Parâmetros da política de agora
por Tales Ab’Sáber[1]
“… eles não sabem o que fazem, mas o fazem assim mesmo”
Marx, O capital
1. Complexidade, fragmentação e multiplicação dos mundos políticos
Poucas vezes, ao longo de todo processo de redemocratização brasileira, estivemos em uma situação tão explicitamente complexa e pesada.
Complexa do ponto de vista dos territórios comuns da política, aquela que se apresenta a todos, com suas noções tradicionais que se resolvem com a eleição de um governo. Complexa do ponto de vista das múltiplas formações ideológicas que se enraizam em subjetividades políticas, até mesmo em níveis biopolíticos que se formam agora – o que, no nível dos corpos, faz viver ou morrer, ou mesmo… matar. Complexa do ponto de vista geopolítico, com a emergência do Império de confronto e de imposição explícita estadunidense, que nos tem como alvo – um movimento nacionalista, de capitalismo central, bem articulado às células multiplicadas das formações neofascistas, xenófobas e negacionistas mundiais. O que isso implica na ideia brasileira de nação? Situação complexa também pela fragmentação liberal das pautas de esquerda, ainda básicas, por reconhecimento e direito fundamentais, porém sem força de totalização da vida política comum. E complexa pela presença de uma crise ambiental generalizada, randômica e mortífera. Complexa pela revolução tecnológica na terra aplainada da vida de mercado globalizada, uma 4ª ou 5ª revolução industrial, já mundial e total, que acontece em tempo tão curto, em tempo real, que se confunde com o tempo apocalíptico – ideia que, não por acaso, é cantada em prosa e verso por pastores e estudada como conceito e forma por filósofos em toda parte. Não sabemos ainda quantos milhões de profissionais e gestores simbólicos serão desempregados pela Inteligência Artificial já onipresente, ocupando seus lugares e papéis mais e mais. Mas a ansiedade de tal catástrofe – a velha diferença entre o avanço técnico dos meios de produção versus as relações sociais de produção, de Marx – já está muito presente nas vidas.
2. Subjetivações políticas
Do ponto de um psicanalista político, de um psicanalista atento à sociedade e à política como parte necessária de seu próprio trabalho, que considera o self cultural ou dialético, podemos observar níveis práticos de engajamento e de formatação do desejo sobre o mundo, em disputa e em conflito aberto por posições de poder.
Em geral, na maioria das vezes, os próprios psicanalistas representamos uma classe média cultivada, de nível científico superior, comprometida com justiça social, democracia e alguma crítica, na maioria das vezes genericamente liberal, mas também social-democrata e, em algumas poucas vezes, socialista. Como categoria ligada a aparelhos ideológicos de Estado liberais e sociais, como as Universidades, instituições de formação, sistemas de saúde público e privado, sistema educacional social, os psicanalistas e terapeutas oscilam entre receber a renda mínima para a reprodução da sua própria classe média e participar da vida de distinção e de privilégios simbólicos, com renda muito superior à média do trabalho nacional, quando atendem os ricos brasileiros em seus consultórios particulares e recebem parte da acumulação geral. Em grandes linhas, costumamos ser uma classe média brasileira tendente ao alto, de engajamento científico, político racional, técnico burocrática em relação à gestão do Estado, democrática progressista.
Uma classe de conhecedores de uma espécie de saber estruturado, como são os professores, os artistas, os funcionários públicos gestores, que baseia a própria biopolítica na ideia de um trabalho amplo e mediado por uma sociedade e um país melhores, por construir, com compromisso social e ciência. Uma esquerda de classe média, urbana, cosmopolita, racional e progressista esperançosa, que muitas vezes participa dos privilégios da má distribuição.
No entanto, se essa posição foi simbólica e politicamente hegemônica durante todo o período da redemocratização e do primeiro tempo da última democracia brasileira, sabemos agora que ela não é mais o horizonte garantido da cultura política. Um processo histórico corrosivo do caráter do sujeito político, rumo a tendências gerais autoritárias, quebrou a unidade simbólica e a identificação imaginária de massas, a esperança progressista e democrática no Brasil. Essa nova política simbólica popular de extrema direita também confronta a própria legitimidade da nossa classe média democrática, de cultos razoavelmente bem pagos e seus mundos.
Uma das crises de nosso tempo é o avanço invisível da convocação política do direito à violência como forma de estar na política, que aparece sob muitas modalidades: como conversão da política em violência direta legitimada, elidindo toda racionalidade discursiva e abrindo espaço para a força identificatória e estratégica, através da fantasia de uma guerra, da mentira em massa. O fascismo pode ser pensado como a função social, a velocidade, com que a política é transformada em violência para fins conservadores. O movimento opera tanto a violência da agressão simbólica, da ruptura com o estatuto de direitos comuns de reconhecimento – racismos, machismos, sexismos, xenofobias, nacionalismo autoritário, aceitação de política de exceção como norma etc. –quanto um projeto real maior, de restrição de direitos e destruição da democracia existente.
Essa subjetivação psico-política que confia na liderança da violência, destrutiva e não mediada, alheia a qualquer dado histórico se produziu concretamente, imanentemente, ao processo automático da luta pelo poder no Brasil e à própria democracia liberal funcionando, por assim dizer. Foi o resultado efetivo da convocação das forças sociais e técnicas do tempo para o embate político histórico “normal”, a luta pelo poder e o governo do Estado, que aconteceu nos últimos dez anos. A ruptura psico-política, que fragmentou a unidade da consciência nacional por democracia e desenvolvimento social, arruinando a própria ideia moderna de nação de modo novo, se deu no ano e meio de batalha política “legítima”, de radical vale tudo, que anulou e derrubou o segundo governo eleito petista de Dilma Rousseff – e sua insistência neodesenvolvimentista, reindustrializante.
Todos vimos esse complexo processo histórico, da vida comum de uma democracia forçando a sua crise, que simplesmente repôs a força política do autoritarismo entre nós. É a história de como os liberais brasileiros, de fato neoliberais, tucanos (saudosa memória…) abriram fogo ao governo petista de centro-esquerda e industrializante, não reconhecendo o resultado da eleição de 2014. Aquela ruptura do pacto de reconhecimento existente deu fundamento impertinente para um processo de impeachment, logo encampado pela direita fisiológica brasileira, com base em uma abstrusa acusação geral de corrupção imputada aos governos petistas. Os engajamentos no processo, planejado, financiado e apoiado midiaticamente, foram amplos e populares. Com a guerra política declarada, abriu-se a porta da vida social à nova direita, neoliberal autoritária ou explicitamente neofascista. Porque foi de fato a energia de choque do ódio político e da mentira em massa – coisas como kits gays, mamadeiras de piroca, banheiros trans, proibição de religiões etc. –, que os fascistas promoveram como cultura, que liberou a excitação e a união das massas populares ao redor do ideário. Ao fim do processo, em que liberais oportunistas andaram de mãos dadas com fascistas de linguagem de violência de massas eficaz, a extrema direita que emergia simplesmente derrubou os supostos cavaleiros que os dirigiam, e Bolsonaro, com tudo de pior no mundo que ele sempre representou, chegou ao poder.
O processo político pode ser descrito por estes fatos históricos efetivos, por assim dizer. Mas a abertura da experiência histórica da subjetivação neofascista é muito mais complexa. Os psicanalistas apontaram o processo da radicalidade subjetiva da política da destruição em jogo pela primeira vez, já na época em que ocorriam[2]. Hoje vemos filósofos políticos, com dez anos de atraso, tentarem a explicação de que se trata de fato, de fascismo quando ao tempo original da coisa apenas se recusava a possibilidade real de Bolsonaro chegar ao poder. Pois, na confusão geral produzida para derrubar o governo Dilma-petista, ele chegou, ocupou e destruiu, como era de se esperar. Subiu a rampa do palácio com o juiz herói dos caçadores seletivos de corruptos que, com ações irregulares e ilegais, levou Lula à cadeia, deixando Bolsonaro sem adversário. E legitimando para certa classe média antissocial brasileira o seu novo líder, chefe de gangue política, o capitão expulso do exército Jair Bolsonaro.
Esta imensa crise política “normal”, de uma democracia e sociedade radicalmente cindidas e de imensa desigualdade de poderes como é a nossa, uniu liberais, neoliberais, autoritários e fascistas, para a derrubada de um governo burocrático progressista, que forçava investimentos industriais ao capital brasileiro, enquanto os ricos do país preferiam juros garantidos de 15% ao ano. Ao final, o processo deu no amplo predomínio político dos novos fascistas, neoliberais autoritários, que os liberais acreditavam controlar e a esquerda crítica evitava nomear.
Socialmente, esse processo visível da política significou um redesenho expressivo dos interesses de classe e das identificações, das nomeações na politização de tudo na vida, promovida pelos “conservadores” brasileiros do nada. Entramos no tempo em que a moça que trabalha em minha casa, uma brasileira batalhadora das “classes médias” ditas C, dos três ou quatro mil reais por mês, podia dizer com orgulho, a partir de sua vida no TikTok, no Instagram e nos dois programas de pastores que ouve todos os dias: “Eu sou de direita”. E, com esta autoidentificação política, criticar os preguiçosos e perversos do Bolsa Família, não aceitar a vitimização dos negros, autorizar o massacre policial de bandidos e admirar abertamente a vida e os hábitos dos ricos, que não devem ser criticados nem pensados como problema de nenhum modo.
A conversão ideológica pós-democrática foi feita e alimenta agora a vida dura de uma trabalhadora brasileira com o surplus do prazer desrecalcado de odiar os de baixo, os mais pobres do que ela; desde a autorização de um amplo sistema ideológico e de justificativas que de fato chegou ao poder pautando o desejo político desde cima.
O fato é que a tomada totalizante do campo antipetista pelo neofascismo, liberado estrategicamente por liberais anti-esquerda em guerra total pelo poder, há muito se tornou uma reorganização política de classes e de interesses no Brasil. Baseado em estrutura simbólica sádico paranoica; ativação, com técnica de agora, de princípios psíquicos muito arcaicos; o bolsonarismo se tornou movimento político concreto de classes e de práticas sociais correntes, redesenhados para a sua guerra, como choque antidemocrático, antissocial e pós progressista. A essa altura não podemos mais negar a integração de amplos setores de classe pactuados e interessados no sucesso da política neofascista. Esses setores da vida nacional foram organizados e integrados na ordem política da nova direita, e oscilam constantemente entre 20% (núcleo duro permanente) e 40% (tendência estável) da opinião pública nacional pesquisada. A tentativa massiva de golpe, com ampla base, financiamento e participação popular, de 8 de janeiro de 2022, não foi um fenômeno social vazio, solto no ar da vida brasileira, um raio solitário caindo sobre Brasília e o Brasil. De fato, o bolsonarismo convocou, organizou e armou simbolicamente – com argumentos e excitadas práticas de propaganda e mentira em massa, movidas pelos próprios adeptos em todo o país – os setores sociais que passaram a marchar, por delírio e por interesse, pelo capitão.
Passou a existir um povo de Bolsonaro, que o fascismo chama de povo brasileiro, suas bases sociais reais, que dão lastro e dão corpos ao movimento, e que a esquerda institucional e também a identitária, não se incomodou suficientemente em ter perdido para a democracia. Não se trata apenas de direita versus esquerda, mas de reordenação intensa da própria tessitura social à direita.
Trata-se afinal, de amplos setores do agronegócio, de 70% dos evangélicos e de toda família militar e policial em todos os Estados brasileiros. Trata-se, ainda, de qualquer tipo de miliciano, capanga, matador, garimpeiro que se espalham pelo país, além de uma classe média arrivista e voraz, viciada em consumo e ostentação, antissocial por tradição nacional, servil ao poder e em busca de algum grau de exploração qualquer de alguém. Mais hordas de pobres brasileiros de vida péssima, que têm apenas o ressentimento e a agressão como política, e mais os computadores que fazem cálculos em milhões de dólares e de euros da Faria Lima, em busca de ajuste fiscal e de privatização para eles próprios.
Isto tudo contra aquela classe geral dos conhecedores, classe média urbana informada e formada, liberal, democrata dos direitos civis e humanos, de professores, cientistas, funcionários públicos, artistas, psicólogos e psicanalistas, muitas vezes bem pagos para acreditar em seu próprio mundo. E contra os pobres que mantêm a árdua consciência de seus interesses de classe e de raça, que não se transformaram em indivíduos em busca de uma supremacia qualquer, um assalto qualquer a direitos, vida ou ambiente, o fundo real da expectativa de poder bolsonarista. Mais a consciência popular lulista do nordeste brasileiro.
O que vemos é que a hegemonia integradora nacional do progressismo democrático, liberal social-democrata sem pressa, foi quebrada e fragmentada em outros modos de ser da política. A lógica política nacional que garantiu a democracia formal até 2016, que sabemos ser socialmente defeituosa, foi corroída, foi distorcida e foi fraturada em nome de um novo real político.
Ela foi esburacada por uma gigantesca máquina de interesses e sociedade, que funciona com nova técnica, entre a falsificação histórica, o negacionismo impertinente e a certeza de que o ressentimento pode ser operado pela integração dos ideais dos eus ao líder fascista, com o ganho imediato do desrecalque sádico, pela ordem de uma primazia, um poder qualquer, sobre qualquer diferença.
A unidade da consciência democrática brasileira está perfurada e sitiada, por todas as práticas discursivas e sociais, incluindo aí a própria demenciação e a fúria de atuação dos adeptos, que chamamos de neofascismo.
3. Choque e terrorismo imperial
A fase do neofascismo em seus vínculos com os Estados mudou.
Muitos pensaram a eleição de Bolsonaro em 2018 como resultado pontual da importação das estratégias de ocupação das redes sociais, manipulação e envio de notícias falsas em massa, do tipo Cambridge Analytica, a estratégia que elegeu Donald Trump, esquecendo que a organização e integração das novas direitas nas redes e na política de assalto, no Brasil, ocorreu anos antes do episódio da eleição do fascista popular brasileiro. Os grupos de ataque à democracia brasileira e à Dilma Rousseff se organizaram fortemente por si mesmos desde 2011. Eles surgiram como frentes de combate ao Plano Nacional de Direitos Humanos dos governos de esquerda; à Comissão da Verdade sobre os mortos e os desaparecidos da ditadura. No âmbito rural, como organização política contra o avanço da regulamentação do reconhecimento de territórios indígenas, com base na arqueologia dos cemitérios originais, os tekohas, conquistado pelos antropólogos políticos junto ao governo e, amplamente, no ressentimento de classe média que se descobria conservadora, contra o estabelecimento das cotas raciais e sociais nas Universidades Públicas e movimentos semelhantes de estruturação de interesses sociais e coletivos no Brasil.
2011 é exatamente o ano do primeiro robô de replicação e multiplicação de mensagens bolsonaristas nas redes. Junto com ele, o uso das redes sociais e chats de direita inundaram gradualmente a internet. Grupos de militares e ex-militares, centralizados nos Clubes Militares, se autoorganizaram para reviver farsescamente a ideia de comunismo no governo e no país, convocando a guerra simbólica pela própria vida, repetindo sintomas políticos do passado, para atacar a Comissão da Verdade que os levava a julgamento simbólico. Olavo de Carvalho centralizava um outro hub de cursos de extrema direita nas redes, formando pseudo filósofos e intelectuais no pensamento reacionário e supremacista branco norteamericano. A partir de 2013, com a reabertura do espaço político das ruas pela esquerda do Movimento Passe Livre, a nova direita o ocupou inteiramente e novos propagandistas neoliberais e neofascistas se tornaram influencers de internet, comunicadores e propagandistas de massa, convocando as ações pelo impeachment – coisas do tipo Vem pra Rua, MBL, Endireita Brasil. Apoiados na Operação Lava Jato, do então juiz Sérgio Moro em conluio ilegal com o então promotor evangélico Deltan Dallagnol, em um processo que ocupava todos os meios de comunicação tradicionais nacionais, por baixo e nas ruas centenas de grupos autoorganizados para a política de assalto davam legitimidade e forçavam a queda do governo eleito. Este processo, que foi uma avalanche, não encontrou nenhuma resistência organizada e popular à esquerda, paralisada no próprio mal-estar da exposição cotidiana da grande corrupção na Petrobras.
Em um ano e meio de campanha contínua, de grande engajamento popular, em 2015 e 2016, o político vazio e tradicional de direita Michel Temer foi levado ao poder. Todo o movimento que redesenhou e reinventou a direita nacional se deu inteiramente antes de Trump se eleger, com seu estrategista Stevie Bannon e a sua ocupação das redes sociais norte-americanas.
O resultado político do golpe brasileiro foi imensamente maior do que ele próprio. Foi a criação de uma mobilização e subjetivação organizada de extrema direita no Brasil, nossa grande contribuição ao neofascismo do tempo. A criação de fato de um partido fascista brasileiro nas redes levaria o impensável Bolsonaro ao poder já em seguida, em 2018. O mesmo partido que está disputando o poder agora, com todas as suas forças, dispositvos de propaganda em massa e técnicas psico-políticas favoráveis. O partido bolsonarista neofascista, que liquidou a centro direita brasileira e passou a controlar toda política à direita, por ser de massa e por ser popular, se consolidou.
O Brasil chegava, por si mesmo, pelas próprias forças, ao mesmo nível de países tomados pelo populismo de extrema direita e autocracias da década de 2010: as Filipinas de Duterte, a Turquia de Erdogan, a Hungria de Orbán, a Rússia de Putin. Com o surgimento concomitante dos movimentos xenófobos oportunistas em outros países, como Espanha e Portugal, com o Brexit na Inglaterra, o crescimento do Front National de Marine Le Pen na França, a primeira eleição de Trump, os núcleos de propaganda fascista populares espalhados pelas redes sociais se tornaram de fato um movimento mundial.
O capitalismo em crise generalizada, do mundo do trabalho, ambiental, da corrosão do caráter na cultura global do consumo e da propaganda, tenta regular a sua própria catástrofe, a permanente e a iminente, com a gestão da violência e do extermínio neofascista.
Este movimento, das emergências do neofascismo dos anos de 2010, do qual o Brasil foi uma vanguarda, está sendo superado hoje em um novo estágio. Uma nova guerra fria mundial já desencadeada organiza e convoca os núcleos neofascistas em toda parte desde a preponderância imperial norte-americana. A reeleição de Donald Trump em 2024 mudou a escala e a produtividade do neofascismo mundial. Ele simplesmente partiu para a ação de restrição de direitos nos EUA – que hoje está censurado e busca censurar o mundo – e para a guerra, de EUA cercando a China, invadindo Venezuela e atacando o Irã, de Israel dizimando Gaza e sua população, da Rússia invadindo a Ucrânia.
Como sabemos, e tudo no tempo é muito explícito e documentado dia a dia, do ponto de vista do novo Império de coerção e agressão norteamericano, o Brasil deve se submeter. Trata-se de quebrar o multilateralismo do livre comércio, que posicionou melhor o Brasil no mundo nos anos 2000 e que, em conjunto com ações de transferência de renda e valorização dos salários, mudou o patamar de integração dos pobres na ideia de uma sociedade de consumo universal, nos primeiros governos Lula.
O descendente cubano, anticomunista de Miami, Secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, indicado como vice-rei para a incorporação econômica da América Latina, prepara em fogo alto todo tipo de intervenção possível nas eleições brasileiras visando a nos impingir um definitivo bolsonarismo 2.0. Sabemos o que ele significa, caso o plano, costurado e vindo diretamente dos EUA, dê certo: destruição acelerada de contratos e compromissos sociais, a começar pelas Universidades públicas brasileiras, ataque à direitos civis garantidos, liberação do crime policial generalizado, privatização de Petrobras e Banco do Brasil, política fiscal de choque, reorganização institucional autoritária e possivelmente um outro golpe. Os ganhos históricos difíceis de algum lugar para a pobreza brasileira em alguma sociedade de compromisso regrediriam espetacularmente.
A abertura e a globalização dos mercados de 1990 e 2000, que nos tornou a todos sujeitos da ordem de consumo mundial, ao realizarmos o fluxo mundial das mercadorias e suas imagens como cultura comum, liberal ou neoliberal, se torna agora, com o avanço da integração e manipulação multiplicada nas redes, a globalização do fascismo. Núcleos intensos de intervenção internos e externos aos países são produzidos, como modo limite de manter a gestão, pela liberação da violência, do capitalismo em estado de crise generalizada.
Aquela marca periférica brasileira do descompasso e do desvio da norma que era outra, os transes e as vertigens do subdesenvolvimento simultâneo da modernização conservadora, se tornou agora mundial. Literalmente a Terra está em transe.
4. Propaganda fascista e tecnologia das redes
A mudança técnica do tempo – rede de computadores mundiais (World Wide Web), celulares como computadores pessoais conectados à rede, facilitação de ocupação do espaço público de massas –permitiu de fato a reorganização contemporânea do fascismo, em escalas nacionais e em articulações mundiais. O fascismo, xenófobo, racista, sexista, violento e tradicionalista, se tornou cosmopolita de modo novo, tendo em cada célula individual, cada mônada da fragmentação mundial neoliberal da política – liquidação da consciência de classe do trabalho – um propagandista, um produtor e um propagador. Tudo isso só pode ocorrer a partir dos anos 2010 – o primeiro robô bolsonarista nas redes é de 2011… – uma vez que o celular inteligente, ligado permanentemente à internet, surgiu no ano de 2007.
No Brasil, organizaram-se redes de propaganda fascista através de núcleos militares, e seus interesses, através de influencers vendedores – de batons a vídeo games, curso de autoajuda e psicanálise de YouTube etc. – junto com verdadeiras redes nacionais de “jornalismo” de extrema direta, multiplicadas nas redes, baseados em mentiras e palavras de ordem que circulam através de cortes de Tiktok, mais redes de influencers religiosos e conservadores, evangélicos e católicos, mais influencers olavistas, mais influencers do elogio da escala mundial do consumo e da ostentação, e assim por diante. Toda a base de milhões de textos, invenções e imagens que pressionam a vida dos adeptos, cotidianamente e a todo tempo, que sustenta a corrosão do caráter em massa própria do nosso bolsonarismo.
É importante lembrarmos que o espaço público das comunicações massivas do tempo não é livre e regulado pela democracia. Não é definido pelas estruturas dos direitos civis, com respeito aos direitos humanos universais e mesmo à ciência. Ao contrário, o espaço público das comunicações de todos nós é privado, controlado por cálculos não abertos. O programa dos algoritmos de entrega de notícias e postagens não é garantido publicamente, nem discutido democraticamente. É feito de forma privada e blindada, com bases nos interesses políticos e comerciais das empresas globais, mas americanas, que têm a propriedade dos sistemas de redes e comunicação social mundial. Poucos donos, com altíssimo poder financeiro, lucros maiores do que PIBs de países, e poder político ocupando cadeiras nos boards decisivos do Império, regulam e possuem o continente de toda a comunicação pública e social circulando pelo mundo.
Daí a sua natural aproximação do poder de Estado, neofascista, que deve garantir seus interesses globais com a manutenção da posse de tamanho controle social. Ao mesmo tempo, essas redes devem servir à modulação mundial da ideologia da nova direita. A modulação e ocupação das consciências que, diga-se de passagem, é imanente à própria vida ideológica da expansão da mercadoria mundial, sua conquista biopolítica das classes médias e o império da imagem de seu gozo.
Neste nível de produção de política que nos importa, mais real em sua eficácia de massas do que tanto de nossas práticas de micropolítica de reparação e igualdade, já temos escancarado o programa do neofascismo real contemporâneo. O que é mais que um programa, é a prática material real da posse de meios de produção social.
O dono da empresa de plataformas de securitização e gerenciamento de dados civis e militares, Palantir, se manifestou recentemente revelando a política e o horizonte de tomada de posse da vida pela gestão neofascista, que funde a produção das plataformas de dados e redes e o interesse de Estado. Em convocação final ao movimento do chamado Iluminismo sombrio, de novos ideólogos de extrema direita como Nick Land, o bilionário do vale do silício Peter Thiel escreveu o manifesto de 22 teses da sua companhia, publicado em uma rede social mundial, onde podemos ler explicitamente que a era da democracia liberal está encerrada, não se deve admitir crítica aos ricos e aos poderes imperiais de Estado, povos superiores tecnologicamente são superiores morais e não devem responder às falsificações do multiculturalismo, as empresas de tecnologia e gerenciamento de dados em massa devem servir à política de intervenção e policiamento estabelecidas pelos Estado, a era atômica, que congelava os conflitos geopolíticos e as guerras por supremacia, foi substituída por um novo tipo de guerra liberada: a do controle informacional de populações e intervenção generalizada por drones.
É a explicitação de tudo que move o neofascismo de guerra global, o que vai na cabeça do senhorio da guerra e da ideologia, desde o seu núcleo imperial norte-americano. E são esses ideais e novo sistema de poderes, em sociedades em novo estado de controle permanente, que estão informando e negociando com o núcleo neofascista brasileiro de Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos EUA para assessorar o assalto às eleições e à democracia brasileira.
5. Falta de combate ao fascismo, crise imanente da esquerda
Recentemente averiguou-se (pesquisa Meio/Ideia) que 12,5% dos eleitores acreditam que Lula morreu e o presidente em exercício é um clone. Este é o resultado do polo demencial do bolsonarismo, que tanto corrói a percepção geral da vida a favor da estupidez quanto libera a atuação do absurdo em massa, nesse tipo de ficção de propaganda que unifica o grupo político em redes. Nessa massa de delirantes estratégicos, tanto existem aqueles que acreditam na falsificação industrial, em seu conteúdo de farsa, atestando a perda de qualquer conteúdo de continuidade histórica, quanto há aqueles que sabem bem que ela é falsa, porém gozam do direito de produzir choques simbólicos que fazem avançar a guerra cultural, base subjetivante da política da extrema direita. Tudo isso aconteceu, e continua acontecendo, no Brasil nos últimos 15 anos.
Enquanto isso, 80 milhões de brasileiros estão endividados, economicamente paralisados. A liberação total do cassino eletrônico das bets pelo governo de assalto de Michel Temer gerou uma verdadeira epidemia, crise de saude pública e financeira entre os pobres. Milhões de jovens brasileiros só tem os aplicativos de entrega como meio de sobrevivência, a nova escravidão de ganho normal da democracia liberal, arriscando a vida todos os dias em cima de uma moto, muitas vezes alugada, sem nenhum tipo de direito. Outras centenas de milhares de brasileiros desempregados passam de dez a doze horas por dia, seis ou sete dias por semana, em um carro, calculando o preço do combustível do quilômetro rodado, a taxa do aplicativo e o preço pago pelo passageiro, em uma tensa relação contábil e quantitativamente abstrata com a vida. Nesse trabalho infernal de Sísifos pós-modernos, eles costumam ser embalados por música sertaneja do agronegócio, programas policiais que orientam o ódio contra os mais pobres e rádios de jornalismo de extrema direita. Acreditam que o governo só existe para lhes cobrar impostos, sobretaxar a sua renda limite. As escolas públicas vão sendo sucateadas pela política de hiper exploração dos professores, e costumam ser desprezadas por jovens que se alfabetizam pelas redes sociais. Uma população de jovens pobres sem trabalho nem futuro na democracia técnica liberal é arregimentada pelo tráfico de drogas e seus exércitos de facções em guerra por sobrevivência e mercados. Outra população vive de garimpo, grilagem e desmatamento. Nesse cenário, igrejas evangélicas congregam 26,9% da população, em sua maioria mulheres trabalhadoras, muitas vezes chefes de família. Os pastores, reais líderes políticos da direita brasileira, orientam o voto de 70% deles para o bolsonarismo. Tudo acontecendo na nossa cara, mas sem que vejamos bem, nas ruas, nas quebradas e em todo país.
Evidentemente a política simbólica, ideológica, da esquerda democrática e progressista brasileira diante deste cenário, até recentemente desconhecido ou denegado, beira o fracasso. Os ganhos materiais dos pobres brasileiros e a onda de aprovação lulista dos anos 2000 parecem esgotados, até segunda ordem, e muito pouco, do ponto de vista material e de horizonte político renovador, foi oferecido ao povo brasileiro nos últimos anos. O apelo pela manutenção da democracia, nestas condições, é retórico e abstrato. Esse apelo não combateu efetivamente, politicamente, simbolicamente, psicanaliticamente, a presença generalizada das práticas fascistas entre nós.
Apenas os salvos e beneficiados, com renda garantida e formação cultural histórica, sabem o que significa a manutenção da democracia incompleta brasileira e se preocupam com ela. A vida dura e degradada, movida à exaustão, desespero e bala, de 100 milhões de brasileiros que ganham até 2.500 reais não reconhece a democracia dos conhecedores como algo a ser valorizado. A extrema direita explora, com razão de fundo, os impasses da vida ruim e da renda concentrada brasileira, orientando todo o imenso mal-estar material para a degradação do entendimento do que são os governos de esquerda e contra a democracia tão limitada brasileira. O fundo de seu poder é a experiência de sofrimento social dos pobres brasileiros, para quem, passado o tempo das bolsas sociais e da expansão da economia brasileira no mundo, temos muito pouco a oferecer. A esquerda institucional há muito suspendeu toda crítica social ao terror da desigualdade brasileira e não sabe como retomar uma energia histórica real, como teve de fato nos anos 1980 e 1990.
Diante da avalanche de mal-estar e manipulação autoritária do impasse, oferecemos um velho princípio do passado: o carisma de Lula, uma política frágil e algo regressiva, como válvula de escape para a democracia brasileira, que todos devem ser obrigados a aceitar.
Mas, metade do país que vota há muito tempo construiu instrumentos, discursos, práticas e lideranças para recusar esse nosso velho ideal pela raiz.
Para saber mais:
https://aterraeredonda.com.br/politica-fixada-e-cultura-global-da-imagem/
https://aterraeredonda.com.br/subjetivacoes-e-lugares-sociais-neofascistas/
__________
[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
[2] Ver a respeito meus trabalhos Dilma Rousseff e o ódio político (Hedra, 2015) e Michel Temer o fascismo comum (Hedra, 2017) e o filme Intervenção, amor não quer dizer grande coisa (2016, https://embaubaplay.com/catalogo/intervencao-amor-nao-quer-dizer-grande-coisa/). Ver também Além do princípio do pudor (Zagodoni, 2024), de Jurandir Freire Costa.