Encontros e desencontros
pela Comissão de Sindicância – Diretoria do Instituto Sedes Sapientiae[1]
No dia 25 de março de 2026, a ONU abre seu site com a seguinte manchete: “A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) adotou, nesta quarta-feira, uma resolução para o reconhecimento do tráfico transatlântico de escravos como ‘o crime mais grave contra a humanidade’”.
Pois bem, curiosa e covardemente, países como Portugal, Reino Unido, França e Espanha abstiveram-se de votar. Chovendo no molhado, justamente os que mais traficaram e mais se beneficiaram do “crime mais grave contra a humanidade”, dilacerando famílias, humilhando corpos, destruindo histórias e culturas, traumatizando e fragilizando psiquismos.
Oxalá o tráfico e seus efeitos traumatizantes tivessem ficado lá atrás. Eles estão em nosso cotidiano, nas mínimas tarefas do dia a dia; estão em nós e entre nós.
Em consonância com essa realidade, o Instituto Sedes Sapientiae, assim como seus departamentos — e, salientamos aqui, o Departamento de Psicanálise —, vem adotando políticas afirmativas cujo intuito é combater o racismo contra negros e indígenas. Para isso, instituiu a política de cotas, abriu espaços de diálogo e de acolhimento aos alunos, que muitas vezes vêm de contextos e culturas muito diferentes de uma instituição branca, além de promover eventos sobre o tema e espaços de letramento, entre outras iniciativas.
O desafio é imenso e vai muito além de abrir cotas para nossos colegas negros. Ele significa possibilitar encontros entre pretos e brancos — para utilizar uma péssima maneira de caracterizar as pessoas —, num país que prima pelos desencontros. Desencontros forjados por meio de hedionda violência e mantidos com gotas diárias, se não horárias, de racismo. O trauma, socialmente capilarizado, reincide, impedindo movimentos em direção a uma ou mais saídas.
É nesse contexto que o Instituto Sedes Sapientiae se encontra — ou se desencontra. As salas de aula, a lanchonete, o auditório e a biblioteca estão mais diversos. Mas isso não garante uma convivência livre de preconceitos e, pior, de discriminações, uma vez que o racismo e suas práticas também estão capilarizados na instituição — e em seus membros, em nós.
Ouve-se um burburinho nos corredores: “Ah, sabemos que existem atos racistas aqui no Sedes”. Onde, quem, quando? Perguntas sem resposta. Os temas do racismo têm chegado à Diretoria, que, para tomar uma posição diante da questão, está criando dispositivos de escuta. Essas pequenas violências têm transbordado no Instituto e nos confrontam com o imenso desafio de renunciar à recusa, de caráter nacional, que nos impede de ver e significar a dimensão da violência praticada. Diretoria, alunos e professores tomaram o desafio para si, felizmente, e criaram dispositivos de diálogo e elaboração: reuniões, rodas de conversa, comissão de sindicância, WhatsApp, chamadas de vídeo, encontros presenciais — um verdadeiro carrossel.
Nesse carrossel, a recusa apresenta-se firme e forte, e alguns de nós, membros do Instituto, podemos declarar nunca ter havido, de nossa parte, intenção ou prática racista — o que nos remete diretamente à Assembleia da ONU acima mencionada. Abstenção geral. Como provocou Isildinha Baptista em uma das rodas de conversa, a questão não é se eu sou racista, mas “que racista sou eu?”.
Para além dos fatos, dispositivos e encontros (ou desencontros), chama muito a atenção o ambiente afetivo presente nesses espaços. As rodas de conversa, sabiamente sugeridas e criadas pelos alunos para elaborar situações de racismo, são, em geral, tomadas por um tremendo mal-estar, daqueles que dão enjoo e nos deixam sem palavras. Mas, mesmo diante do inominável, o grupo ali estabelecido não se rende e busca encontrar um espaço no qual se possa proteger e encaminhar essa dor — um lugar de resistência.
Nas instâncias construídas pela Diretoria, o afeto predominante tem sido a persecutoriedade: advogados, sindicância, depoimentos, atas, transcrições, oitivas, testemunhas, vítimas, crime — enfim, um ambiente emocional digno de Kafka.
De toda forma, a posição da Diretoria tem sido evitar processos, no sentido de, em vez de punir, encontrar formas de letramento e reintegração. Mesmo não havendo demanda por parte de quem praticou o racismo — e, pelo contrário, havendo recusa (no sentido psicanalítico do termo) de que o tenha praticado —, ainda assim fazemos uma aposta. Esses têm sido os princípios do Sedes; esses têm sido os princípios da psicanálise: antes a reintegração do que a exclusão.
O compromisso que encerra esta primeira fase de um processo muito mais longo é encontrarmos, alunos, curso e direção, um espaço de acolhimento para a dor e para sua transformação em resistência.
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[1] Cristiane Curi Abud, Membro do Departamento de Psicanálise e da Diretoria do Instituto Sedes Sapientiae; Ederiano Pires, funcionário do setor de Logística e Áreas de Apoio do Instituto Sedes Sapientiae; Maria Aparecida Miranda, Membro do Departamento de Psicanálise e da Diretoria do Instituto Sedes Sapientiae.