boletim online

jornal de membros, alunos, ex-alunos e amigos de psicanálise

A pergunta que não quer calar: o que pode a clínica psicanalítica diante dos quadros de autismo na infância?

por Marise Bartolozzi Bastos[1]

 

O tratamento das psicoses infantis e do autismo impõe uma série de questões aos psicanalistas que se dedicam à clínica com crianças por ser um trabalho que apresenta particularidades que não foram previstas nas teorizações da clínica freudiana, uma vez que não estamos diante do setting clássico da “cura pela palavra”.

Então, como pensar uma perspectiva de tratamento psicanalítico dirigido a crianças que muitas vezes não falam e pouco ou nada se interessam pelo contato com o outro?

É inevitável que o analista se interrogue sobre os princípios da psicanálise que irão nortear as suas intervenções já que no tratamento dessas crianças, inúmeras vezes, não há palavra, não há grafismo, não há brincar.

Para introduzir a questão, vale lembrarmos duas célebres frases proferidas por Jacques Lacan: a primeira no seminário sobre as psicoses quando afirma que “a psicose não é estrutural, de jeito nenhum, da mesma maneira na criança e no adulto” (1985, p. 135) e a segunda respondendo a J-A Miller na “Abertura da Seção Clínica” de Vincennes (1977, p. 9) quando diz que “a psicose é isso diante do que um analista não deve recuar em nenhum caso”.

A psicose infantil e o autismo apresentam formas de conexão/desconexão com o Outro distintas das rupturas promovidas pelo desencadeamento clássico da psicose no adulto. No caso das crianças isso pode acarretar consequências importantes em seu processo de socialização, desenvolvimento e de escolarização.

Portanto, quando se trata de um quadro de autismo na infância, sabemos que o trabalho analítico deverá lidar com algumas questões que exigem manejos clínicos diferentes daqueles adotados na direção de tratamento da criança neurótica como, por exemplo, buscar estratégias inclusivas que tornem possível a circulação social da criança e a sua escolarização. Temos aqui um desafio importante para a clínica psicanalítica pautada no setting clássico, uma vez que a interlocução com educadores não poderá ser descartada.

Além disso, a importância de um trabalho de escuta dos pais que, não raro, após terem percorrido um longo caminho de consultas médicas em busca de diagnóstico, precisam de um espaço de acolhimento que possibilite o luto do filho(a) idealizado(a) e a ressignificação do lugar dessa criança na linhagem familiar.

Sabemos, também, que o espaço, o corpo e o lúdico encontrarão dificuldades em serem representados no brincar e exigirão novos recursos no campo das intervenções clínicas; destacamos, ainda, a necessidade de um trabalho que faça apostas na emergência do sujeito e possa barrar o gozo do Outro que se impõe a essa criança, o que se apresenta como um desafio ético ao terapeuta que precisará operar no avesso da clínica psicanalítica convencional (operando uma psicanálise invertida que vai do real ao simbólico), ou seja, fazendo um trabalho de construção, de antecipação subjetiva, em contraponto à desconstrução esperada de um processo analítico tradicional que vai do simbólico ao real. (Soler, 1994; Vorcaro, 1999).

O trabalho psicanalítico com os quadros de autismo(s) na infância tem buscado investigar e aprofundar os aportes teórico-clínicos que possam fazer face aos diferentes desafios/obstáculos que essa clínica apresenta, entre eles, o de ser atravessada por diversas posições discursivas, a saber: dos pais, da escola e dos especialistas da saúde implicados na rede de atendimentos a essas crianças (médicos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros).

Não será objeto de nossa discussão abordar o histórico debate acerca da etiologia psicogênica ou organogênica do autismo, tampouco traremos as divergências acerca das definições e do diagnóstico do que se entende por autismo e psicose na infância, pois sabemos que mesmo entre os psicanalistas de uma mesma orientação teórica não há consenso sobre o diagnóstico diferencial entre a psicose infantil e o autismo.

O que queremos ressaltar é o fato de que na clínica psicanalítica, os quadros de autismo na infância não são tratados com medicamentos ou medidas educativas de modelagem do comportamento, como sugerem médicos organicistas e terapeutas cognitivistas, mas estamos diante de sujeitos que devem ser escutados na sua singularidade.

O trabalho com uma criança autista se faz ao avesso da cura clássica: o objetivo do analista não é interpretar os fantasmas de um sujeito do inconsciente já constituído, mas permitir o advento do sujeito. Faz-se aqui intérprete, no sentido de tradutor de língua estrangeira, ao mesmo tempo em relação à criança e aos pais. Sabemos a que ponto as condutas estereotipadas e as reações paradoxais das crianças autistas podem desorganizar os pais, ocultando, para eles, inclusive o valor de ato ou de fala de tal produção de seu filho. Este primeiro trabalho de tradutor vai permitir, aos pais olhar a criança em seu brilho de chama aí onde então só viam dejeto. (Laznik, 1997, p.11, itálicos do autor)

A contribuição da psicanálise para pensar o(s) autismo(s) trata das relações da criança com o campo da linguagem, ou seja, a partir das primeiras (im)possibilidades da criança de entrada no mundo simbólico, ou dito de outro modo, a partir da relação do bebê com a mãe (ou qualquer outro adulto) que se apresenta diante da criança como o primeiro Outro primordial.

O filhote humano nasce prematuro e, portanto, são imprescindíveis os cuidados de um adulto para que o bebê possa sobreviver e humanizar-se. O olhar, o toque, o cuidado, a palavra, irão banhar o bebê nesse universo simbólico atribuindo-lhe um lugar a partir do qual ele poderá se reconhecer. É o campo da linguagem que tornará possível que o filhote da espécie transforme o mero organismo em um corpo erógeno, mapeado pelo investimento libidinal que o adulto fará nos cuidados com o bebê.

Lacan afirma (1998) que “O Outro é o lugar em que se situa a cadeia significante que comanda tudo que vai poder presentificar-se do sujeito, é o campo desse vivo onde o sujeito tem que aparecer” (p. 194). Se algo impossibilita a apresentação desse mundo simbólico ao bebê, se algum impasse ocorre nesse investimento do Outro primordial sobre o bebê, pode ocorrer um entrave na entrada desse filhote de humano no campo da linguagem, dificultando, portanto, a sua constituição como sujeito desejante.

Para Laznik (2004), os primeiros sinais de uma estruturação autística estão na ausência de olhar entre a criança e a mãe durante os primeiros meses de vida. Contudo, este não-olhar entre mãe-bebê não desencadeia necessariamente uma síndrome autística, mas revela uma dificuldade no estabelecimento da relação especular. A autora articula esse entrave na instauração da imagem do corpo com uma consequente impossibilidade da instauração do circuito pulsional e com a não instauração da relação simbólica fundamental – a presença/ausência materna – desviando a criança do advir de um sujeito desejante. Observa-se, portanto, que há um obstáculo na própria presença original do Outro que é um marco importante na constituição psíquica da criança.

 

Kupfer (2000) assinala que

o corpo de um bebê jamais sairá de sua condição de organismo biológico se não houver um outro ser que o pilote em direção ao mundo humano, que lhe dirija os atos para além dos reflexos e, principalmente, que lhes dê sentido. Assim, de nada adiantará um organismo absolutamente são se não houver quem o introduza no mundo do humano, vale dizer, da linguagem. (p.51)

Portanto, tais colocações deixam claro que não são as mães reais – que encarnam esse papel social – as responsáveis pelo estabelecimento de um quadro de autismo na criança. Para os psicanalistas trata-se de algo que faz obstáculo ao estabelecimento da função do Outro primordial, enquanto um operador psíquico fundamental – tesouro dos significantes – que introduzirá o bebê humano no campo da linguagem.

Nesse sentido, a direção de tratamento na clínica psicanalítica do autismo apontaria seu vetor para os momentos fundantes da constituição do psiquismo e caberá ao analista fazer um trabalho de construção e antecipação subjetiva que é o avesso da desconstrução proposta em um processo analítico convencional.

As intervenções clínicas com crianças psicóticas e autistas têm como norte possibilitar aberturas significantes, e mesmo que seja pela via de nomear alguns deles, a intenção é permitir que a criança possa desdobrá-los para encontrar um lugar possível de enunciação. Talvez isso possibilite que a criança consiga dizer de si e do outro, “saindo da alienação a que estava fixada para um local separado do lugar de gozo … a que estava submetida. Isto seria um ato analítico com crianças: um ato que permitiria uma abertura … um engajamento da criança ao Outro simbólico, e assim, do laço social.” (Neves & Vorcaro, 2010, p.394).

Vemos, portanto, a presença da “primeira educação” (introdução do bebê humano no campo dos humanos) no ato analítico com crianças autistas. Trata-se de abrir para elas o laço com o Outro simbólico, ação semelhante à do agente materno na qualidade de Outro primordial.

Esse é o mote para afirmarmos que na clínica psicanalítica com crianças autistas, psicanálise e educação (que não deve ser tomada como sinônimo de pedagogia) podem convergir, posto que “educar é transmitir marcas simbólicas que possibilitem ao pequeno sujeito usufruir um lugar no campo da palavra e da linguagem a partir do qual seja possível se lançar às empresas impossíveis do desejo.” (Lajonquière, 2004, para.18)

Parte-se do princípio de que tratar essas crianças é dar-lhes a chance de retomar a estruturação psíquica, reordenando o campo da palavra e da linguagem, a partir do qual o sujeito poderá usufruir de um lugar de enunciação.

Nessa mesma linha, Antonio Di Ciaccia (1997, p.21) afirma que “o dever do analista é então o de fazer com que a palavra constitua o sujeito.”

Podemos afirmar, então, que quando se trata da clínica com crianças autistas, as práticas analíticas e educacionais não são disjuntas, caminham em uma mesma direção e em um mesmo sentido, podendo, assim, estar em uma relação de continuidade, tal como na figura topológica da banda de Moebius[2]. (Bastos, 2012)

A banda de Moebius é uma figura que subverte nosso espaço comum de representações, posto que as noções de avesso e direito passam a ser contidas uma na outra.

Temos uma estrutura que permite localizar o tratar e o educar em uma relação de continuidade, pois essa superfície tem a propriedade de ter apenas um único lado, uma vez que o lado direito da fita se prende ao lado do avesso.

Eis a questão enigmática dessa figura topológica, que nos coloca diante de um paradoxo: na superfície moebiana o dentro é o fora, o direito é o avesso e, portanto, nos valemos da fita moebiana para dizer que na perspectiva psicanalítica de tratamento das crianças autistas o tratar é o educar e o educar é o tratar. (Bastos, 2012)

Apostamos em uma articulação entre psicanálise e educação que subverte a premissa de que se trata de campos disjuntos, pois ao se estabelecerem em uma relação de continuidade na fita moebiana, temos uma prática clínica que articula psicanálise e educação, uma vez que nessa clínica do infans, faz-se falar ao tratar educando e ao educar tratando.

Disso decorre uma outra perspectiva importante no trabalho com crianças autistas que é a inclusão escolar. Sabemos que essa inclusão não é fácil e a interlocução com os profissionais do campo da educação não costuma ser confortável para os psicanalistas. O tema configura, portanto, um desafio para aqueles que se dedicam a essa clínica.

Contudo, a escola pode ser uma “ferramenta terapêutica” para uma criança que viveu entraves em seu processo de constituição subjetiva, posto que a instituição escolar, enquanto discurso social, oferece a essa criança as leis que regem as relações entre os homens, leis que regem o simbólico, podendo assim contribuir para uma retomada da estruturação subjetiva que sofreu entraves.

Vemos aqui a possibilidade de haver efeitos terapêuticos na inclusão escolar, no sentido de promover a circulação social da criança, pois a escola oferece mais do que a chance de aprender, ela oferece uma possibilidade de ordenação do campo simbólico, oferece as leis que regem as relações entre os humanos para que a criança se aproprie daquilo que lhe for possível. A inclusão escolar é vista como uma aposta de que a circulação discursiva – a instituição escolar – possa produzir efeitos de sujeito no tratamento dessas crianças.

 

Referências

Bastos, M. B. (2012). Incidências do educar no tratar: desafios para a clínica psicanalítica da psicose infantil e do autismo [Tese de Doutorado]. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo. Disponível em https://teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-21092012-105601/pt-br.html

Ciaccia, A. D. (1997). Da pedagogia à psicanálise. Estilos da Clínica2(2), 18-26. https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v2i2p18-26

Kupfer, M. C. M. (2000). Educação para o futuro. São Paulo: Escuta.

Lacan, J. (1977). Abertura da Seção Clínica. Ornicar?, 9, 7-14. Disponível em https://traco-freudiano.org/tra-lacan/abertura-secao-clinica/abertura-clinica.pdf

Lacan, J. (1985). O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na cnica da psicanálise, 1954-1955. Rio de Janeiro: J.Z.E.

Lacan, J. (1998). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálisee, 1964. Rio de Janeiro: J.Z.E.

Lajonquière, L. (2004). A infância, a escola e os adultos. In Anais, 5. Colóquio do LEPSI IP/FE-USP, São Paulo, 2004. Disponível em http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=MSC0000000032004000100003&lng=pt&nrm=isso

Laznik, M.-C. (1997). Rumo à palavra. Três crianças autistas em psicanálise. São Paulo: Escuta.

Laznik, M-C. (2004). A voz da sereia: O autismo e os impasses na constituição do sujeito. Salvador: Álgama.

Neves, B. R. da C., & Vorcaro, Ângela M. R. (2010). A intervenção do psicanalista na clínica com bebês: Rosine Lefort e o caso Nádia. Estilos da Clínica15(2), 380-399. https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v15i2p380-399

Soler, C. (julho 1994). Le désir du psychanalyste. Où est la différence? Lettre Mensuelle, 131, 11-13. Paris: Campo Freudiano.

Volnovich, J. (1993). A psicose na criança. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.

Vorcaro, A. (1999). Crianças na psicanálise: Clínica, instituição, laço social. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

__________

[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae; Doutora pelo IPUSP, pesquisadora do LEPSI-USP.

[2] A banda de Moebius (Figura 1) é um instrumento topológico (proposta pelo matemático Ferdinand Moebius em 1861) que serve para caracterizar uma estrutura que subverte nosso espaço comum de representações. Pode ser construída com uma meia-torção dada, por exemplo, em uma tira retangular de papel, para depois se tomar suas duas extremidades e juntá-las. Esse movimento é necessário para caracterizar uma estrutura que subverte o espaço de representações, pois as noções de avesso e direito passam a ser contidas uma na outra.

uma palavra, um nome, uma frase e pressione ENTER para realizar sua busca.