças Amorim da Hora
Nanci de Oliveira Lima
Nelci Ramos Andregheto
Silvia Ribes (em licença)
Vilma Florencio
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da Comissão de Admissão.
[2] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da Comissão de Admissão 2024-2025.
[3] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da Comissão de Admissão 2024-2025.