Desesperança
por Rubia Delorenzo[1]
(…) Era como se o meio-dia ali estivesse estagnado, sem uma sombra e ela a fixar o pássaro debatendo-se na gaiola talvez por causa do calor, as asas amarelas com um ruído seco nas grades finas (…)[2]
Maria descobre seu corpo empapado de suor. Dispensa a camisola de seda.
Parece querer arrancar-se da própria pele úmida, grudenta. Desaba na cova funda de um torturante verão.
Está mole, gelatinosa, escorregadia.
Somente espaços exíguos como espelhos ovalados podem contê-la.
Dar-lhe moldura.
Parece certo que seu corpo lento e desfeito não irá mover-se.
Como outras, como tantas, alucina um bosque, um rio, a vegetação fresca, a água fria. Sonha um corpo vivo que palpita.
O bosque é seu corpo úmido. Contém suas curvas, dunas movediças, por ora ainda estáticas.
Seu ser letárgico, de desesperançada indiferença, mal pode respirar.
Está opaca, asfixiada na travessia estreita por espaços obrigatórios. Domésticos. Protocolares.
Como uma boneca inanimada, pálida em seu rosto de celuloide, caminha errática como um autômato, a corda gasta.
Desabitada de tudo, funciona apenas.
Com vagar, indolente.
A liberdade dela, de outras, de tantas, cabe na gaiola dourada do pássaro que observa.
Sombrio destino: o quarto, o espelho, a gaiola, o convento, a internação.
Também o tribunal.
Março/2026
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[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste Boletim online.
[2] Maria Tereza Horta, Ambas as mãos sobre o corpo.