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Reflexões a partir do evento Psicanálise e sexualidades: multiplicidades e espirais do desejo 

Este artigo sintetiza as principais contribuições do evento realizado em agosto de 2025 no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. As reflexões aqui apresentadas buscam contribuir para o debate sobre os desafios contemporâneos da teoria e prática psicanalíticas, pelo olhar de uma não psicanalista.

por Marilia Campos Oliveira e Telles[1]

 

O evento Psicanálise e sexualidades: multiplicidades e espirais do desejo[2], realizado pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, trouxe importantes contribuições para repensar as intersecções entre teoria psicanalítica e as questões contemporâneas da sexualidade. Os intensos debates aconteceram durante um dia e uma noite, quando pesquisadores e profissionais se debruçaram sobre temas urgentes que desafiam tanto a clínica quanto a teoria psicanalítica.

A abertura do evento, conduzida por Paulo Ceccarelli, evidenciou uma ausência significativa nos estudos psicanalíticos: a masturbação feminina. Esta lacuna não é fortuita, mas revela como a heteronormatividade opera enquanto dispositivo de controle social, produzindo através de seus processos repressivos aquilo que Ceccarelli denomina “soluções perversas”.

A distinção conceitual entre o recalcado e o reprimido ganha aqui contornos clínicos fundamentais: enquanto o retorno do recalcado manifesta-se na neurose, o retorno do reprimido emerge na perversão. Esta formulação lança luz sobre um fenômeno contemporâneo preocupante – o empobrecimento do mundo fantasmático de indivíduos reprimidos e fixados, que encontram no consumo pornográfico uma tentativa de realização substitutiva.

A reflexão histórica de Ceccarelli sobre o “demônio” como antigo modo de se referir à pulsão revela estruturas de culpabilização que persistem: quando o homem experimentava o desejo sem conseguir nomeá-lo, a mulher era responsabilizada, tornando-se a “bruxa” a ser punida.

Pornografia e a crise da fantasia

A mesa sobre “Pornografia e pulsão de morte” trouxe dados alarmantes que dimensionam o fenômeno contemporâneo. Caio Romano apresentou sua pesquisa sobre masturbação masculina, revelando que sites pornográficos recebem 26.000 acessos por segundo mundialmente, com homens se masturbando durante o horário de trabalho. Estes dados apontam para o que Romano diagnostica como uma “crise no fantasiar”.

Dayana Gomes, a Lady Milf, trabalhadora do sexo, como se apresentou, trouxe um relato direto, apontando inclusive a dificuldade de escuta por profissionais da saúde mental diante de pacientes que trabalham produzindo conteúdo pornográfico e atendendo clientes. Dayana contou sobre uma pessoa que estava com dificuldades em atender determinado cliente que tinha um fetiche que a fazia sentir-se mal. Ela procurou o atendimento de um psiquiatra que se limitou a prescrever um antidepressivo, sem sequer escutar suas queixas, deixando-a amortecida, sem condições de trabalhar – bem diferente de sua necessidade.

Dayana relatou como o movimento feminista que tomou impulso nos últimos anos permitiu às mulheres passarem a liderar o job – o negócio do pornô –, passando a dar limites em um universo normalmente habitado por muitos homens atrás das câmeras (produtores, diretores, câmeras – e o próprio cliente), e “não se sentir estupradas sendo pagas”.

Flávio Ferraz aprofundou a análise da perversão, caracterizando-a pela especialização em determinada cena que delimita e estereotipa a fantasia. A pulsão de morte opera aqui através da coisificação do outro, eliminando riscos na cena erótica. O parceiro do perverso é aquele capaz de se anular para satisfazer o desejo alheio, configurando uma dinâmica onde o fetiche emerge como desejo onipotente. Fetiche este que “só os pornógrafos e publicitários são capazes de conhecer”.

Miriam Chnaiderman ofereceu uma perspectiva contextual crucial: em um mundo onde o trabalhador encontra-se sugado e alienado, a masturbação no banheiro durante o horário de trabalho constitui uma forma de reencontro consigo mesmo. Esta observação, me pareceu, revela as dimensões sociopolíticas da sexualidade contemporânea.

Saberes hifenizados e resistências

No segundo dia do evento, a discussão sobre “Saberes hifenizados: gênero, raça e sexualidade” trouxe contribuições fundamentais para repensar os fundamentos da teoria psicanalítica. Paulo César Endo questionou o mito do sexo biológico, propondo que a nomeação dos corpos se dá através de marcadores das diferenças.

Endo sugeriu uma revisão terminológica importante: ao invés de “dissidência”, propõe “desobediência”, já que muitos sujeitos nunca estiveram no lugar normativo do qual supostamente se afastaram. O resgate do Freud do “corpo perverso polimorfo” emerge como ferramenta teórica para compreender a proibição do desejo e suas consequências melancólicas.

Andreone Teles Medrado propôs uma inversão metodológica fundamental: ao invés de encaixar teorias nas pessoas, devemos escutar as pessoas. Esta abordagem implica situar as diferenças sem classificá-las, reformulando inclusive os protocolos de anamnese.

O conceito de diferir de Derrida, trazido por Chnaiderman, sugere que a diferença é constituinte da sexualidade, podendo ser qualquer diferença. Esta perspectiva amplia radicalmente as possibilidades de compreensão dos arranjos sexuais contemporâneos.

Uma das contribuições mais provocativas veio da discussão sobre “políticas anais”, baseada no trabalho de Javier Sáez e Sejo Carrascosa. Endo demonstrou como a heteronormatividade, em última instância, legitima o estupro, revelando o paradoxo presente na obra freudiana que tenta produzir o ânus como região de “não-desejo”.

A palavra queer, reinterpretada como (deixar o) “cu ir”, emerge como operador de resistência que utiliza o campo da linguagem para defesa e ataque através do deboche. Esta estratégia me lembrou das pornochanchadas, dos Dzi Croquetes dos anos 1970, do besteirol dos anos 1980, e revela como grupos marginalizados desenvolvem táticas de sobrevivência simbólica.

Feminismos e aborto: trauma e institucionalização

A mesa sobre feminismos trouxe perspectivas múltiplas sobre questões contemporâneas. O GT Generidades, representado por Luísa Godoy, Isadora Barretto e André Bizzi, enfatizou que a práxis psicanalítica se constrói na relação, operando na deriva e no não-saber, características que demonstram a hibridez própria da psicanálise, que se faz a partir daquilo que vem de fora.

Evelyse Clausse, representando o GT O feminino e imaginário cultural contemporâneo, situou o aborto não como acontecimento individual, mas social, de controle da reprodução, conforme Silvia Federici. Sua análise da medicalização e domesticalização da vida, fragmentando comunidades em favor de experiências individualizadas, revela como violências institucionais se somam ao trauma do ato em si, sempre reafirmando que a experiência do aborto é atravessada pelo luto.

A fala de Evelyse teve como epílogo a voz de uma mulher e os obstáculos que enfrentou para realizar um aborto legal, narrado no podcast Sala de espera[3] e tocado para a plateia.

Mara Caffé ofereceu um panorama teórico robusto, transitando pelas teorias feministas queer, decoloniais, transfeministas e pelo feminismo africano. Sua contribuição central reside na proposição de que a transferência, enquanto ferramenta exclusiva da psicanálise, permite transformações que não são possíveis nas ciências sociais e políticas. Mara trouxe novamente a ideia de hibridez, no sentido das “gramáticas da hibridez”, como assinalado por Thammy Ayouch, colocando três possibilidades para o trabalho psicanalítico: a indiferença, a incorporação e/ou a transformação.

A mesa “Prostituição, erotismo e linguagem” trouxe vozes diretas e pesquisas antropológicas que questionam fronteiras estabelecidas. Christiana Paiva de Oliveira, uma das organizadoras do evento, apresentou tópicos de sua pesquisa de doutorado, como a ideia de “putativismo”, a relação de controle que o pagamento envolve e como muitas das prostitutas entrevistadas se apresentam como psicólogas de seus clientes, pela escuta que acabam oferecendo.

A antropóloga Natânia Lopes apresentou-se dizendo: “Natânia Lopes e eu sou puta”, reivindicando a palavra “puta” como forma de resistência. O termo “trabalhadora do sexo” tem utilidade no campo da reivindicação de direitos, mas “puta” tem mais força e devemos nos apropriar. Sua pesquisa etnográfica revela a “mitologia de bordel” – acontecimentos repetitivos sob o imperativo do segredo.

A questão central levantada por Lopes – “prostituição pode ser apenas trabalho?” – desestabiliza perspectivas “regulamentaristas”, forçando-nos a pensar nas complexas relações entre sexualidade e trabalho. O depoimento de trabalhadoras que afirmam “programa não é sexo” desafia a máxima foucaultiana de que “no sexo está a verdade última do sujeito”.

Nathânia contou vários episódios sobre Gabriela Leite, a primeira “puta que fala”, pioneira ao trabalhar pelos direitos destas profissionais, atentando para o fato de que ao falar ela também assinalou um lugar no mapa e passou a ser (re)conhecida. Como antropóloga, Nathânia destacou que a concepção freudiana de sexualidade é mais uma – e não é “A” norma.

Encerrando a mesa, Miriam Chnaiderman apresentou seu texto “Escrita dos mil corpos de todos nós”, que começa citando “Do fundo do poço se vê a lua”, de Joca Reiners Torron para acertar no alvo afirmando que “a vida fantasmática nos determina”.

Novas feridas narcísicas

O encerramento, conduzido por Guilherme Terreri /Rita Von Hunty, propôs uma atualização das feridas narcísicas freudianas. Além das três clássicas – não somos imagem de Deus, não somos centro do universo, não somos senhores de nossa própria casa – surge uma quarta: a cisgeneridade como pacto ficcional que nos mantém confortáveis.

Esta proposta ressignifica profundamente o projeto psicanalítico, incluindo a dimensão política do inconsciente e reconhecendo a história como aquilo que dói e impõe limites. A invisibilidade da norma – cisgeneridade, heterossexualidade, branquitude – opera como dispositivo de poder que naturaliza opressões. Sem o queer a psicanálise corre o risco de tornar-se normativa e, assim, se torna necessária uma revolução no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (mais conhecido pelo seu apelido, DSM) para classificar e incluir a patologia dos opressores, o transtorno de acumulação, a amnésia histórica seletiva, entre outras.

É imprescindível que nos revoltemos contra os poderes da normalização e atentarmos para os nomes que damos a situações complexas na nossa sociedade.

Amara Moira apresentou devastadora pesquisa sobre experiências sexuais precoces em autobiografias de mulheres trans e travestis. A recorrência de relatos de estupros na infância, narrados “entre risos” na vida adulta como se fossem “normais”, revela mecanismos de normalização da violência que merecem análise cuidadosa.

O debate subsequente evidenciou assimetrias educacionais: enquanto meninas cisgêneras recebem orientações sobre proteção corporal, meninos com “jeito feminino” frequentemente ficam desprotegidos, revelando como a transfobia opera desde a infância, embora estas crianças venham a receber o olhar e as medidas de cuidado de suas mães.

Considerações finais

O evento evidenciou a necessidade urgente de uma psicanálise que não apenas reconheça, mas incorpore ativamente as transformações contemporâneas da sexualidade. A epígrafe trazida por Terreri – “Sem o queer a psicanálise corre o risco de tornar-se normativa” – sintetiza este desafio.

As contribuições apresentadas convergem para a necessidade de escutas que não reproduzam violências, práxis que operem no não-saber e na deriva, e teorias que reconheçam a dimensão política do inconsciente. Trata-se de um horizonte emancipatório que exige da psicanálise incorporação transformadora da diferença.

O caminho apontado não é o da simples inclusão de “novos temas” na agenda psicanalítica, mas da transformação estrutural que reconheça a hibridez como característica constitutiva tanto da sexualidade quanto da própria psicanálise. Apenas assim poderemos responder adequadamente às demandas de uma sociedade em transformação, onde as antigas certezas sobre sexo, gênero e desejo já não oferecem respostas suficientes, requerendo abertura ao polimorfo e desconhecido.

 

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[1] Participante convidada do grupo de trabalho e pesquisa Famílias no século XXI do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Profissional da resolução consensual de conflitos. Advogada colaborativa e mediadora certificada pelo ICFML – Instituto de Certificação e Formação de Mediadores Lusófonos/IMI. Especialista em Direito de Família e Sucessões pela Escola Paulista de Direito – EPD. Bacharel em Artes Cênicas pela USP. Membro e docente do Instituto Brasileiro de Práticas Colaborativas – IBPC; membro das Comissões Nacionais de Mediação e de Diversidade e Inclusão Racial do IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família, e do Gemep/CBAr – Grupo de Mediação Empresarial do Comitê Brasileiro de Arbitragem.

[2] Disponível em: https://youtu.be/2w2G3_-HXZY?si=bPkoxr3QdBPzX8gB

[3] O podcast Sala de espera teve apoio da Nem presa, nem morta, uma campanha que luta para transformar o debate e as leis sobre aborto no Brasil, produzido pela Radio Novelo e publicado em 17/07/2025. Disponível em:

https://open.spotify.com/episode/11RI6iK31ZphHx5ca0RaA1?si=M2Rn9QUySB6-IygLHvaudw

https://open.spotify.com/episode/2lmGrJMUHECgdKFY4VFxo3?si=2ZS2DmkrTUqWMbSkvB8T_Q

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