boletim online

jornal de membros, alunos, ex-alunos e amigos de psicanálise

Desarmar o dispositivo: notas para despactuar a branquitude

por Breno Sniker[1]

 

Este ano, o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae deu continuidade a um projeto articulado no ano passado: oferecer supervisão gratuita para alunos pretos, pardos e indígenas dos cursos de formação vinculados ao Departamento. Nas reuniões de articulação do grupo, temos discutido, de um lado, nosso papel nessa luta antirracista e, de outro, como o racismo de cada um de nós pode operar no próprio dispositivo da supervisão. Esse projeto é uma proposta audaciosa em diversos sentidos, sobretudo, em seu ineditismo. Cito isso, pois parte do que se segue foi produto da proposta feita por esse grupo em pensar o pacto da branquitude e sua operação entre nós.

O que se segue é uma compilação. De um lado, um comentário ao texto de Cida Bento, O pacto da branquitude, pensando a reprodução desse pacto nos dispositivos de que participamos. De outro, uma elaboração a partir do mal-estar que me ficou da discussão sobre nossa política de cotas, no evento “O racismo nosso de cada dia: do pensamento à ação”: estava pensando as cotas como um dispositivo, mas sua discussão no texto tomou uma proporção que eu não esperava. Peço ao leitor que aceite essa juntura: ela é, em alguma medida, o próprio sintoma do problema que tento pensar.

Pacto é um termo de origem religiosa e arcaica: designa o vínculo que se sela entre partes e cuja força reside, paradoxalmente, no fato de ele não precisar ser dito. Opera no silêncio, sustenta-se no não-dito, transmite-se pela cumplicidade tácita de quem dele participa sem jamais ter assinado. Há nele algo da estrutura formal do sagrado, mas em sinal invertido: não o que abençoa e eleva, mas o que sela e exclui. Algo da ordem do que é selado e, por estar selado, torna-se intocável. Daí a dimensão particularmente perversa do pacto da branquitude: ele se mantém vivo precisamente porque seus signatários não se reconhecem como tais, e porque nomeá-lo já seria, em alguma medida, traí-lo.

Uma forma produtiva de nomear o que pactuamos, e de identificar os mecanismos pelos quais o pacto da branquitude se reproduz em nosso campo de formação, é aproximá-lo da noção foucaultiana de dispositivo:

um conjunto decididamente heterogêneo, que comporta discursos, instituições, arranjos arquitetônicos, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas, em resumo: do dito, tanto quanto do não dito, eis os elementos do dispositivo. O dispositivo propriamente é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos.”[2]

E em como esse conjunto se relaciona com o poder:

O dispositivo está, então, sempre inscrito em um jogo de poder, mas sempre ligado, também, a um ou alguns limites de saber, que nascem dele, mas também o condicionam. É isto o dispositivo: estratégias de relações de forças suportando tipos de saber e suportadas por eles.”[3]

A aproximação não é sem tensão: o dispositivo foucaultiano é estratégico sem ser intencional, emerge de uma urgência histórica e produz efeitos sem signatários; o pacto, em Bento, preserva algo da gramática do acordo, mesmo que tácito. Trabalho aqui justamente nessa juntura: tomar os dispositivos como o modo pelo qual o pacto se materializa institucionalmente, e o pacto como aquilo que dá ao dispositivo sua densidade subjetiva e sua resistência à desmontagem.

Dispositivos epistêmicos

A ausência de autores negros no currículo opera como interdição simbólica. O relatório da Comissão Holmes (sobre o qual retorno adiante) mostrou que a maioria dos professores e analistas em formação concordou que pessoas negras eram sub-representadas tanto como autores quanto como sujeitos nas leituras obrigatórias.[4] Em outras palavras, quem não se vê no corpus teórico não se reconhece como sujeito autorizado do saber, e o que não aparece no corpus não existe como problema clínico legítimo.

Dispositivos de seleção

A avaliação na seleção permite que critérios racialmente codificados: dicção, trejeitos de fala, referências culturais, rede de relações, autores lidos, lugares frequentados e modos estéticos funcionem como triagem sem precisar se nomear como tal. Uma cumplicidade tácita que não precisa ser explicitada. Um argumento nesse sentido é desenvolvido por Grada Kilomba ao demonstrar que sujeitos negros são frequentemente reconhecidos como interlocutores válidos apenas quando enquadram suas ideias “em uma linguagem familiar e confortável para um grupo dominante”.[5]

Dispositivos de transmissão

A relação de transmissão, estruturalmente assimétrica, reencena a assimetria racial mais ampla quando aquele que transmite é branco e aquele que escuta é negro. O mesmo pode ser pensado no dispositivo da supervisão, onde a assimetria racial pode atravessar o próprio encontro numa forma de desautorização da escuta. Isso pode comparecer como medo, ou como conjunto de explicações e justificativas dadas pelo supervisionando para apostas clínicas simples que eventualmente falham, explicações que talvez não fossem mobilizadas se a assimetria racial não estivesse, ela mesma, em jogo no encontro.

Dispositivos de isolamento

Persistem nos discentes negros altos índices de interrupção dos estudos, seja porque a forma de administração do sistema de cotas falha em sua efetivação, seja porque não se relaciona com as angústias específicas desses ingressantes.[6] O isolamento de ser o “negro único” em um instituto é, em si, um dispositivo de desgaste que opera de modo cumulativo: cada situação de exclusão que não é nomeada, cada referência que não ressoa, cada silêncio do supervisor diante do sofrimento racial se acumula sem possibilidade de elaboração institucional.

Dispositivos econômicos

O custo da formação (análise pessoal, supervisão, seminários) funciona como barreira de entrada que reproduz as desigualdades raciais já existentes na distribuição de renda. Isso é estrutural: um dispositivo, não uma questão individual.

Excurso: a cota como sintoma institucional

Os dispositivos elencados acima descrevem mecanismos consolidados. Mas vale um excurso sobre um mecanismo que se pretende corretivo, o sistema de cotas, e que, dependendo de como é administrado, pode operar paradoxalmente como reforço do mesmo pacto que se propõe a desfazer.

Segundo o Censo 2022 do IBGE, 43,5% da população do município de São Paulo se autodeclara preta ou parda. O sistema de cotas visa a reparar o desencontro entre essa composição racial da cidade e a composição historicamente branca do corpo discente, docente e de integrantes da comunidade Sedes; como membros do Departamento de Psicanálise a ele aderimos, reconhecendo que a sub-representação de pessoas negras na formação psicanalítica não é dado natural, mas efeito sedimentado de barreiras, simbólicas, econômicas e institucionais.

Se a cidade tem 43,5% de pessoas autodeclaradas pretas ou pardas e a cota é de 10%, há uma defasagem de mais de 33 pontos percentuais entre a demografia da cidade e o que a instituição se propõe a refletir. Nesses termos, a cota não repara o desencontro: ela o administra. E o risco dessa administração é duplo.

No plano sociológico, 15% é justamente o limiar[7] abaixo do qual grupos minorizados, segundo estudos clássicos sobre dinâmicas institucionais, como os de Rosabeth Moss Kanter nos anos 1970, originalmente voltados para gênero em ambientes corporativos e posteriormente estendidos a outros marcadores[8], tendem a ocupar o lugar de tokens. Tornam-se hipervisíveis como exceções, são lidos como representantes de seu grupo e não como singularidades, e a instituição pode invocá-los para se eximir de transformações estruturais: “temos negros aqui, então o problema está resolvido”. A cota baixa funciona, paradoxalmente, como prova de que o pacto da branquitude segue operando, agora com álibi.

No plano metapsicológico, uma cota de 10% pode operar como um desmentido institucional: a instituição reconhece formalmente o problema (há cota, logo há reconhecimento da exclusão histórica) e, simultaneamente, desautoriza a percepção desse mesmo problema na sua magnitude real (10% diz: “o problema existe, mas nesta proporção”). É o que Ferenczi descreveu como desmentido (Verleugnung) em “Confusão de línguas entre os adultos e a criança” (1933): a operação pela qual se reconhece formalmente um acontecimento ao mesmo tempo em que se desautoriza a percepção que o sujeito tem dele.[9] O reconhecimento, longe de reparar, funciona como veículo da desqualificação. Ferenczi mostrou que esse mecanismo é mais devastador que a negação pura, porque retira do sujeito a possibilidade mesma de contestação: como lutar contra uma instância que já reconheceu o problema? A cota baixa pode operar, no plano institucional, com a mesma lógica: reconhece-se para melhor desmentir. Pode ser, nesse sentido, mais sofisticada que a ausência de cota, porque inocula a instituição contra a crítica.

Resta, evidentemente, a leitura mais favorável: 10% pode ser teto político ou piso estratégico. Se for piso, isto é, primeira medida de uma política em construção, com revisão prevista, com indicadores de monitoramento, com efeito catalisador sobre outras transformações, então não é tokenismo, é início de processo. A diferença não está no número isolado, mas no enquadre institucional em que esse número aparece: a cota é apresentada como suficiente ou como insuficiente-em-movimento? Há prazo para revisão? Há comissão de acompanhamento? Há mudança correspondente no corpo docente, ou apenas no discente?

Talvez a questão produtiva não seja “10% é ou não é tokenismo”, mas: o que essa cifra revela sobre o que a instituição é capaz de suportar como transformação? O número não é apenas técnico, é sintomático. Ele expressa o ponto até o qual o pacto consente em se rever sem se desfazer. Nesse sentido, 10% não é um dado a ser avaliado moralmente, insuficiente versus suficiente, mas a ser lido como índice clínico da posição da instituição diante de sua própria história.

O mapeamento desses dispositivos não tem pretensão exaustiva. Ele tenta apenas tornar visível a rede heterogênea de mecanismos discursivos, econômicos, seletivos, transferenciais, administrativos pela qual o pacto da branquitude se reproduz no campo da formação. O gesto que proponho é menos o de denunciar ou negar os investimentos de membros do Departamento em importantes ações afirmativas, e mais o de oferecer um vocabulário analítico para que cada um desses dispositivos possa ser nomeado e, eventualmente, desarmado.

Sobre a Comissão Holmes

A Comissão Holmes (CO-REAP — Commission on Racial Equality in American Psychoanalysis) foi criada em 2020 pela Associação Psicanalítica Americana (APsA) em resposta ao movimento antirracista que ganhou força naquele ano, especialmente após o assassinato de George Floyd. A comissão foi presidida pela psicanalista Dorothy Holmes e teve como mandato investigar o racismo sistêmico dentro da própria psicanálise americana: não o racismo que os analistas tratam nos pacientes, mas o racismo que opera nas instituições onde os analistas se formam, ensinam e trabalham.

A investigação combinou questionários, entrevistas e grupos focais com candidatos, analistas formados, professores e supervisores, brancos e não brancos, em institutos filiados à APsA e em institutos independentes. Os achados foram contundentes: candidatos negros e de outras minorias racizadas relataram sistematicamente sentir-se menos livres para discutir raça, etnicidade e outros marcadores identitários com seus analistas didatas e supervisores; relataram experiências de racismo que não foram elaboradas institucionalmente; e descreveram um isolamento crônico como “únicos” em seus institutos. A presidente da comissão afirmou explicitamente que tudo o que encontraram na APsA era verdadeiro também nos institutos independentes, o que torna o relatório uma referência incontornável para pensar qualquer instituição psicanalítica.

 

Referências bibliográficas

Bento C. (2022). O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras.

Collins P. H. (2019). Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Tradução de Jamille Pinheiro Dias. São Paulo: Boitempo.

Ferenczi S. (1932/1990). Diário clínico. São Paulo: Martins Fontes.

Ferenczi S. (1933/2011). “Confusão de línguas entre os adultos e a criança.” In: Obras completas: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes.

Foucault M. (1977/2013). “O jogo de Michel Foucault” (entrevista). In: Ditos e escritos, vol. IX. Rio de Janeiro: Forense Universitária, pp. 45–77.

Holmes D. E. et al. (2024). “In pursuit of racial equality in american psychoanalysis: Findings and recommendations from the Holmes Commission.” Journal of the American Psychoanalytic Association, v. 72, n. 3, pp. 407–552.

IBGE (2023). Censo demográfico 2022: Identificação étnico-racial da população, por sexo e idade: Resultados do universo. Rio de Janeiro: IBGE.
Ignácio A. Paim Filho e Wania M. C. F. Cidade (2020). “Podem negros e negras frequentarem os institutos de psicanálise?” Observatório da FEBRAPSI. Disponível em: https://febrapsi.org/publicacoes/observatorio/podem-negros-e-negras-frequentarem-os-institutos-de-psicanalise/

Kanter R. M. (1977). Men and women of the corporation. New York: Basic Books.

Kilomba G. (2019). Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó.

Leonardi F. G. & Faustino D. M. (2025). “Racismo e sofrimento mental de estudantes negros na universidade.” Olhares: Revista do Departamento de Educação da Unifesp, v. 13, n. 1.

Wingfield A. H. (2019). Flatlining: Race, Work, and Health Care in the New Economy. Berkeley: University of California Press.

__________

[1] Psicanalista e psicólogo, doutor em Psicologia Clínica e mestre pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor no Curso de Psicanálise, integrante da Comissão de Admissão e supervisor no Projeto de supervisão para estudantes negros e indígenas.

[2] Foucault M. (1977). “O Jogo de Michel Foucault” (entrevista). In: Ditos e escritos, vol. IX. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013, p. 45.

[3] Foucault M. (1977). “O Jogo de Michel Foucault” (entrevista). In: Ditos e escritos, vol. IX. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013, p. 47.

[4] Holmes D. E. et al. (2024). “In Pursuit of Racial Equality in American Psychoanalysis: Findings and Recommendations from the Holmes Commission.” Journal of the American Psychoanalytic Association, v. 72, n. 3, p. 407–552.

[5] Collins P. H. (2019). Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Tradução de Jamille Pinheiro Dias. São Paulo: Boitempo, p. 20; apud Kilomba G. (2019). Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, p. 65.

[6] Ignácio A. Paim Filho e Wania M. C. F. Cidade (2020) “Podem negros e negras frequentarem os institutos de psicanálise?” Observatório da FEBRAPSI. Disponível em: https://febrapsi.org/publicacoes/observatorio/podem-negros-e-negras-frequentarem-os-institutos-de-psicanalise/; Leonardi F. G. & Faustino D. M. (2025). “Racismo e sofrimento mental de estudantes negros na universidade.” Olhares: Revista do Departamento de Educação da Unifesp, v. 13, n. 1.

[7] Kanter situa em torno de 15% o limiar abaixo do qual os efeitos de tokenismo operam com máxima intensidade: hipervisibilidade, leitura como representante do grupo, isolamento. A passagem para uma posição em que a tida minoria pode efetivamente se constituir como grupo, e não como conjunto de exceções, ocorre, segundo ela, quando se atinge cerca de 35% do total. Os 10% propostos pelo sistema de cotas estão, portanto, claramente na zona crítica.

[8] Kanter R. M. (1977). Men and Women of the Corporation. New York: Basic Books. A extensão da noção de tokenismo para o contexto racial em instituições é desenvolvida, entre outras, em Wingfield A. H. (2019). Flatlining: Race, Work, and Health Care in the New Economy. Berkeley: University of California Press.

[9] Ferenczi S. (1933/2011). “Confusão de línguas entre os adultos e a criança.” In: Obras Completas: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, p. 117. A elaboração do desmentido como mecanismo distinto do recalque é retomada no Diário Clínico (1932/1990. São Paulo: Martins Fontes).

uma palavra, um nome, uma frase e pressione ENTER para realizar sua busca.