Transmissão psíquica e transgeracionalidade: Não eram memórias, eram fantasmas
por Cristiane Lopes[1] e Maria Angelina Guimarães Cabral[2]
Este tema capturou a atenção de um grupo de analistas que começou a se reunir sob a coordenação de Cristiane Lopes. Assim nasceu mais um Grupo de Trabalho do Departamento de Psicanálise, com seu projeto apoiado pela Incubadora de Ideias.
Em 28 de agosto ocorreu o primeiro encontro, que contou com a presença de 21 colegas psicanalistas[3](3), a partir de um desejo comum: pensar a transmissão psíquica e o que, entre gerações, sujeitos e grupos, pode permanecer mesmo quando não encontra uma narrativa, uma lembrança ou uma palavra.
Cada um traz consigo experiências, saberes e questões. Enxergamos nesta diversidade a possibilidade de uma construção coletiva, e apostamos na horizontalidade e na potência do trabalho em grupo para produzir novas perguntas e deslocar alguns de nossos modos de pensar.
O grupo é ocasião para uma palavra encontrar outra, uma experiência despertar mais uma, e uma nova pergunta desorganizar uma certeza. Mais do que o que se passa entre os membros, há algo que se transforma através dos movimentos do encontro, talvez essa seja a experiência da transmissão. É nesse sentido que nos interessa a experiência coletiva: aquilo que circula, que produz pertencimentos e também diferenças; os modos de nomear o outro, os preconceitos, as exclusões e os ideais que atravessam nossas histórias e podem chegar até nós antes mesmo que possamos reconhecê-los como herança.
Para inaugurar esse percurso, escolhemos como disparador “Restos de Carnaval”, de Clarice Lispector, acompanhado pela leitura de recortes da biografia da autora, escrita por Benjamin Moser. Neste conto, há uma atmosfera que vai se tornando, pouco a pouco, mais carregada e intensa. A alegria do Carnaval aparece atravessada por um mal-estar, o desejo de participar da festa encontra algo que o retém, e a menina permanece entre o dentro e o fora, entre o movimento e a espera. Há uma espécie de tempo parado, uma suspensão, uma clausura que não se explica inteiramente pela situação presente. O que se sente no conto parece exceder aquilo que pode ser imediatamente dito ou representado.
Talvez seja justamente aí que a transmissão psíquica encontre uma de suas formas de expressão: no que não chega como história contada, mas permanece como atmosfera, como silêncio, como peso, como algo que atravessa o sujeito. Aquilo que não pôde encontrar lugar na palavra continua presente, insistindo de outras maneiras. O tempo suspenso do conto nos aproxima desse tempo particular da transmissão, o que não pôde ser simbolizado parece não passar, e insiste. Algo se apresenta sem representação.
A leitura de Benjamin Moser acrescentou outras ressonâncias a essa experiência, ao nos aproximar da história familiar de Clarice Lispector e das marcas deixadas pela doença, violência e silêncios. Abriram-se perguntas sobre o que uma história pode transmitir quando não encontra palavras para ser contada.
Foi assim que iniciamos nosso percurso: entre diferentes trajetórias, uma tarefa comum e muitas perguntas. Que marcas recebemos sem saber? O que permanece quando uma experiência não pôde encontrar palavras? O que se transmite nos silêncios, nos afetos, nos modos de estar no mundo, naquilo que passa de uma geração a outra sem jamais ter sido propriamente contado? E o que pode acontecer quando aquilo que foi recebido encontra, no encontro com o outro, um espaço de escuta e de elaboração?
Há na transmissão psíquica algo que nos precede e pode pesar sobre nós, mas há também a possibilidade de transformar aquilo que recebemos. Entre o que herdamos e o que podemos fazer com essa herança, abre-se um espaço. E é aí, entre uma história e outra, entre uma palavra e outra, que queremos estar. Talvez assim uma experiência possa deixar de ser apenas um resto e encontrar uma nova possibilidade de existência. E talvez seja também aí, no encontro com o outro, que algo possa finalmente começar a se transmitir.

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[1] Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde participa de grupos de trabalho. Especialização em Psicossomática Psicanalítica e Psicoterapia Psicanalítica de Casal, no mesmo Instituto.
[2] Médica formada pela USP, especialista em Psiquiatria pelo IPq-HCFMUSP. Membro do Departamento de Psicanálise do Sedes, onde participa de grupos de trabalho.
[3] Integrantes do grupo: Adriana Elisabeth Dias, Ana Helena Seixas de Campos, Ana Maria Siqueira Leal, Carol Steward Figueiredo, Cecilia Galli, Cristiane Lopes (interlocutora), Fabiana Villas Boas, Gabriel Basilio Barbosa Costa, Liliane Mendonça, Magali Pacheco Simões, Marcela Assef, Maria Angelina Guimarães Cabral, Maria Aparecida Pinto, Marina Singer Figueiredo, Paula Rizzo, Renata de Magalhães Gaspar, Sílvia Gonçalves, Tânia Corghi Veríssimo, Thais Rodrigues Silva, Vânia Paschotto e Victoria Bragante.