Tempo de aprender, aprender com o tempo: Círculo Psicanalítico de Pernambuco faz 50 anos
por Equipe editorial do boletim online

Estivemos todos convidados para as comemorações em torno do cinquentenário do prestigioso Círculo Psicanalítico de Pernambuco. Co-fundadora dessa associação de psicanalistas sediada em Recife, nossa colega Paulina Rocha (membro do nosso Departamento desde 2015) primeiro circulou o convite para a XXXVIII jornada do CPP, realizada nos dias 14 e 15 de novembro de 2025 sob o título História e contemporaneidade. Então ocorreu o lançamento do livro Tempo de aprender, aprender com o tempo, organizado por Antonio Ricardo Rodrigues Silva, Isabela Cribari, Lula Couto e Paulina Schmidtbauer Rocha, editado pela Escuta.
Mês passado prosseguiu a festa, no animado lançamento paulistano realizado em 09 de maio de 2026 na Vila Madalena. Em meio à alegria dos muitos encontros, dos previsíveis aos imprevisíveis, de lá trouxemos nosso convite à leitura dessa singular experiência nordestina através da publicação, a seguir, do artigo de abertura do livro, gentilmente cedido pelos colegas para a difusão em nosso boletim. Muito bom.
Nosso exemplar já se encontra na Biblioteca Madre Cristina. Não percam!
Educar, governar e psicanalisar
por Isabela Cribari[1]
A apresentação de um livro sobre formação psicanalítica é um gesto atravessado por uma contradição; aqui se apresenta, inicialmente, um dos nortes da obra. Talvez porque a própria ideia de formação na psicanálise não combine com sínteses ou definições sistemáticas.
A psicanálise, desde Freud, foi relutante a ceder aos moldes da academia e criou a Associação Psicanalítica Internacional (IPA), com várias exigências próprias e fixas.
Lacan, com sua formulação da formação do analista como algo que passa pelo desejo e não pela norma, empurrou ainda mais essa questão para uma região de inquietação.
Igor Caruso se contrapôs à IPA e criou uma instituição valorizando a pluralidade de abordagens e a análise leiga, que foi inspiração para o Círculo Brasileiro de Psicanálise. Acontece que uma de suas unidades sempre foi muito crítica ao modelo estabelecido e ao dogmatismo institucional, considerando-o um obstáculo a uma experiência clínica “viva”. O Círculo Psicanalítico de Pernambuco tornou-se, então, independente e deu seguimento a um projeto audacioso de formação psicanalítica, único no país, que completa meio século.
Este livro traz ideias e experiências de formação psicanalítica: contínua, independente, com rupturas. Por assim dizer, este livro é uma defesa da contradição e tem a troca como gesto inaugurador.
E mais: apresenta as tensões inerentes à construção de um caminho próprio da psicanálise no Brasil. Aponta para direções geopolíticas e suas análises são impactantes. Observar a psicanálise a partir do Nordeste, sobretudo de Pernambuco, nas últimas cinco décadas, é amplificar vozes e profundidade histórica a uma vivência vista sob o ponto sudestino, do Rio e São Paulo.
Contudo, esse projeto de formação construído no Nordeste tem marcas muito visíveis, quando deixamos o corpo a nu. São singularidades marcadas pelas lutas políticas, institucionais, na busca da criação de redes autônomas de transmissão do saber psicanalítico e pela força/desejo de acolher a clínica, seja ela privada, pública ou mesmo nos territórios.
O projeto de formação do Círculo Psicanalítico de Pernambuco não se organiza a partir de uma origem estanque. É rica de percursos singulares, plurais, descentrados. Como lembra Paulina Rocha, uma das fundadoras do CPP “não aprendi psicanálise sentada lendo o livro ‘sagrado’. Eu aprendia porque tudo ao meu redor era psicanálise, psicanálise e psicanálise, com diversas pessoas, dos mais diferentes discursos e com referências dos mais diferentes autores. Não era uníssono”. Para ela, a formação não começa com um contrato institucional, mas quando se entra em contato com a escuta, a clínica, o desejo de compreender o humano — e isso pode ocorrer em seminários, nos corredores de uma instituição, numa conversa com um colega, num momento de crise ou de espanto.
Esse projeto se fez, como se faz a psicanálise: de espantos, de crises, na contramão das garantias. Sem sermos alunos, nem professores. E sem garantia que alguém vai se tornar psicanalista algum dia. Não há diplomas que assegurem a chegada, nem mestres que atestem a prontidão. Não há turmas e nem programas. Há companhias (escolhidas, implicadas) que sustentam o percurso do outro na escuta, na presença e na transferência. A instituição se pensa como associação, porque nela ninguém ocupa o topo, ninguém é guia infalível: há uma responsabilidade compartilhada e um laço ético que recusa a hierarquia dogmática.
Como observou Lula Couto, em seu texto sobre a formação no CPP, o analista é alguém que não se forma apenas por acumular saberes, mas por ser tomado por sua análise, por sua escuta, por sua escrita — e especialmente por sua ética. A formação é, por isso, sempre singular, mas nunca solitária. É feita em relação, em meio às diferenças: “… onde os diversos saberes sobre o humano e a sociedade estejam em constante diálogo, valorizando, assim, a transdisciplinaridade como um elemento indispensável no percurso da formação de um analista.”
A pluralidade teórica não é apenas acolhida, mas praticada. Freud, Lacan, Melanie Klein, Winnicott, Green, Ferenczi, Caruso, Balint, Masud Khan, Fanon, Radmila Zygouris, Joel Birman, Luís Cláudio Figueiredo, Hélio Pellegrino… todos esses nomes circulam e ecoam nos seminários, nas conversas, nos textos do Círculo. Como escreveu Jurandir Freire Costa: a instituição “desde o início, soube fazer do pluralismo de ideias, da convivência entre os diversos pontos de vista e da sensibilidade às mudanças socioculturais o moto propulsor do interesse pela psicanálise.”
Esse pluralismo é o antídoto para qualquer “autoritarismo teórico” de uma psicanálise que não se renova pela constante crítica e a necessária abertura. Essa é a ideia fundamental do pensador Jurandir Freire nesta publicação. O projeto do CPP, desde seus primórdios, rompeu com as pretensões de pureza conceitual para sustentar uma formação tecida a partir de diferentes vozes.
Essa recusa ao modelo tradicional (analistas didatas, estrutura em turmas e currículo fechado; uma psicanálise didática) foi uma decisão política e histórica. Paulina conta que, quando o CPP decidiu abolir o analista didata, “foi uma bomba atômica”. Mas era preciso afirmar que ninguém mais detinha o poder de controlar, autorizar ou interditar o desejo do outro. A escuta do tempo de cada um, a possibilidade de entrada na formação em qualquer momento, a recusa da análise didática e o repúdio à ideia de mestre são traços fundantes desse projeto.
Antonio Ricardo Rodrigues Silva, em seu texto “De Viena, por Paris, Louvain até o Recife”, nos lembra que a história da psicanálise fora do eixo não começa em Paris na década de 60, mas também em Louvain, Zagreb, no Rio Grande do Sul e no Recife — com mulheres e homens se recusando à adoção automática de modelos. Ele recupera, por exemplo, o gesto do pernambucano Júlio Porto Carrero, que manteve correspondência com Freud e que traduziu Totem e tabu, entre outros textos, ainda nos anos 1920, antes mesmo da existência de qualquer formação institucional no Brasil. Ou o de Zaldo Rocha, que ensinava conceitos freudianos na psiquiatria infantil nos anos 1950, sem nunca ter feito formação “oficial”. Esses gestos falam da escuta que precede a filiação e da análise que se faz sem “diploma”.
Essa história é feita também dos episódios sociais e políticos: exílios, ditadura, repressão, Ação Católica, maio de 68, os retornos ao Brasil, os vínculos com a clínica pública, com a educação, com a pobreza, com as questões raciais e de gênero. Paulina diz com firmeza: “o que interessa é o conjunto: as instituições, suas organizações, as relações que se estabelecem, as possibilidades de inovações técnicas, reformulações teóricas… Nunca foi só o consultório.”
Por isso, falar do projeto de formação do Círculo é, acima de tudo, dar corpo e voz à sua história. É escutar o que contam Paulina Rocha, Lula Couto, Jurandir Freire Costa, Antonio Ricardo Rodrigues Silva, Benilton Bezerra — e o que contam os que estavam no primeiro momento, os que vieram depois, os que saíram do Círculo, os que continuam: Ana Elizabeth Cavalcanti, Bernardo Mora Trespalacios, Cristina Mendonça, Dulce Luna, Dulcinéa Araújo, João Alberto Carvalho, Júlia Coutinho, Luís Andrade, Maria de Fátima Di Matteo, Marcelo Bouwman, Maria Helena Barros, Maria Teresa Padilha e Maria Thereza Lins. Vozes do passado e de hoje. Porque esse projeto nunca foi de alguns: é uma experiência compartilhada, viva, múltipla. Uma experiência que, como a análise, não pode ser totalmente prevista — mas pode ser sustentada.
Nesse panorama, é importante reafirmar: a formação psicanalítica apresentada neste livro se negou às características “importadas”, fruto de um modelo pronto, eurocêntrico. Nada disso. Ela foi sendo construída — melhor dizer: marcada — nos corpos e nas vidas de analistas que vieram de vários lugares, com experiências e formações diferentes, inclusive na Europa, mas com o desejo único de criar algo. Esses reflexos se apresentam em nossa resiliência a determinadas institucionalizações. É uma história que não cabe em um manual. Estabeleceu-se aqui, portanto, um braço de resistência, se as palavras “resiliência e resistência” não ressoarem perdidas de sentido no mundo de hoje.
E aqui ressoam, em especial, grandes nomes da psicanálise brasileira: não como a ideia ultrapassada de mestres. Mas como ecos. Eros. Em muitos dos trajetos formativos em Pernambuco, há uma escuta que reverbera no que fez a nordestina Nise da Silveira ao rejeitar a violência manicomial em favor da expressão simbólica dos internos (explico: não somente a fala, mas a imagem); um ato semelhante ao de Virgínia Leone Bicudo, que buscou compreender e ensinar a vigência de um pensamento ético e racial sobre o inconsciente. Há ressonâncias da parceria e divulgação de nossas ideias por Manoel Tosta Berlinck, da coragem e determinação de João Fernando Calsavara, do rigor teórico de Zeferino Rocha, da ousadia clínica de Jurandir Freire Costa, da interlocução da psicanálise com outros saberes de Benilton Bezerra, das experiências sociais de Maria Rita Kehl, das pesquisas de Teresa Pinheiro, da provocação de Tales Ab’Sáber. Mas, acima de tudo, há uma voz que não imita: cria.
Uma voz e, para além da voz, uma fala.
Este livro oferece um conjunto de relatos, lembranças, memórias, vozes, tons, arquivos e reflexões pulsantes. Revela como uma instituição em Pernambuco foi capaz de criar seus próprios meios de difusão de ideias, nesses 50 anos: isso se contabiliza em centros de pesquisa e coletivos de estudo até edições alternativas; projetos de extensão universitária, de saúde pública e ações governamentais. Nesse ponto, a educação sempre representou (e ainda representa) uma forma de engajamento, para enfrentar os mesmos velhonovos desafios, desde as questões individuais quanto as problemáticas do poder público, como a miséria, a desigualdade e o preconceito em todas as suas sutilezas: de raça, de sexo, de geografia. Nosso aprendizado na prática clínica nunca serviu como desculpa para a subserviência, mas sim como um terreno de luta contra as dificuldades enraizadas na sociedade.
Importante concluir: em um país como o Brasil, e numa região como o Nordeste, essa não foi uma aposta simples. Porém, foi e segue sendo possível. Talvez porque a formação do analista se dá principalmente pelo ato. E este livro é, em si, um ato de formação: coletiva, histórica, mas sobretudo política.
Nosso papel como psicanalistas, na construção deste livro, não foi idealizar ou distorcer essa trajetória. Mas documentá-la. E documentar é como fazer renascer. Assim é tocar em imperfeições, também.
Sabemos o que o livro não é: um balanço institucional.
É uma celebração e uma crítica. É o resultado de uma transmissão que desafiou as imposições de uniformidade. Que não se deixou intimidar diante das limitações. E que transformou a improvisação em uma forma de expressão. É o testemunho oral de lealdade àquilo que deveria ser mais caro à psicanálise: sua recusa em se submeter à normalização. Nossa aposta? Formar-se psicanalista não é um processo administrável, mas um despertar subjetivo que se dá a partir do desejo, da análise, de estudos e da ação. Afinal, não existe formação analítica sem ação, sem envolvimento. Sem implicação. Sem ideias de como nos portamos no mundo em constante transformação. E, à falta de um método único para se pensar a formação de um analista (ainda bem!), este livro decerto contribui para iluminar os caminhos sinuosos, ainda desconhecidos totalmente, ainda férteis, pelos quais a psicanálise fora do grande eixo se desenvolveu.
Benilton Bezerra amplia a discussão examinando o crescimento do interesse pela psicanálise e os impactos disso na formação de novos analistas. E, ainda alerta para tensões e riscos de banalização da psicanálise, o surgimento de bacharelados, e o desafio de se manter a ética e a boa prática analítica diante dos novos desafios da contemporaneidade: “Como preservar aquilo que há de específico na transmissão da psicanálise sem incorrer no erro de transformar a formação de analistas em algo museológico, desconectado das demandas e possibilidades de nosso tempo?”
Freud alertou para três desafios impossíveis: educar, governar e psicanalisar[2]. Não pela impossibilidade, mas porque nunca se completam, não se reduzem a fórmulas nem a receitas. Não são práticas técnicas, mas éticas.
A formação de psicanálise no Nordeste, especialmente a do Círculo Psicanalítico de Pernambuco, se decidiu por encarar os desafios como ponto de partida. Ou nessa encruzilhada. Mas não como barreira intransponível. Se não existe um caminho fácil para a formação de um psicanalista, que se siga a ética e o caminho criativo e potente do desejo.
Na voz e fala deste livro segue a narrativa dessa jornada.
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[1] Psicóloga clínica, psicanalista associada ao Círculo Psicanalítico de Pernambuco e artista visual.
[2] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização e outros textos (1930-1936). Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras completas de Sigmund Freud, v. 18).
